<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178</id><updated>2012-02-16T02:48:26.153-08:00</updated><category term='sociedade'/><category term='opressão'/><category term='especulação'/><category term='corrupção'/><category term='pobreza'/><category term='multinacionais'/><category term='desigualdade'/><category term='banca'/><category term='exploração'/><category term='neoliberalismo'/><category term='globalização'/><category term='desespero'/><category term='lucro'/><category term='finanças'/><category term='injustiça'/><title type='text'>Ricos e pobres</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>23</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-7222346185898706680</id><published>2007-09-27T11:33:00.000-07:00</published><updated>2007-09-27T11:36:15.515-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Além-mar&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Maio 2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato Kizito Sesana&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O fermento das periferias&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 170%"&gt;&lt;p align="justify"&gt;Vivo na periferia da periferia de Nairobi. Mas aqui estão sempre a acontecer coisas novas, que nunca acontecem nos condomínios fortificados do centro da capital. Na verdade, é aqui que surgem todos os fermentos da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, em 99, vim viver para aqui, a localidade chamava-se Riruta. Continuo a viver na mesma casa, mas o aumento da população fez com que os nomes também se multiplicassem. Riruta desmultiplicou-se em Riruta East, Ndurarua, Satellite, Railway, etc. assim, agora vivo em Nairobi, periferia do Ocidente. As periferias expandem-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Riruta e arredores, que somam um total de mais de 100 mil habitantes, as estradas estão em condições calamitosas. Os esgotos, a rede eléctrica, a linha telefónica chegam só às estradas principais. O posto da polícia é um conjunto de barracas de chapa enferrujada. Serviços sanitários e escolas públicas são totalmente inadequados. E todavia, por incrível que possa parecer, esta periferia de periferia de Nairobi é para muitas pessoas o centro, é a meta que promete o fim de todos os sofrimentos, o sonho de um futuro mais bem mantido vivo através das cartas de amigos que aqui se estabeleceram há já alguns anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem gostaria de viver aqui? Não só quem vive nas zonas rurais semiáridas do Quénia, onde serviços sanitários e escolas públicas são praticamente inexistentes, mas também centenas e centenas de desesperados que fugiram da área dos Grandes Lagos. De facto, o crescimento galopante de Riruta deve-se sobretudo à imigração clandestina daquela área.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Viver no paraíso&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À pergunta: "Porque vieste viver para Riruta?", Jean Jacques, burundês licenciado em Psicologia e casado com uma ruandesa, responde: "Quando o governo tanzaniano decidiu obrigar os refugiados a voltar para os seus países de origem, mandaram-nos para a fronteira. Tínhamos de atravessar o rio Kagera. Sob o olhar dos representantes da ACNUR, dos soldados ruandeses e dos tanzanianos, as pessoas eram atadas com uma corda. Filas inteiras de pessoas preferiram lançar-se ao rio e ali morrer do que voltar ao Ruanda. Até hoje ninguém denunciou o facto. Eu decidi fugir."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pierre, esse é da República Democrática do Congo e acaba de fazer 19 anos. Está em Riruta há ano e meio, e, precisamente no dia em que escrevia este texto, fui com ele ao encontro com dois investigadores do Tribunal Penal Internacional. Pierre foi um menino-soladado, e fugiu do seu país quando o senhor da guerra lhe ordenou que matasse um jornalista e um missionário, pessoas que o incomodavam porque denunciavam o que estava a acontecer. Pierre decidiu que não podia mais obedecer a estas ordens – já tinha assassinado dezenas de pessoas – e escapou, porque recusar-se a matar significaria inevitavelmente a sua morte. A primeira vez que o encontrei, na paragem dos autocarros que chegam da Campala, com o desespero e o medo estampados num rosto ainda de criança, parecia um animal preso na ratoeira. Depois, notei que se ia acalmando de dia para dia, enquanto procurava voltar a uma vida normal juntamente com os outros jovens da casa onde vivo. Hoje, enquanto contava aos investigadores a sua vida, durante mais de duas horas conseguiu controlar-se e controlar toda a desconfiança nas instituições que a sua experiência lhe incutiu. A dada altura, desatou a soluçar de modo incontrolável; e quando conseguiu falar, disse: "Não quero pensar mais em todo o mal que fiz, nem no mal que me fizeram a mim."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O encontro com Deus&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Em Kibiria, porém, não há só histórias dramáticas. As periferias são também, para quem é capaz de ver, laboratórios da sociedade do futuro. Aqui, a sociedade muda, inventa novas formas de sobrevivência. Nos bairros de Nairobi rica reforçam-se as cercas com arame farpado, há quem se feche atrás dos muros, aumenta-se a potência dos holofotes para iluminar todos os recantos das vivendas e multiplicam-se os seguranças (todos pobretanas que de dia vivem em bairros como Riruta e de noite protegem os ricos); o ideal é que não aconteça nada, que ninguém perturbe o mundo dourado em que se vive. Ao contrário, nas periferias surgem todos os fermentos desta sociedade. Alguns são fermentos de violência e de ódio, mas outros são fermentos de solidariedade e dignidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui estão os criadores: o Lionel que, há menos de 30 anos, anda a preparar a sua morte por alcoolismo, mas que pinta quadros onde a vida esplode com cores e formas das mais extraordinárias; a Miriam, que vive só numa barraca, onde, à noite, com uma velha máquina de escrever, inventa a trama de uma telenovela sobre a vida nos bairros de barracas que gostaria de vender a uma televisão privada; o Charles, também ele ruandês, e também ele ilegal, que, depois de um dia de trabalho como técnico de computadores, enquanto a mulher e os filhos preparam o jantar num fogareiro a carvão, trabalha num portátil para desenvolver um novo software; e está também a Anjela, que quer dar vida a um grupo de formação para seropositivos. A periferia, para quem crê e quer deixar-se renovar, é o encontro com o Deus que não tem nada, que vem de baixo, que nos olha com os olhos das crianças, nos fala com a voz das prostitutas, nos abençoa com a voz do velho que está para morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A África mediática&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem decidiu que Kabiria é a periferia? Onde está o centro? Não teremos talvez, antes de mais, de pôr em discussão a ideia de centro? Não é esta ideia o resultado de uma doença grave, que infectou todo o ocidente, e que se chama, vejam só, etnocentrismo?... Ainda para mais na sua variante mais patológica, o racismo…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Ocidente, o Norte do mundo, acredita ser o centro do mundo, o modelo de desenvolvimento válido para todos, e que se os outros não o imitam é simplesmente porque são atrasados corruptos, preguiçosos e, naturalmente, pouco inteligentes. Fecha-se por isso num isolacionismo que o condena a não compreender os outros, e portanto a não se interessar pelos outros. Há uma parte da opinião pública ocidental que se insurge contra este estado de coisas, que procura compreender os problemas em profundidade, mas esta parte, que está porventura a aumentar, é certamente ainda uma minoria que não consegue influir nas opções dos grandes meios de comunicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas vezes ouvi dizer a competentes e apaixonados enviados especiais de visita a um país africano coisas do género: "O meu director diz que uma notícia por dia sobre a África é mais que suficiente. Portanto, como já se está a falar da Somália, não há esperança de que qualquer outro país africano consiga espaço. Portanto, como já se está a falar da Somália, não há esperança de que qualquer outro país africano consiga espaço. A menos que aconteçam coisas absolutamente extraordinárias, como novas guerras, milhares de mortos, carestias.”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Realmente, guerras, mortos e carestias parecem ser as únicas coisas que podem interessar quando se fala da África.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-7222346185898706680?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/7222346185898706680/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=7222346185898706680' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/7222346185898706680'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/7222346185898706680'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/09/alm-mar-maio-2006-renato-kizito-sesana.html' title=''/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-4876313474216586953</id><published>2007-09-27T11:03:00.000-07:00</published><updated>2007-09-27T11:10:13.650-07:00</updated><title type='text'>A ESCASSEZ ORGANIZADA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Jean Ziegler&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O império da vergonha&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Porto, Edições Asa, 2005&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;em&gt;excertos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;A ESCASSEZ ORGANIZADA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;p align="justify"&gt;Nos nossos dias constituíram-se novos feudalismos, infinitamente mais poderosos, mais cínicos, mais brutais e mais astutos que os antigos. São as companhias transcontinentais privadas da indústria, da banca, dos serviços e do comércio.&lt;br /&gt;Chamo cosmocratas a esses novos senhores feudais. São os novos soberanos do império da vergonha.&lt;br /&gt;Observemos o mundo que eles criaram.&lt;br /&gt;É verdade que nem a fome nem o endividamento são fenómenos novos na História. Desde a noite dos tempos que os fortes têm os fracos presos pela dívida. No mundo feudal, caracterizado pela ausência de trabalho assalariado, o senhor submetia os seus servos pela dívida. Forma arcaica da produção agrícola, que sobreviveu até aos nossos dias, o sistema dos «cupões» praticado pelo latifúndio equatoriano, paraguaio ou guatemalteco escraviza do mesmo modo o trabalhador rural (Não recebendo salário, mas cupões, o trabalhador troca estes últimos por mercadorias na loja do latifundiário. Como os cupões são sempre insuficientes para garantir a subsistência da sua família, o trabalhador endivida-se para toda a vida.)&lt;br /&gt;Também a fome acompanha a Humanidade desde o seu aparecimento na Terra. As sociedades neolíticas africanas, os mais antigos dos grupos exógamos conhecidos, viviam da recolecção. Os seus membros viviam da apanha de raízes, de ervas e de frutos selvagens de uma estação das chuvas à seguinte. Não conheciam nem a agricultura nem a domesticação dos animais, e praticavam uma forma rudimentar de caça miúda. O infanticídio foi a sua primeira instituição social. No começo de cada estação seca (longo período de mais ou menos sete meses, no curso do qual nenhuma colheita era possível e a caça era rara), os mais velhos contavam as bocas a alimentar e as provisões disponíveis. Em função de uma avaliação prospectiva, eles mandavam eliminar um número variável de recém-nascidos por seus pais.&lt;br /&gt;No cerne da obra imensa de Karl Marx reside uma preocupação essencial: a definição da falta. Até ao seu último fôlego, Marx esteve persuadido de que o homem viveria no reino da carência durante mais alguns séculos. E o par maldito dono-escravo ainda estava longe de se desfazer.&lt;br /&gt;Marx recorre, para tratar desta questão, a uma expressão difícil de traduzir: «&lt;em&gt;Der objektive Mangel&lt;/em&gt;» («a carência objectiva»). Esta frase designa uma situação onde os bens materiais disponíveis na Terra são objectivamente insuficientes para satisfazer todas as necessidades incompressíveis, elementares, dos homens. Em vida de Marx (como durante todos os séculos precedentes), a carência objectiva governou de facto o planeta, os bens disponíveis na Terra eram definitivamente insuficientes para satisfazer as necessidades vitais dos homens. Toda a teoria marxista da divisão do trabalho, das classes sociais, da origem do Estado, da luta de classes é fundada nesta hipótese da carência objectiva de bens.&lt;br /&gt;Mas depois da morte de Marx, e mais particularmente durante a segunda metade do século XX, uma formidável sucessão de revoluções industriais, tecnológicas e científicas dinamizou as forças produtivas. Hoje, o planeta não suporta o peso das suas riquezas.&lt;br /&gt;Dito de outro modo: o infanticídio, tal como continua a ser praticado dia após dia, já não obedece a nenhuma necessidade.&lt;br /&gt;Os donos do império da vergonha organizam conscientemente a escassez. E esta obedece à lógica da maximização do lucro.&lt;br /&gt;O preço de um bem depende da sua raridade. Quanto mais raro é um bem, mais elevado é o seu preço. A abundância e a gratuidade são os pesadelos dos cosmocratas, que consagram esforços sobre-humanos a conjurar tal perspectiva. Só a carência garante o lucro. Organizemo-la!&lt;br /&gt;Os cosmocratas têm um horror especial à gratuidade que a natureza possa propiciar. Vêem nela uma concorrência desleal, insuportável. As patentes sobre o vivo, as plantas e os animais geneticamente modificados, a privatização das nascentes de água devem pôr fim a tão intolerável facilidade. Voltaremos ao assunto.&lt;br /&gt;Organizar a carência dos serviços, dos capitais e dos bens é, nestas condições, a actividade prioritária dos donos do império da vergonha. Mas essa carência organizada destrói no planeta, todos os anos, a vida de milhões de homens, de crianças e de mulheres.&lt;br /&gt;Hoje, é possível dizer-se que a miséria atingiu um nível mais pavoroso do que em qualquer outra época da História. É, assim, que mais de 10 milhões de crianças com menos de 5 anos morrem anualmente de subalimentação, de epidemias, de poluição das águas e de insalubridade. Cinquenta por cento destas mortes ocorrem nos seis países mais pobres do planeta. Quarenta e dois por cento dos países do Sul abrigam 90 por cento das vítimas.&lt;br /&gt;Estas crianças não são destruídas por uma falta objectiva de bens, mas por uma distribuição desigual dos mesmos. Logo, por uma falta artificial.&lt;br /&gt;Desde o começo do novo milénio, atentados, catástrofes, uma mais aterradora que a outra, sacodem o planeta. De Nova Iorque a Bagdade, do Cáucaso a Bali, de Gaza a Madrid, milhares de seres humanos são ceifados, queimados, dezenas de milhares feridos.&lt;br /&gt;Nos países do hemisfério sul, as epidemias e a fome fazem cada vez mais vítimas. A exclusão e o desemprego grassam no Ocidente.&lt;br /&gt;Mas os novos feudos capitalistas não cessam de prosperar. O ROE (rendimento dos fundos próprios) das 500 maiores companhias transcontinentais do mundo foi de 15 por cento por ano desde 2001 nos Estados Unidos, de 12 por cento em França.&lt;br /&gt;Os meios financeiros desses empórios excedem, e de longe, as suas necessidades em investimento: é, assim, que a taxa de autofinanciamento se eleva a 130 por cento no Japão, 115 por cento nos Estados Unidos e 110 por cento na Alemanha. O que fazem, nestas condições, os novos senhores feudais? Recompram maciçamente na Bolsa as suas próprias acções. Pagam aos accionistas dividendos faraónicos, e aos administradores, gratificações astronómicas. (Em 20 de Julho de 2004, a Microsoft anunciava que os seus accionistas iam embolsar 75 mil milhões de dólares a título de dividendos durante o período 2004-2008.)&lt;br /&gt;Mas nada os sacia! Os lucros supérfluos continuam a crescer.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;A FOME&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;p align="justify"&gt;O massacre, pela subalimentação e pela fome, de milhões de seres humanos continua a ser o maior escândalo do início deste terceiro milénio. É um absurdo, uma infâmia que nenhuma razão justifica nem nenhuma política pode legitimar. Trata-se de um crime contra a Humanidade indefinidamente repetido.&lt;br /&gt;Hoje, como eu já disse, todos os cinco segundos morre de fome ou de doenças ligadas à malnutrição uma criança com menos de dez anos. Deste modo, a fome terá morto em 2004 mais seres humanos do que todas as guerras juntas desencadeadas nesse mesmo ano.&lt;br /&gt;Em que pé se encontra a luta contra a fome? O seu recuo é evidente. Em 2001, uma criança com menos de 10 anos morria todos os sete segundos. Nesse mesmo ano, 826 milhões de pessoas tinham ficado inválidas em consequência de subalimentação grave e crónica. Hoje são 841 milhões. Entre 1995 e 2004, o número das vítimas da subalimentação crónica aumentou 28 milhões de pessoas.&lt;br /&gt;A fome é o produto directo da dívida, na medida em que é ela que priva os países pobres da sua capacidade de investir os fundos necessários para o desenvolvimento das infra-estruturas agrícolas, sociais, de transporte e serviços.&lt;br /&gt;A fome significa sofrimento agudo do corpo, enfraquecimento das capacidades motoras e mentais, exclusão da vida activa, marginalização social, angústia do amanhã, perda de autonomia económica. Acelera o caminho para a morte.&lt;br /&gt;A subalimentação define-se pelo défice dos aportes de energia contidos na alimentação que o homem consome. Mede-se em calorias – a caloria é a unidade de medida da quantidade de energia queimada pelo corpo.&lt;br /&gt;No mundo, morrem anualmente 62 milhões de pessoas, ou seja, l por mil da Humanidade – todas as causas incluídas. Em 2003, trinta e seis milhões morreram de fome ou de doenças devidas às carências em micronutrientes.&lt;br /&gt;A fome é, pois, a principal causa de morte no nosso planeta. E esta fome é obra do homem. Quem morre de fome morre assassinado. E o assassino tem nome: a dívida.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A FAO&lt;/strong&gt; - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – &lt;strong&gt;estabelece a diferença entre fome «conjuntural» e fome «estrutural». A fome conjuntural é devida ao brusco afundamento da economia de um país ou de uma parte da mesma. Quanto à fome «estrutural», essa é induzida pelo subdesenvolvimento do país.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eis um exemplo de fome conjuntural. Em Julho de 2004, uma monção especialmente violenta submergiu o Bangladesh. Mais de 70 por cento deste país de 116 000 quilómetros quadrados ficou debaixo de água. Dos 146 milhões de pessoas que o habitam, três milhões ficaram sujeitas a morrer de fome. O Bangladesh é de facto um delta composto por múltiplos rios que se lançam no golfo de Bengala. Esses rios vêm dos contrafortes do Himalaia (Butão, Ladaque, Nepal). Quando chega a monção, a sua cheia torna-se violenta, imprevisível. As vagas arrancam árvores e casas, destroem barragens e diques, cobrem de uma água verde, cheia de limos, turbulenta, centenas de milhares de hectares de terras agrícolas e devastam os bairros ribeirinhos das cidades.&lt;br /&gt;Em tempo normal, se assim se pode dizer, cerca de 30 000 crianças com menos de 10 anos ficam cegas todos os anos no Bangladesh, por falta de vitamina A. A OMS estima que devido às inundações esta cifra vai pelo menos quintuplicar em 2004.&lt;br /&gt;A fome estrutural e a fome conjuntural são consequência directa da dívida. No que concerne à fome estrutural, isso é evidente. As relações de causalidade entre fome conjuntural e dívida, pelo contrário, exigem uma explicação.&lt;br /&gt;Voltemos à fome excepcional do Bangladesh em 2004. As duas principais bacias hidrográficas responsáveis pelas inundações de Julho são as do Bramaputra e do Ganges. Ora, acontece que eu realizei, a pedido das Nações Unidas, uma missão no Bangladesh em 2002. Tratava-se precisamente de examinar os meios próprios para evitar a repetição deste tipo de catástrofes. No amplo gabinete do ministro dos Recursos Hídricos em Daca, passei horas e horas a estudar gráficos, estatísticas, projectos. Pois bem, o que ressaltou desse estudo foi que a tecnologia contemporânea permitiria, sem problemas de maior, domesticar o conjunto dos rios do Bangladesh. Tecnologicamente, as inundações provocadas pela monção seriam perfeitamente controláveis. Mas como o Bangladesh é um dos países mais endividados da Ásia do Sul, falta o dinheiro para represar os rios e quebrar a sua corrente.&lt;br /&gt;A subalimentação severa e crónica destrói lentamente o corpo. Debilita-o, priva-o das suas forças vitais. A doença mais simples abate-o depois. A sensação de carência é permanente.&lt;br /&gt;Mas os sofrimentos mais terríveis provocados pela subalimentação são a angústia e a humilhação. O faminto trava um combate desesperado e permanente pela sua dignidade. Sim, a fome provoca a vergonha. O pai não consegue alimentar a sua família. A mãe está de mãos vazias diante do filho, que chora de fome.&lt;br /&gt;Noite após noite, dia após dia, a fome diminui as forças de resistência do adulto. Chegará o dia, e ele sabe-o, em que nem sequer já poderá vaguear pelas ruas, vasculhar os caixotes do lixo, mendigar ou procurar aqueles pequenos trabalhos ocasionais que lhe permitam comprar uma libra de mandioca, um quilo de arroz, para sustentar – mediocremente, é certo – a sua família. É corroído pela angústia. Está em farrapos; as sandálias, gastas; o olhar, febril. Vê a sua rejeição no olhar do outro. Muitas vezes os seus e ele próprio estão reduzidos a comer os detritos tirados dos caixotes do lixo dos restaurantes ou das casas burguesas.&lt;br /&gt;Maria do Carmo Soares de Freitas, socióloga, e os seus colaboradores da Universidade Federal da Bahia realizaram um estudo de longa duração no bairro Pela Porco de Salvador, a fim de compreender como os próprios famintos vivem a sua situação. Com os &lt;em&gt;Alagados&lt;/em&gt;, Pela Porco é um dos bairros mais miseráveis da metrópole do Norte, antiga capital do vice-reino lusitano do Brasil. Grassam ali a corrupção e o arbítrio policiais, a violência dos bandos armados, o desemprego endémico, a falta total de infra-estruturas escolares, sociais, de saúde, e a habitação é precária. É habitado por cerca de 9000 famílias. Os &lt;em&gt;Textos dos Famintos&lt;/em&gt; é o título do volume, ainda não publicado, no qual toda a equipa compilou a palavra dos esfomeados (disponível em fotocópia no Instituto de Saúde Pública da Universidade Federal da Bahia).&lt;br /&gt;Para exorcizar a vergonha, as vítimas da subalimentação crónica recorrem a frases como estas: «&lt;em&gt;A fome vem de fora do corpo&lt;/em&gt;». A fome é o agressor, uma besta que me ataca. Nada posso fazer. Não sou responsável pela minha situação. Não devo ter vergonha dos farrapos que uso, dos choros dos meus filhos, do meu próprio corpo debilitado e da incapacidade em que me encontro de alimentar a minha família.&lt;br /&gt;Os que se vêem reduzidos a alimentar-se dos dejectos tirados dos caixotes do lixo do centro da cidade, ou dos luxuosos hotéis que bordejam a praia de areia branca de Itapoa, dizem: «&lt;em&gt;Preciso tirar a vergonha de catar no lixo, porque pior é roubar&lt;/em&gt;».&lt;br /&gt;Muitas das mulheres e homens interrogados tratam a fome por «&lt;em&gt;a coisa&lt;/em&gt;». «&lt;em&gt;A coisa bate-me à porta&lt;/em&gt;». Atirar a fome para fora do seu corpo, considerar-se como a vítima de uma agressão, saber-se ferido por um adversário forte de mais: eis algumas defesas contra a vergonha.&lt;br /&gt;Alguns habitantes também dizem: «Sentimo-nos perseguidos, ou pela polícia ou pela fome», ou ainda: «A fome é sempre um sofrimento que fere o corpo». A besta ataca-me, que hei-de fazer? Nada ou quase nada, «Porque ela é mais de que eu».&lt;br /&gt;As palavras «perseguidos pela fome» fazem parte de quase todas as respostas.&lt;br /&gt;Algumas das pessoas interrogadas, especialmente entre os adolescentes de ambos os sexos, revoltam-se contra a besta. Querem ripostar ao ataque, resistir. «A pessoa tem que ser forte, tem que fazer qualquer negócio; não ter vergonha, não ter medo; pedir a um e a outro, bulir no lixo, tem uns que até rouba, assalta, bole nas coisas dos outros; não pode ficar esperando as coisas cair do céu; tem que ter muita fé pra ficar com força, se levantar e andar, andar...»&lt;br /&gt;Uma série particularmente pertinente de questões postas por Maria do Carmo e colegas diz respeito à «fome nocturna». A quase-totalidade das pessoas interrogadas, de todas as idades e sexos, tem visões nocturnas, sonhos compensatórios onde aparecem mesas cobertas com toalhas imaculadas, mal suportando o peso de montanhas de frutos, de carnes e de bolos. Estas alucinações consolam das privações físicas, da angústia lancinante e da dor.&lt;br /&gt;Uma jovem mulher interrogada disse: «No tempo da noite, quando as crianças choram ou a violência (policial e dos bandos armados) assusta ainda mais, são produzidas insónia e visões».&lt;br /&gt;Face a uma sociedade que o exclui e o priva de comida, o faminto agarra-se a estas quimeras. Elas devolvem-lhe, pelo imaginário, a sua dignidade de sujeito livre.&lt;br /&gt;Dois mil milhões de pessoas sofrem daquilo a que as Nações Unidas chamam o hidden hunger, a fome invisível, ou seja, a malnutrição. Esta define-se pela carência de micronutrientes (sais minerais, vitaminas). São estas carências que provocam doenças em muitos casos mortais.&lt;br /&gt;As calampas de Lima, as favelas de São Paulo ou os sórdidos bairros de lata das smoky mountains de Manila são locais de pestilência. Nas &lt;em&gt;smoky mountains&lt;/em&gt;, onde vive meio milhão de pessoas, respira-se um odor pútrido. As ratazanas mordem no rosto os recém-nascidos. Naquelas cabanas de chapa, as mulheres, as crianças, os homens enganam o estômago com os restos de comida respigados em montes de imundices. O aporte de calorias até pode ser suficiente. Mas a composição da alimentação, essa revela carências perigosas.&lt;br /&gt;Uma criança em situação de malnutrição crónica pode dar de comer à sua fome e no entanto agonizar por efeito de uma doença devida à falta de micronutrientes.&lt;br /&gt;Nos 122 países do Terceiro Mundo onde vive, relembro, quase 80 por cento da população do planeta, a carência em micronutrientes provoca hecatombes.&lt;br /&gt;Entre as doenças mais comuns e espalhadas devidas a esta insuficiência, há o kwashiorkor, frequente na África Negra, a anemia, o raquitismo, a cegueira. Os adolescentes vítimas do kwasbiorkor têm o ventre inchado, os cabelos que se tornam ruços, a tez amarela. Perdem os dentes. Quem for privado de modo permanente de um aporte suficiente de vitamina A fica cego. O raquitismo impede o desenvolvimento normal da ossatura da criança.&lt;br /&gt;Quanto à anemia, essa ataca o sistema sanguíneo e priva a vítima de energia e de toda a capacidade de concentração.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-4876313474216586953?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/4876313474216586953/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=4876313474216586953' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/4876313474216586953'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/4876313474216586953'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/09/escassez-organizada.html' title='A ESCASSEZ ORGANIZADA'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-7924665323587668941</id><published>2007-09-27T10:48:00.000-07:00</published><updated>2007-09-27T11:20:42.558-07:00</updated><title type='text'>O MICROCRÉDITO NO MUNDO</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;p align="justify"&gt;Christine Ockrent (org.)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O livro negro da condição das mulheres&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, TemaseDebates, 2007&lt;br /&gt;Excerto adaptado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 170%"&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;O MICROCRÉDITO NO MUNDO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Um instrumento ao serviço das mulheres&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Ainda que não seja uma solução milagrosa, o microcrédito demonstra que, à escala global, permite às mulheres adquirirem responsabilidades e autonomia. Desta forma, assegura tanto a sobrevivência da família, como um papel socialmente reconhecido para a própria mulher. Exemplos em quatro continentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O microcrédito é um instrumento financeiro ao serviço de um objectivo social. Corresponde à primeira equação que se aprende em economia: trabalho + capital = criação de riqueza. Mas é muito mais que um simples instrumento de investimento. Permite transformar os sonhos em realidade: aqueles e aquelas que a ele recorrem ficam dotados de um poder que antes não possuíam. Desta forma, o microcrédito revela-se particularmente precioso para conferir mais responsabilidade e autonomia às mulheres, dando azo àquilo que os ingleses designam por &lt;em&gt;empowerment&lt;/em&gt; (O termo &lt;em&gt;empowerment&lt;/em&gt; levanta problemas de tradução. É geralmente traduzido por «auto-afirmação» ou «acesso [das mulheres] à decisão».).&lt;br /&gt;Ainda que se trate de um conceito universal, assume formas diferentes consoante os contextos locais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Na Ásia, o microcrédito permite às mulheres encontrarem um lugar na sociedade&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Em muitos países da Ásia, e mais particularmente nos países muçulmano; as primeiras vítimas da extrema pobreza são as mulheres. No Bangladesh, a carência de terras limita a sua capacidade produtiva. São essencialmente consideradas como um fardo, bocas para alimentar, e os homens livram-se delas à primeira oportunidade, de forma tanto mais fácil, quando lhes é possível repudiar uma esposa para se casarem com outra que traga consigo um dote. Muitas esposas são assim abandonadas, com filhos a seu cargo e sem qualquer fonte de rendimento. A sua situação muda completamente se, à falta de acesso à terra, tiverem acesso ao capital. Um empréstimo de algumas dezenas de euros permite-lhes dar início a pequenas actividades de comércio ou de artesanato, às quais podem associar o seu marido. Graças a esse rendimento, ganham respeito social e por si mesmas. É assim que Minati faz grandes cestos de bambu. Utiliza o seu empréstimo para comprar a matéria-prima. Aícha tece saris, Jahera fabrica bolos e Kalpana tem uma criação de galinhas. Aplicam escrupulosamente o seu empréstimo, o que lhes permite continuarem a investir. Ao fim de alguns anos, podem obter um empréstimo de habitação para construírem ou melhorarem a sua residência ou investirem na escolaridade dos seus filhos. Podem colocar algum dinheiro de lado que, gerido pelo Grameen Bank, lhes permitirá vir a possuir uma reforma. O microcrédito não pode suprimir o problema da carência de terras, das inundações, das epidemias, da falta de infra-estruturas ou da corrupção. Contudo, nas mãos das mulheres, pode transformar-se num instrumento para a sua autopromoção e para proporcionar uma vida melhor às suas famílias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;strong&gt;Em África, o microcrédito permite garantir a sobrevivência da família em zonas rurais, ao oferecer às mulheres uma forma de desenvolverem actividades geradoras de rendimentos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Em África, as mulheres não padecem da mesma inferioridade que na Ásia. São mais respeitadas, na medida em que, na maioria dos casos, possuem pequenas actividades autónomas: possuem uma propriedade sua, cabras ou vacas e, eventualmente, algum dinheiro. No entanto, a sua vida não é fácil. No Sahel, a estação seca faz com que os homens partam à procura de uma fonte de rendimento nos países vizinhos e, por vezes, na Europa. Podem ou não regressar. Enviam dinheiro para ajudar a sua família que permaneceu na aldeia, mas, muitas vezes, o dinheiro não chega e as mulheres vêem-se obrigadas a arranjar forma de garantir a sobrevivência das crianças e dos idosos da comunidade. O microcrédito cria então uma oportunidade para o desenvolvimento, também aqui, das pequenas actividades tradicionais. Mariama faz fritos que vende no mercado, Binta produz cerveja de milho, Aíssatou compra sacas de arroz num grossista, que depois revende no mercado durante o período de escassez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Na América Latina, o microcrédito financia actividades informais nos bairros-de-lata&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Na América Latina, o sector informal abrange uma grande parte da actividade económica e ocupa a maioria dos habitantes dos bairros-de-lata, que continuam a crescer, à margem de qualquer base legal, em redor dos grandes aglomerados populacionais. Também aqui, o microcrédito fornece às mulheres uma forma de aumentarem os seus magros rendimentos. Como em outras regiões, não se trata de grandes investimentos: uma máquina de costura fornece a Isabel os meios de se lançar na confecção, um pequeno empréstimo permitiu a Alba começar a comercializar legumes no mercado, um equipamento muito simples permite a Lucrécia abrir um pequeno salão de cabeleireiro. Em alguns países, como na Bolívia, o microcrédito passou a ser uma actividade bancária; em outros, como no Brasil, ainda se encontra pouco desenvolvido, mas beneficia do apoio do Governo. No Chile, bancos locais e estrangeiros passaram a criar filiais dedicadas à microfinança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Na Europa Central, o microcrédito permite privatizar a economia a partir da sua base&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;A impotência do sector público e a ausência de um sistema de protecção social eficaz condenaram à miséria milhões de homens e mulheres do antigo mundo comunista. Tratava-se tanto de operários como de camponeses ou empregados. De um dia para o outro, as mulheres passaram de uma época em que tudo se encontrava programado e assegurado, ainda que o nível de vida fosse muito baixo, para um mundo no qual têm de encontrar novas formas de ganhar a sua vida e de sustentar as suas famílias.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O desenvolvimento do microcrédito foi muito rápido, graças ao financiamento e ao apoio técnico trazidos pelas instituições financeiras internacionais, permitindo a criação de diversas instituições de microfinança, capazes de responder às necessidades das pessoas. A procura por parte das mulheres foi particularmente grande. Muitas vezes, foram elas as primeiras a reagir às dificuldades. Não tinham opção: era necessário alimentar a família. Quer se tratasse de antigos membros das cooperativas ou de operárias das grandes empresas públicas, elas imaginaram novas actividades, correspondentes às necessidades do mercados e às suas próprias capacidades. Da venda ambulante aos serviços de limpeza, dos pequenos restaurantes familiares à hotelaria ou à pequena pecuária, as mulheres tomaram em mãos a sua vida profissional e tornaram-se trabalhadoras independentes. Arrastaram consigo os homens, mais desorientados que as suas cônjuges com este universo novo e desconhecido. Hoje, nos países pós-comunistas, o número de clientes dos dois sexos do microcrédito situa-se entre os quatro e os cinco milhões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;strong&gt;Em Franca, o microcrédito ajuda as mulheres a sair da exclusão, ao criarem o seu próprio emprego&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O microcrédito, introduzido em França pela ADIE (&lt;em&gt;Association pour le Droit à l’Iniciative Économique&lt;/em&gt;) em 1989 dirige-se aos empregados e aos beneficiário do RMI (&lt;em&gt;Revenu Minimum d’Insertion&lt;/em&gt;, equivalente ao Rendimento Mínimo Garantido) sem acesso directo aos bancos. Das 30000 microempresas até hoje financiadas, mais de um terço foram criadas por mulheres. Estas são mais lentas a «lançar-se» que os homens, mas, assim que tomam a sua decisão, não largam o seu projecto e recuperam melhor os seus investimentos. Chantal, beneficiária do RMI, após uma vida de pequenos biscates, decide, aos 50 anos, recuperar uma pequena mercearia rural em Mayenne. A comunidade oferece-lhe ajuda. Ela recupera a coragem e a confiança. Para completar a sua actividade, está a criar um pequeno restaurante.&lt;br /&gt;Cármen é posta fora de casa pelo seu marido, que se deseja divorciar. Dorme na rua mas recusa-se a baixar os braços. Com um balde e equipamento apropriado, propõe às lojas lavar-lhes a montra. Obtém um empréstimo junto da ADIE para comprar um velho veículo utilitário e o equipamento mínimo. Passados dois anos, ei-la à frente de uma empresa de limpeza que emprega 30 pessoas. «Recruto-as entre aqueles e aquelas que estão em dificuldade», informa. «Conheço bem esse tipo de situação.» Joelle, que acaba de terminar os seus estudos linguísticos, não encontra trabalho. Mais do que permanecer como beneficiária do RMI, lança-se por sua conta como tradutora. O empréstimo permite-lhe comprar o seu equipamento informático. Ganha bem a sua vida. Também Rachida está sem emprego: sente tanto mais dificuldades em encontrá-lo, na medida em que o seu apelido e endereço atraem as renitências dos potenciais empregadores. Ao fim da sua 200.a carta sem resposta, cria uma auto-escola num bairro difícil. Para além de ter obtido um empréstimo, o acompanhamento da associação facilita-lhe os procedimentos administrativos e ajuda-a a levar por diante a gestão da sua microempresa.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Assim, por toda a parte no mundo, o microcrédito ajuda as mulheres a sair de situações difíceis, a tomarem conta de si mesmas e das suas famílias, a se tornarem autónomas e deixarem de necessitar da ajuda social. Não é uma solução milagrosa para todos os males, mas representa um pequeno apoio financeiro, suficiente para criar riqueza e valorizar o trabalho das mulheres. Para além da sua função financeira, devolve a esperança e o horizonte àquelas que já os tinham perdido. A palavra «crédito» vem de &lt;em&gt;credere&lt;/em&gt;, acreditar, e é exactamente a confiança dos outros que permite às mulheres acreditarem em si mesmas.&lt;br /&gt;Assim, «este ágil substituto do dinheiro», usando as palavras de Fernand Braudel relativamente ao «crédito», pode transformar-se simultaneamente num instrumento de crescimento e de coesão social, de igualdade de oportunidades e de promoção das mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Maria Nowak&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-7924665323587668941?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/7924665323587668941/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=7924665323587668941' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/7924665323587668941'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/7924665323587668941'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/09/o-microcrdito-no-mundo.html' title='O MICROCRÉDITO NO MUNDO'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-711319765204323226</id><published>2007-09-27T10:25:00.000-07:00</published><updated>2007-09-27T10:29:47.624-07:00</updated><title type='text'>Uma lixeira no Paraíso</title><content type='html'>Martinho Lopes Moural&lt;br /&gt;In: Além-mar Fevereiro 2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Uma lixeira no Paraíso&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;Depois de quase 30 anos em África, Martinho Lopes Moura, missionário comboniano, foi enviado para o Brasil. E há seis foi-lhe confiada a paróquia de Guriri, que abrange a ilha do mesmo nome e redondezas. A ilha é um paraíso turístico, mas há um bairro onde as pessoas vivem do lixo que a cidade de São Mateus lhes oferece. Mais uma vergonha para um país que, sendo um dos mais ricos do mundo, tem mais de 50 milhões de miseráveis.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A área da paróquia de Guriri compreende a ilha do mesmo nome e os bairros e povoações ao longo do rio Cricaré até Urussuquara, no limite com o município de Linhares. A ilha ronda os 100 quilómetros quadrados. Até ao século XIX estava rodeada pela lagoa de Suruaca e pelo rio Ipiranga. Com a abertura da baía de Barra Nova, ficou dividida em duas e o percurso do rio Mariricu foi interrompido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A paróquia fica portanto entre rios e é banhada pelo Atlântico. A população é na sua maioria descendente dos escravos africanos que, depois da abolição da escravatura pela princesa Isabel, aqui encontraram meios de subsistência, pescando e caçando. Outra parte da população é formada por descendentes de índios, de muitas tribos, e uma boa parte são caboclos (mestiços). Há ainda os moradores da estância balnear de Guriri, que para aqui vieram por causa do clima e das águas tépidas do mar. São na sua maioria gente de Minas Gerais ou Capixabas do Espírito Santo, descendentes dos imigrantes italianos que no século XIX desembarcaram na área. Os primeiros moradores foram, é claro, os índios. Vieram do interior e do norte, por vezes para fugir às perseguições que lhes eram movidas pelos outros índios e pelo Governo colonial. Toda esta área é rica em petróleo – os poços são às centenas –, gás natural e sal-gema. No mar e nos rios abundam o caranguejo, o camarão e os peixes das mais variadas espécies, alguns dos quais com muitas dezenas de quilos. A maior parte dos pescadores usam meios artesanais, e no período em que a pesca lhes é interdita sobrevivem com dificuldade. As piranhas, que estão a tornar-se uma praga, também contribuem para diminuir as capturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma boa parte da população sobrevive, para além da pesca, da agricultura de subsistência e da criação de gado. O turismo é, sem dúvida, a sua maior riqueza. No Verão (brasileiro, entenda-se), a população, de dez mil pessoas, pode chegar a atingir as 70 mil. Os hotéis e restaurantes são poucos, mas muitas famílias têm aqui as suas residências de férias. No Carnaval, o número pode subir para 100 mil. Os residentes têm de sobreviver no resto do ano com os lucros obtidos na época alta (do Natal ao Carnaval), e alugam tudo o que podem para ganhar mais alguma coisa. O turismo também traz consigo a prostituição, que atinge sobretudo os adolescentes dos bairros mais carenciados. As comunidades cristãs eram 19, quando cheguei. Hoje são 22: 11 dentro da ilha e 11 fora. A paróquia tem dedicado muitas energias à formação religiosa, litúrgica e ao acolhimento das pessoas, sobretudo à obra de promoção humana Vida Plena. De uma forma geral, as comunidades são pobres e pouco numerosas, excepto as três maiores, que se encontram no centro da ilha. No Verão, as igrejas do centro ficam superlotadas. Porém, graças a Deus, a participação é boa também durante o resto do ano. A visita às famílias tem sido uma prioridade pastoral e o resultado é evidente: muitas crianças, adolescentes e jovens frequentam a catequese nas comunidades, e até um bom grupo de adultos. As seitas ainda não são um fenómeno significativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Comer lixo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As dezenas e dezenas de quilómetros de praias desertas e de mangais, ainda praticamente virgens e onde abunda o caranguejo, são uma atracção a nível nacional e mundial. Os rios estão rodeados pela mata, que vai encolhendo devido ao abate ilegal. Guriri é ainda a sala de visitas da cidade de São Mateus. Muita gente conhece Guriri como um lugar tranquilo, onde se pode descansar, como um paraíso para idosos, devido ao clima quente mas ameno durante todo o ano, às águas sempre mornas.&lt;br /&gt;Mas também no paraíso existe o reverso da medalha. Para o ironicamente chamado Bairro da Liberdade são trazidos os resíduos de toda a cidade. E há muita gente que «vive» no meio da lixeira, ganhando o seu sustento a escolher de entre os desperdícios aqueles que ainda têm alguma utilidade ou valor. As «casas» são barracas. As condições são, como é natural, extremamente insalubres. E a miséria material traz consigo a miséria humana e moral: o alcoolismo e o consumo de drogas estão a aumentar. Através da obra social «Vida Plena» temos ajudado muita gente dos bairros mais carenciados, nomeadamente apoiando a construção de casas decentes, distribuindo mensalmente um «pacote» de alimentos básicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A miséria e a falta de higiene são um «viveiro» de doenças de todo o tipo: infecções intestinais, tuberculose, parasitas, lepra, tifo, cólera e dengue. A chuva e a humidade castigam particularmente aqueles que moram em terrenos alagadiços. Depois, a população não pára de aumentar: não é raro encontrar senhoras com dez e mais filhos e adolescentes já mães e com filhos de vários pais. As pessoas não têm empregos estáveis e não conseguem ter acesso a um médico, muito menos comprar medicamentos. No meio de tanta água, muita gente nem sequer dispõe de água potável.&lt;br /&gt;No Bairro da Liberdade, há quem saboreie as últimas gotas de cerveja das latas vazias que vão juntando para vender, há quem alimente a família com os restos do churrasco que sobrou das mesas dos ricos. É vergonhoso: o Brasil, uns dos países mais ricos do mundo, tem mais de 50 milhões de miseráveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-711319765204323226?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/711319765204323226/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=711319765204323226' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/711319765204323226'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/711319765204323226'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/09/uma-lixeira-no-paraso.html' title='Uma lixeira no Paraíso'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-6409584223260882419</id><published>2007-07-28T10:36:00.000-07:00</published><updated>2007-07-28T10:38:44.810-07:00</updated><title type='text'>Cimeira do G8: ajuda prometida e não cumprida - Carlos Reis</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Além-mar&lt;br /&gt;Junho 2007&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carlos Reis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cimeira do G8: ajuda prometida e não cumprida&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;Os países mais ricos do mundo não estão a respeitar as suas promessas no que diz respeito à ajuda aos países em vias de desenvolvimento. Em vésperas da Cimeira do G8, encontro do grupo dos oito países mais industrializados, não há garantias de que os objectivos de cooperação para o desenvolvimento sejam sequer atingidos.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Apesar das promessas dos países ricos de erradicar a pobreza extrema, os países em desenvolvimento necessitam ainda de mais assistência, regras comerciais mais justas e equilibradas e de um alívio significativo da dívida. A menos que os países ricos mantenham as suas promessas de financiar uma parte do desenvolvimento, os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio não serão alcançados até 2015. «Para que o pacto seja justo, tanto os países ricos como os países em desenvolvimento devem prestar contas quer das acções em curso quer dos prazos estabelecidos», diz Eveline Herfkens, coordenadora executiva da Campanha dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio. E alerta: «Se as nações ricas não cumprirem a sua parte, os países pobres nunca conseguirão alcançar os Objectivos.»&lt;br /&gt;A Declaração do Milénio, adoptada por todos os Estados-membros das Nações Unidas, contém um conjunto de oito objectivos, com especial destaque para a erradicação da pobreza. Contudo, todos os países da União Europeia estão a mascarar o volume das suas contribuições para a ajuda ao desenvolvimento. Segundo o relatório «Retenez Vos Applaudissements!» (Suspendam os Vossos Aplausos), da Concord, confederação europeia de 1800 organizações não governamentais dedicadas à ajuda de urgência e à ajuda ao desenvolvimento, os montantes do perdão da dívida pública, do acolhimento de estudantes estrangeiros e do auxílio a refugiados estão a ser contabilizados como ajuda ao desenvolvimento, o que desrespeita os compromissos, uma vez que não se trata de investimento directo. Só em 2006, mil milhões de euros destinados aos refugiados e 1700 milhões de euros gastos na educação foram incluídos por países da UE na ajuda ao desenvolvimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quebrar promessas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Perante este cenário, o relatório da Concord estima que «vários países europeus vão quebrar as suas promessas de ajuda aos países pobres até 2010, a não ser que aumentem radicalmente o montante dos recursos verdadeiramente destinados ao apoio ao desenvolvimento». Com efeito, se a tendência actual não for invertida, até 2010 os países em desenvolvimento vão receber da Europa menos 50 mil milhões de euros do que o que estava prometido. A organização afirma que a redução da pobreza não é, aparentemente, «o primeiro objectivo da ajuda», e considera que a segurança, as alianças geopolíticas e os interesses nacionais prevalecem. Lucy Hayes, autora do estudo, destaca que «60 por cento das ajudas ao desenvolvimento concedidas pelos governos europeus entre 2001 e 2004 foram destinadas ao Afeganistão, RD Congo e Iraque, países que não representam nem três por cento da população que vive na pobreza». África foi o continente mais prejudicado pela política de ajuda ao desenvolvimento da UE, ao receber menos três por cento em 2005 do que no ano anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Promissória sem cobertura&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Muito do debate à volta dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio destina-se a avaliar se os países pobres irão conseguir alcançar as metas estabelecidas. Por isso, o PNUD, programa das Nações Unidas para o desenvolvimento, defende que os países ricos devem ser sujeitos a um escrutínio e tornar público o balanço dos progressos obtidos. E lança-lhes um desafio: que definam metas e prazos concretos, e passem à acção em várias frentes.&lt;br /&gt;A luta contra a pobreza no mundo tem registado progressos, mas há muitos países que estão cada vez mais em pior situação, sobretudo na África Subsariana. No Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 2005, o PNUD verifica que o mundo está a falhar no cumprimento dos Objectivos do Milénio, e atribui parte da culpa à falta de ajuda aos que mais necessitam e a regras comerciais injustas. A oito anos da data-limite para se atingirem as metas estabelecidas, o progresso existe mas é demasiado lento, e os Objectivos poderão vir a revelar-se uma mera lista de boas intenções. «A Declaração do Milénio representou uma promessa solene de libertar homens, mulheres e crianças das condições abjectas e desumanas da pobreza extrema», observa Kevin Watkins, o principal autor do documento das Nações Unidas. «Os Objectivos do Milénio são uma nota promissória assinada por 189 governos e passada às pessoas pobres de todo o mundo. Essa promissória vence em 2015 e, sem um investimento e uma vontade política adequados, ela voltará para trás, devolvida com o carimbo de ‘fundos insuficientes’.» O relatório usa uma metáfora militar para ilustrar o balanço dos últimos 17 anos: «A guerra contra a pobreza testemunhou progressos na frente leste, retrocessos maciços na África Subsariana e estagnação numa ampla frente entre ambas.» Para mais, o desenvolvimento global está a abrandar, salienta Kevin Watkins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Progressos e recuos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Desde 1990, mais de 130 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema, há menos dois milhões de mortes de crianças por ano, há mais 30 milhões de crianças nas escolas e 1200 milhões de pessoas têm acesso a água potável. O reverso da medalha indica que ainda há 2500 milhões a viver com menos de dois dólares por dia (40 por cento da população mundial), dez milhões de crianças morrem de doenças evitáveis ou curáveis, 115 milhões não vão à escola e mais de mil milhões não têm acesso a água potável, enquanto 2600 milhões não dispõem de saneamento básico. Ou seja, houve progressos, mas foram insuficientes para cumprir os objectivos a que os países se comprometeram. «O que será uma tragédia, sobretudo para os pobres de todo o mundo, mas os países ricos também não ficarão imunes às consequências do fracasso: num mundo interdependente, a prosperidade partilhada e a segurança colectiva dependem, de modo crítico, do êxito na guerra contra a pobreza», defende Kemal Dervi, administrador do PNUD.&lt;br /&gt;A convergência gradual entre os países em desenvolvimento e os países ricos em termos de esperança de vida, mortalidade infantil e alfabetização, que ocorreu nos últimos 40 anos, está a abrandar e para alguns está mesmo a transformar-se em divergência. «Num mundo de desigualdades já extremas, o fosso entre países ricos e países pobres está, em alguns casos, a alargar-se e, noutros, a diminuir muito lentamente. O processo é desigual, com grandes variações de região para região e de país para país», salienta o relatório das Nações Unidas. Há países que estão cada vez mais em piores condições, a maioria na África Subsariana. Em relação ao índice de desenvolvimento humano, 18 países – que representam 460 milhões de pessoas – viram a sua situação piorar em relação à posição que ocupavam na década de 1980. Em alguns casos, como na África do Sul, a incidência da sida explica a queda.&lt;br /&gt;«Se chegamos à conclusão de que não há dinheiro para a maioria das reformas e avanços exigidos pelos Objectivos, será necessário, daqui em diante, concentrarmo-nos em formas de financiamento alternativas, seja através de impostos, doações, mercados para exportações, ou outras», afirma Jim Boughton, director-adjunto para o Desenvolvimento do Fundo Monetário Internacional.&lt;br /&gt;Todas as expectativas se viram assim para as decisões de Heiligendamm, velha estância balnear da Alemanha e antiga residência de Verão de imperadores germânicos. Um mês antes da cimeira já se verificavam distúrbios em várias cidades alemãs. Não será por falta de segurança que a ajuda devida não será cumprida.&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ajuda do G8&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compromisso para 2006 &lt;br /&gt;Itália 0,33%&lt;br /&gt;Estados Unidos 0,11%&lt;br /&gt;Alemanha 0,17%&lt;br /&gt;França 0,23%&lt;br /&gt;Japão 0, 23%&lt;br /&gt;Canadá 0,26%&lt;br /&gt;Reino Unido 0,24%&lt;br /&gt;Rússia 0,38%&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-6409584223260882419?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/6409584223260882419/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=6409584223260882419' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/6409584223260882419'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/6409584223260882419'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/07/cimeira-do-g8-ajuda-prometida-e-no.html' title='Cimeira do G8: ajuda prometida e não cumprida - Carlos Reis'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-9027320975654869650</id><published>2007-07-23T15:25:00.000-07:00</published><updated>2007-07-23T15:50:42.206-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><title type='text'>Ninguém e o Pássaro Azul - Fernando Cardoso</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 170%"&gt;&lt;br /&gt;Vou contar-vos uma história. Não é uma história alegre. Mas a vida também não é só feita de risos. De gargalhadas. É um pouco como a rosa: bela e com espinhos. Às vezes com muitos espinhos...&lt;br /&gt;Vou falar-vos de um menino real. Real sem realeza. Real porque verdadeiro. Verdadeiro porque existe.&lt;br /&gt;Vou falar-vos de um menino de seis anos. Que não parece ter seis anos. Porque o seu corpo é franzino. Porque os seus olhos são demasiadamente tristes.&lt;br /&gt;Esse menino chama-se NINGUÉM. E não sabe o resto do nome. O sobrenome. Nunca lho disseram. Nunca ouviu chamar pelo nome do Pai. Porque o Pai fora mais cedo para o Céu — explicaram-lhe um dia.&lt;br /&gt;NINGUÉM vive numa água-furtada. Direi que vive num velho caixote cravado num telhado de telhas partidas. E como é muito pequeno só chega ao parapeito da janela com as débeis mãozitas.&lt;br /&gt;Às vezes põe-se em bicos de pés. Quer ver a rua. Os carros e as pessoas. As pessoas e os carros. Mas NINGUÉM não vê ninguém. Nem os carros. Nem a rua.&lt;br /&gt;Então NINGUÉM vai buscar um tosco banco de madeira. A Mãe dissera-lhe que era perigoso empoleirar-se no banco. Mas às vezes NINGUÉM não resiste à tentação. E sobe. Sobe mas não vê o que queria ver. Porque NINGUÉM está sempre na mesma. Não cresce. Pelo menos não cresce ao ritmo da sua vontade de ver a rua, as pessoas e os carros.&lt;br /&gt;Mas os seus olhos grandes e tristes ficam menos tristes, quando salta para cima do tosco banco de madeira. Porque, nessa altura, NINGUÉM vê uma nesga de Céu. Um pouco de sol. Uma nuvem que passa.&lt;br /&gt;E NINGUÉM gostaria de ser nuvem. Ir pelo Céu fora visitar o Pai. E de lá ver a rua, os carros e as pessoas.&lt;br /&gt;NINGUÉM é um rapazinho que pensa e sonha. Sonha e pensa. E nem sequer tem brinquedos para brincar...&lt;br /&gt;Só de longe a longe NINGUÉM vê a Mãe. Só de longe a longe, porque a Mãe de NINGUÉM trabalha a dias em várias casas. Esfrega escadas. Esfrega escadas. Esfrega escadas.&lt;br /&gt;Quando ela vai para o trabalho, é muito cedo. E NINGUÉM ainda dorme. Quando regressa a casa, é muito tarde. E NINGUÉM já dorme.&lt;br /&gt;NINGUÉM gostaria de ter um irmão para conversar e brincar. Mesmo sem brinquedos. Embora NINGUÉM não saiba precisamente o que é brincar. Nem sozinho nem com o irmão que nunca teve.&lt;br /&gt;NINGUÉM não se importaria de dividir com ele o pão e a sopa. O pouco que a Mãe lhe deixa todos os dias.&lt;br /&gt;A princípio NINGUÉM não compreendia porque estava sempre sozinho. Por que motivo só via a Mãe de longe a longe.&lt;br /&gt;Então a Mãe contou-lhe a história do Pequeno Polegar. A única história que ela lhe contou. E explicou-lhe que preferia trabalhar todo o dia a abandoná-lo por não ter de comer. Tal como fez a mãe do Pequeno Polegar. E como infelizmente tantas outras. Por não terem comida para dar aos filhos. E não só por isso...&lt;br /&gt;NINGUÉM compreendeu que estava condenado a viver sozinho. Praticamente sozinho. Naquele cárcere. Naquele velho caixote cravado no telhado de telhas partidas. Sem ver a rua, os carros e as pessoas. Sem ver a Mãe, senão de longe a longe.&lt;br /&gt;Ele tinha, por vezes, mais fome de falar do que de co&amp;shy;mer. Por isso, a cada passo falava com a Mãe. Embora a Mãe não o ouvisse. Estava longe a trabalhar.&lt;br /&gt;— Obrigado, Mãe, pela sopa. Está tão boa! Tu sabes que eu gosto da sopa de feijão. É por isso que a fazes tantas vezes. Não é verdade, Mãe?&lt;br /&gt;Outras vezes, NINGUÉM agradece uma fatia de chouriço, de marmelada ou de queijo.&lt;br /&gt;Que importa que a Mãe não o ouça?! NINGUÉM precisa de lhe falar. E de lhe agradecer. Sobretudo depois de ela ter contado a história do Pequeno Polegar...&lt;br /&gt;Um dia NINGUÉM estava muito triste. Imensamente triste. Tinha partido a tigela da sopa. Desejava dizer à Mãe que a tinha partido sem querer. Sem culpa. E disse. Disse como sempre. Sem a presença da Mãe.&lt;br /&gt;Mas desta vez ele pretendia que a Mãe soubesse do seu desgosto. Ouvisse mesmo a sua voz. Já que ainda não sabia escrever...&lt;br /&gt;E à noite resolveu não se deitar. Iria esperar pela Mãe. Noite fora.&lt;br /&gt;Mas quando a Mãe chegou, encontrou-o a dormir junto à porta. Com os cacos da tigela nas suas débeis mãozitas.&lt;br /&gt;A Mãe deitou-o e agasalhou-o o melhor possível. E beijou-o. Beijou-o com a leveza e a ternura das mães.&lt;br /&gt;Era Outono. Lá fora o vento arrancava impiedosamente as folhas das árvores.&lt;br /&gt;Ela compreendeu o que o filho lhe quisera dizer. E ao outro dia NINGUÉM tinha uma tigela nova. Para comer a sopa de feijão, de que tanto gostava.&lt;br /&gt;Cada vez mais NINGUÉM se convencia de que valia a pena falar à Mãe. Talvez ela o ouvisse. Mesmo distante.&lt;br /&gt;— Mãezinha, eu não vou partir a tigela nova. Eu prometo. Ela é tão bonita! E tem uma senhora linda. Como tu.&lt;br /&gt;Ontem NINGUÉM esteve empoleirado sobre o tosco banco de madeira. A ver a nesga de Céu. Mas não viu nenhuma nuvem passar. Nenhum tapete voador. Porque todo o Céu estava nublado.&lt;br /&gt;Ontem nem desejou ir ao Céu. Porque seria difícil encontrar a Estrela habitada pelo Pai...&lt;br /&gt;E hoje NINGUÉM teve uma visita inesperada. Um pássaro azul poisou no parapeito da janela.&lt;br /&gt;A princípio NINGUÉM assustou-se. O pássaro era grande. Grande e azul. Depois compreendeu que viera comer as migalhas que deixara cair na véspera, quando empoleirado no tosco banco de madeira. A ver o Céu nubloso.&lt;br /&gt;Então NINGUÉM perdeu o medo. E quis chegar ao pássaro azul. Com as débeis mãozitas.&lt;br /&gt;Mas o pássaro voou. E NINGUÉM ficou ainda mais triste. Desejava-o para companheiro. Porque gostou dele. E queria com ele matar a solidão.&lt;br /&gt;E na esperança de o pássaro azul voltar, NINGUÉM destinou-lhe parte do pão. Desfê-lo em migalhas. E foi colocá-las no parapeito da janela.&lt;br /&gt;Uma esperança tinha nascido. E algo importante na vida de NINGUÉM. Na vida monótona do pequeno NINGUÉM.&lt;br /&gt;Ao outro dia, mal pôs os pés fora da cama, correu. A ver se o pássaro azul voltara. Mas não!&lt;br /&gt;Então uma lágrima rolou-lhe pelo rosto. Depois lembrou-se de ir ver se as migalhas ainda estavam no parapeito da janela. Subiu ao tosco banco de madeira. Empoleirou-se com ansiedade. Empoleirou-se mais do que nunca. Caiu do banco e magoou-se. Mas não chorou. Pelo contrário. Os seus olhos demasiadamente tristes alegraram-se. Vestiram-se de prata e ouro. O pássaro azul tinha voltado. E mais: tinha comido do seu pão.&lt;br /&gt;Algo animava agora o seu mundo. E com ele o compartilhava. Os dias passaram a ter sentido: dividir o naco de pão com o pássaro azul.&lt;br /&gt;As débeis mãozitas passaram a ser úteis.&lt;br /&gt;E contava à Mãe as visitas do pássaro azul. Talvez a Mãe não o ouvisse. Mas o importante era contar-lhe.&lt;br /&gt;E todos os dias preparava as migalhas para o pássaro azul. É certo que não o via. Mas o importante é que ele vinha todos os dias comê-las. Como todos os dias a Mãe vinha dormir a casa. Embora NINGUÉM não a visse.&lt;br /&gt;E um dia o Céu desabrochou. Abriu-se em luz. O ribombar dos trovões assustou o pequeno NINGUÉM. E o pássaro azul veio bater-lhe à janela. Com o longo bico.&lt;br /&gt;NINGUÉM subiu ao tosco banco de madeira. Um pouco pasmado. Um pouco a medo. Um tanto encantado. E abriu-lhe a janela.&lt;br /&gt;Lá fora chovia torrencialmente. E nas telhas partidas a chuva parecia tocar estranha sinfonia. O pássaro azul sacudiu as asas molhadas. Depois ficou imóvel sobre o parapeito da janela.&lt;br /&gt;NINGUÉM não sabia o que fazer. Olhava-o de baixo para cima. De boca e olhos muito abertos.&lt;br /&gt;Tinha-lhe falado tantas vezes... e ele distante. E agora que ele estava ali faltavam-lhe as palavras.&lt;br /&gt;Emudecera por completo. Rendido a tão forte e estranha emoção.&lt;br /&gt;Desejava fechar-lhe a janela. Para que ficasse sempre a seu lado. Mas o pássaro azul podia zangar-se. E NINGUÉM não queria.&lt;br /&gt;Incapaz de articular palavra, foi buscar-lhe mais migalhas.&lt;br /&gt;Quando voltou, encontrou-o sobre o tosco banco de madeira. O pássaro azul aproximara-se dele. Era como se o céu azul entrasse todo de repente pelo velho caixote...&lt;br /&gt;E NINGUÉM ganhou coragem. Estendeu-lhe a débil mãozita. E o pássaro azul depenicou as migalhas de NINGUÉM. Uma a uma.&lt;br /&gt;Os olhos demasiadamente tristes de NINGUÉM brilhavam. De uma felicidade até aí nunca experimentada. Porque o pássaro azul comera da sua débil mãozita.&lt;br /&gt;De novo tentou falar-lhe. De novo a voz se lhe prendeu. Talvez por não saber que dizer. E tantas coisas que tinha para lhe dizer. E tantas para lhe perguntar.&lt;br /&gt;Prendera-se-lhe a voz. Talvez porque tudo aquilo era bom demais para ser verdade. Talvez porque tivesse a sensação de estar a sonhar. Não era a primeira vez que sonhava com o pássaro azul.&lt;br /&gt;Entretanto o pássaro azul voou para cima do parapeito da janela.&lt;br /&gt;NINGUÉM estremeceu. Teve a noção do risco. Da perda do amigo. Do seu único amigo.&lt;br /&gt;Lá fora a chuva deixara de cair. Há muito também se deixara de ouvir a estranha sinfonia da chuva nas telhas partidas.&lt;br /&gt;E o pássaro azul olhou-o também com olhos tristes. Como que a dizer que tinha de partir.&lt;br /&gt;Depois NINGUÉM, estupefacto, ouviu-o despedir-se: Adeus! Obrigado! Adeus! Adeus!.&lt;br /&gt;NINGUÉM ainda estendeu as débeis mãozitas. Como a implorar-lhe que não o deixasse sozinho.&lt;br /&gt;Mas o pássaro azul já não viu o seu gesto. E partiu. Voando.&lt;br /&gt;Então NINGUÉM voltou a vestir os seus olhos demasiadamente tristes. Da cor da violeta.&lt;br /&gt;O pássaro azul não regressou mais. Nem sequer ao telhado das telhas partidas. Para comer as migalhas de NINGUÉM.&lt;br /&gt;Todos os dias NINGUÉM se empoleirava no tosco banco de madeira. E todos os dias descia derreado com o peso da mágoa. Da mágoa de o pássaro azul já não querer as suas migalhas. Até que NINGUÉM adoeceu.&lt;br /&gt;À noite a Mãe deu por isso. Porque NINGUÉM não tinha comido nada. Absolutamente nada.&lt;br /&gt;Ao outro dia a Mãe não foi trabalhar. E correu a chamar o médico.&lt;br /&gt;NINGUÉM ardia em febre. E no entanto o clínico não descobriu qualquer doença.&lt;br /&gt;– Ele delira. É da febre. Só fala num pássaro azul. Num pássaro azul que lhe disse adeus e lhe agradeceu. – comentou o médico um tanto irónico, um tanto intrigado.&lt;br /&gt;Tudo por causa do isolamento. Havia que preencher os dias de NINGUÉM. De alguma forma. Urgentemente. Aconselhou o médico.&lt;br /&gt;A Mãe comprou então uma «caixa mágica». Uma televisão. Para NINGUÉM se distrair. E ensinaram-no a abri-la e a fechá-la. A Mãe pagá-la-ia aos poucos. A prestações. Todos os meses. Muitos meses. Com o suor do rosto. Com o esfregar escadas. Infinitas escadas.&lt;br /&gt;Mas NINGUÉM só queria o pássaro azul. Que não se vendia a prestações. Nem a pronto pagamento...&lt;br /&gt;— O pássaro azul há-de voltar. Há pássaros que emigram. Que vão para muito longe. No Inverno. Vão em bandos para outros climas e regiões. Mas regressam. Regressam sempre no bom tempo — dizia a Mãe para o conformar.&lt;br /&gt;NINGUÉM escutava com alívio no peito e esperança nos olhos.&lt;br /&gt;A ideia de que as aves voltavam sempre fez-lhe bem. Melhor que todos os medicamentos que o médico receitara.&lt;br /&gt;O pássaro azul viria com a réstia de Sol. Com o céu azul. E os seus olhos, demasiadamente tristes, vestiram-se de anil.&lt;br /&gt;Se NINGUÉM tivesse asas, iria ao seu encontro. E conven&amp;shy;ceria o seu amigo a regressar mais cedo. NINGUÉM enroupá-lo-ia nas noites frias. Nas noites de Inverno. Nas noites de inferno... Sem tecto estrelado.&lt;br /&gt;Mas NINGUÉM tinha que esperar. Esperar ansiosamente. Desesperadamente. E entretanto quis matar o tempo. Começou a abrir a caixa mágica. A ver pessoas e carros. Outras ruas, cidades e países.&lt;br /&gt;E viu guerras sangrentas que não queria ver. Fogos pos&amp;shy;tos. Destruição de florestas. Destruição de casas. Pessoas dormindo ao relento. Lautos banquetes e crianças famintas. Homens sem humanidade. Tiro aos pombos, aos pombos da paz. Poetas falando com espuma de raiva ao canto da boca. Homens agredindo-se brutalmente no ringue. E senhores de pomposos trajes ferindo animais com farpas e bandarilhas.&lt;br /&gt;Por vezes, NINGUÉM hesitava em abrir aquela caixa mágica. Não sabia se era melhor estar só. Completamente só. A pensar no momento em que veria a Mãe. Ou no regresso do pássaro azul.&lt;br /&gt;Um dia, dois homens levaram a caixa mágica. Eram empregados do Senhor Gordo. Da Loja da Esquina. Que a mandara buscar. Porque a Mãe não tinha pago a última prestação. Porque o dinheiro fora para a Farmácia. Para o Médico. Mas NINGUÉM não deitou uma só lágrima. E os seus olhos ficaram tão dolorosamente tristes como antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NINGUÉM descobriu depois um formigueiro. E entretinha-se a ver as formigas. Num louco vaivém sempre a trabalhar. Sua Mãe era uma formiga grande – pensou.&lt;br /&gt;Ainda quis falar com uma. Todas passavam indiferentes. Sem sequer olharem para NINGUÉM.&lt;br /&gt;Conversavam umas com as outras. Lá isso conversavam. NINGUÉM gostaria de saber o que diziam. Devia ser ainda sobre o trabalho. Devia!&lt;br /&gt;NINGUÉM agarrou numa laboriosa formiga. Colocou-a sobre uma rolha de cortiça. E pô-la a boiar num alguidar com água. Ofereceu-lhe uma viagem de barco...&lt;br /&gt;Mas nem assim conquistou a sua amizade. Nem assim lhe arrancou uma palavra.&lt;br /&gt;NINGUÉM compreendeu que amizade é reciprocidade. Como o amor. Um dar e receber. Uma troca de atenções, de carinho, de respeito, de consideração. E as formigas devem ser muito amigas umas das outras. Mas nem olhavam para o pequeno NINGUÉM. Que entretanto as esqueceu...&lt;br /&gt;Passados alguns dias NINGUÉM deparou com um ratinho. A sua corrida veloz assustara-o. Depois quis aproximar-se dele. Mas o ratinho fugia. E ficava a espreitá-lo por um minúsculo buraco. NINGUÉM dava-lhe do seu pão. Ele comia. Mas sempre às escondidas. Nunca na sua presença. E muito menos nas suas débeis mãozitas.&lt;br /&gt;O pequeno rato tinha medo. Embora NINGUÉM jamais lhe fizesse mal. Mas como convencê-lo? Se fugia sempre. À menor aproximação. Ao menor passo. Ao menor movimento dos lábios para lhe falar.&lt;br /&gt;Então NINGUÉM compreendeu que era importante o diálogo. E a confiança.&lt;br /&gt;Cada vez mais NINGUÉM desejava a companhia do pássaro azul. Aquele Inverno tão longo estava a acabar. Quando o pássaro regressasse, havia de ter coragem. Coragem para dizer-lhe as palavras que ficaram no silêncio. Que guardara no fundo do coração.&lt;br /&gt;À noite a réstia de Céu começava a ter o semblante das cidades. As estrelas pareciam luzes assinalando casas. Ou faróis alertando aves nocturnas. Ou holofotes iluminando seres extra-terrestres.&lt;br /&gt;Para NINGUÉM, o cintilar das estrelas era o sinal dos habitantes do Céu. E dos Anjos. Dos Anjos e dos habitantes do Céu. Para comunicarem com as pessoas da Terra. Talvez o Pai procurasse dizer alguma coisa. Com aquele pisca-pisca das estrelas. Mas estaria noutra fatia do Céu. Que não se via daquele velho caixote cravado no telhado de telhas partidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa noite, um vaga-lume poisou no vidro da janela. Numa daquelas noites em que NINGUÉM se empoleirava sobre o tosco banco de madeira. E NINGUÉM teve a sensação de que um bocado de Estrela se desprendera do Céu. Viria visitá-lo? Também acendia e apagava. Como as estrelas do campo azul.&lt;br /&gt;Mas o pirilampo voou de novo. Sem que NINGUÉM pudesse tocar-lhe. Sem que NINGUÉM pudesse perguntar-lhe de onde vinha.&lt;br /&gt;Dias depois uma moleirinha entrou no velho caixote. Talvez viesse dar uma boa nova. NINGUÉM correu para ela. Na ânsia de apanhá-la, tirou-lhe as asas sem querer. Ela ficou triste. Sem se mexer nem andar. Então NINGUÉM empurrou-a. Com a débil mãozita. E viu que a borboletinha já não parecia o que era. Já nem podia voar. Compreendeu o que fizera e quis colar as asinhas... Não conseguiu. Os seus olhos tristes ficaram ainda mais tristes. Embora no mundo de NINGUÉM haja homens a tirar as asas a outros homens. Conscientemente. Deliberadamente.&lt;br /&gt;NINGUÉM quis dar-lhe de comer. Mas a moleirinha não comia pão nem sopa. E agora não voava. Não podia ir à procura de alimento.&lt;br /&gt;NINGUÉM foi encontrá-la inerte no dia seguinte. Sem vida. E dos seus olhos vestidos de negro brotaram lágrimas de dor. E as débeis mãozitas colocaram-na no parapeito da janela. Para que alguma Estrela a viesse buscar.&lt;br /&gt;NINGUÉM contou à Mãe a morte da moleirinha. E ficou a saber que elas se alimentam do néctar das flores.&lt;br /&gt;Mais tarde outra moleirinha entrou no velho caixote. NINGUÉM correu a afugentá-la com amor. Precisava da sua companhia. Lá isso precisava. Mas sorriu ao vê-la voar pela janela fora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa noite NINGUÉM sonhou com o regresso do pássaro azul. E de manhã acordou com o bater na vidraça do velho caixote. Onde vivia.&lt;br /&gt;De um salto sentou-se na cama. Seria de facto o regresso do pássaro azul? Ou ainda estaria a sonhar? Teve vontade de ir a correr. Mas ao mesmo tempo receava uma desilusão. Não seria o vento a bater a janela contra o velho caixote? Havia que vencer aquela angústia, feita de medo e esperança.&lt;br /&gt;Como um sonâmbulo foi buscar o tosco banco de madeira. Subiu nervosamente para cima dele. Os olhos transfiguraram-se-lhe. Vestiram-se de verde ao ver o pássaro azul. Era ele. Não havia dúvida. Era ele. Ele! Ele!&lt;br /&gt;Abriu-lhe a janela, acariciou-o. Passou as débeis mãozitas pelas penas. Pelas penas do pássaro azul. As suas desapareceram com aquele regresso...&lt;br /&gt;Vendo-o ferido na asa correu a buscar um frasco e algodão. E em jeito maternal pintou a ferida de líquido vermelho.&lt;br /&gt;— Quem lhe teria feito aquela ferida? Talvez um bom caçador. Com muita pontaria. Mas um mau homem. Com pouca sensibilidade — reflectiu NINGUÉM.&lt;br /&gt;A amizade com o pássaro azul cimentava-se. Cada vez mais. NINGUÉM abrira o coração. Deixara sair, uma a uma, todas as palavras que há muito calara dentro de si.&lt;br /&gt;E o pássaro azul falava-lhe da longa viagem que acabara de fazer.&lt;br /&gt;E NINGUÉM adormecia feliz ao ouvi-lo. Era como se tivesse uma avozinha, de cabelos brancos, a contar-lhe histórias. Só que as histórias do pássaro azul eram vividas por ele. Eram verdadeiras.&lt;br /&gt;NINGUÉM sentia-se a voar, espaço fora. Enquanto escutava o pássaro azul. Como se flutuasse com ele. Todos os dias. E maravilhado observasse as brancas montanhas. Os verdes prados e florestas. As cidades e as aldeias. As casas pequenas. As pessoas minúsculas. E aqui e além o imenso mar. Por vezes tão azul como o azul do Céu.&lt;br /&gt;As descrições do pássaro azul sobre a longa viagem encantavam NINGUÉM. Mas o seu sonho acordado era voar até ao Céu. Uma vez lá, o Pai levá-lo-ia a passear de estrela em estrela. Disso estava certo. Já que na Terra não podia andar com ele. De rua em rua. Como as outras crianças.&lt;br /&gt;O pássaro azul comoveu-se com o desejo de NINGUÉM. E prometeu voar com ele. Ao mesmo tempo que afastava uma lágrima com a asa. Iriam numa noite de lua cheia. Naquele mês de Agosto. Em que o luar é mais forte. Para descobrirem mais facilmente a Estrela do Pai.&lt;br /&gt;NINGUÉM não quis partir sem primeiro dizer à Mãe. Esperou longos dias. Até poder falar-lhe da projectada viagem.&lt;br /&gt;Mas a Mãe de NINGUÉM ficou preocupada ao ouvi-lo. E foi de novo a correr chamar o médico. Este considerou que o isolamento era uma vez mais a causa de tal estado.&lt;br /&gt;Tratava-se, em sua opinião, de uma perturbação mental. De um desarranjo de cabeça. NINGUÉM iria primeiro para o Hospital. E depois para uma Creche. Mas NINGUÉM esteve poucos dias internado. Os psiquiatras concluíram que NINGUÉM não tinha nada de anormal.&lt;br /&gt;Na Creche NINGUÉM foi encontrar um outro mundo. Educadores e muitas outras crianças. Já tinha com quem falar.&lt;br /&gt;Tudo aquilo teria sido bom. Mesmo muito bom. Mas não agora. Agora que tudo estava planeado para a grande viagem ao Céu.&lt;br /&gt;E NINGUÉM chorava em vez de brincar. Agora tinha à volta um jardim, bolas, baloiços, rapazes e raparigas. Podia brincar... Mas NINGUÉM chorava! Chorava porque queria ir para casa. Para o velho caixote cravado no telhado de telhas partidas.&lt;br /&gt;Queria dizer ao pássaro azul o que acontecera. Fora tudo tão repentino. Não pudera avisá-lo. Queria vê-lo. E ouvi-lo dizer que mantinha a sua promessa de o levar à Estrela. A ver o Pai.&lt;br /&gt;Mas ninguém escutava NINGUÉM. Os adultos comentavam que não estava melhor. E algumas crianças troçavam dele. Com risos e ditos.&lt;br /&gt;Depois começaram a escutá-lo. Até que deixaram de jogar à bola e andar de baloiço. Para escutarem os diálogos entre NINGUÉM e o pássaro azul.&lt;br /&gt;O Director da Creche entendeu que NINGUÉM estava a prejudicar as outras crianças.&lt;br /&gt;E NINGUÉM foi transferido para outra Creche. E as crianças foram previamente avisadas. Não deveriam dar atenção às conversas de NINGUÉM.&lt;br /&gt;Algumas menos sonhadoras chamaram-lhe tolo. Por gestos. Por palavras. Por palavras e gestos.&lt;br /&gt;Os olhos demasiadamente tristes de NINGUÉM choravam. Não por aquele nome. Não por aquele insulto. Que culpa tinham elas de não conhecerem o pássaro azul? De não o terem como amigo?&lt;br /&gt;Chorava porque nunca mais voltara a ver o pássaro azul, isso sim! E estava a perder a esperança de passear de estrela em estrela.&lt;br /&gt;Um dia NINGUÉM, ao contemplar as flores do jardim e o firmamento, viu o pássaro azul. Correu e gritou por ele. Com toda a força.&lt;br /&gt;As outras crianças riram. Riram muito. Mas Miguel viu um pássaro azul. Grande e azul. A descer em direcção a NINGUÉM. E poisar na árvore mais próxima.&lt;br /&gt;Donde estavam não ouviam o que NINGUÉM e o pássaro azul diziam. Mas viram NINGUÉM regressar. E pela primeira vez aos saltos. Aos saltos. Alegre e feliz. Como se saltasse à corda com o arco-íris.&lt;br /&gt;Uns mais crentes, outros menos. Mas todos falavam da amizade de NINGUÉM com o pássaro azul.&lt;br /&gt;Só Miguel se aproximou de NINGUÉM. Porque também o Pai dele habitava aquele campo azul. Onde as estrelas nascem como papoilas.&lt;br /&gt;NINGUÉM via em Miguel o irmão com que sonhara. Podia contar-lhe tudo. Tudo. Ele não ria. Absorvendo cada palavra pronunciada. Talvez o Pai dele dormisse numa Estrela próxima da Estrela de seu Pai.&lt;br /&gt;Ao cair de uma noite o pássaro azul apareceu. Junto ao jardim da Escola. E – como prometeu – voou rumo ao Céu levando NINGUÉM.&lt;br /&gt;No dia seguinte NINGUÉM falou da viagem. Aos educadores e às crianças. Contou a deslumbrante viagem pelo espaço infinito. Os planetas e galáxias que avistara. As estrelas que percorrera.&lt;br /&gt;Os jardins móveis e os repuxos de água multicor que observara. Os lagos que atravessara cavalgando em cisnes de prata. As crianças e homens cantando em coros que escutara. E sobretudo a alegria de ver o Pai. Poeta e pintor. E de ter dourado com ele arestas das Estrelas.&lt;br /&gt;Fora tudo tão belo. Belo demais para caber nas palavras do pequeno NINGUÉM.&lt;br /&gt;As crianças ouviam encantadas a narração de NINGUÉM. Muito especialmente MIGUEL. Que aguardava ansiosamente um dia. O dia em que um pássaro azul o levasse também a ver o Pai.&lt;br /&gt;Porém os adultos olhavam NINGUÉM com ares descrentes. Os adultos só acreditam no que vêem.&lt;br /&gt;Para o Director da Creche, NINGUÉM era prejudicial às outras crianças. E NINGUÉM voltou para o velho caixote cravado num telhado de telhas partidas.&lt;br /&gt;Miguel chorou à despedida. NINGUÉM abraçou-o fraternalmente. Mas não deitou uma lágrima. Ia poder falar mais tempo com o pássaro azul.&lt;br /&gt;E assim foi num dia. Quando NINGUÉM já vestia os olhos de amarelo. Amarelo de desespero por estar só. O pássaro azul surgiu no parapeito da janela.&lt;br /&gt;NINGUÉM pediu-lhe que o levasse para o Céu. Para a Estrela onde o Pai dourava os contornos com arte. Lá tudo era mais belo. Desde a harmonia das coisas. E das pessoas.&lt;br /&gt;Que contraste com o que vira na caixa mágica!&lt;br /&gt;Mas o pássaro azul retorquiu-lhe:&lt;br /&gt;— NINGUÉM, o teu lugar é aqui na Terra. Mas poderás lá ir as vezes que quiseres. Veloz como o teu pensamento.&lt;br /&gt;— Eu quero ficar lá sempre. Porque lá tudo é mais bonito. Maravilhoso.&lt;br /&gt;— Tu não percorreste tudo. Foi a tua imaginação e os teus olhos que emprestaram beleza ao que viste. Virás a gostar da Terra. Basta que a olhes com os mesmos olhos. E um dia terás pena de ser forçado a deixá-la. Até esse momento tu tens uma missão a cumprir. Tu fazes falta, NINGUÉM. Nem imaginas a falta que fazes.&lt;br /&gt;— Como poderei eu, tão pobre, fazer falta?&lt;br /&gt;— Porque sabes sonhar. Sonhar acordado. Porque amas o que é belo. O céu. As flores. Os animais. Porque és sensível à dor alheia. Porque sofres quando vês sofrer. Porque tens alma de poeta.&lt;br /&gt;— Como sabes?&lt;br /&gt;— Observei-te enquanto olhavas a caixa mágica. Vi quanto sofrias em cada imagem de guerra. Por cada criança com fome. Por cada pobre sem abrigo. A cada soco. A cada estocada. A cada tiro. A cada destruição. E tenho provas da tua bondade. Ao repartires o pão comigo. Ao tratares da ferida que me fizeram. Ao quereres dividir a comida pelo irmão que desejavas ter. Vi-te no jardim a acariciar uma flor. Como se fosse Princesa. Vi-te chorar quando os rapazes roubaram um ninho. Vi-te perdoar insultos com resignação. A tratares as estrelas e as pedras como irmãs. Vi-te beijar as mãos calejadas do velho jardineiro. E oferecer duas lágrimas ao educador que não te compreendeu.&lt;br /&gt;— E que posso fazer eu?&lt;br /&gt;— Lutar por ti. Por tua Mãe. Por todos os que vivem como tu. Em velhos caixotes.&lt;br /&gt;— Mas eu detesto as lutas. As guerras.&lt;br /&gt;— Poderás lutar sem armas. Uma frase ou um poema vale mais que uma espingarda. Poderás tocar o coração dos homens. Um avarento, um ladrão e até um assassino podem arrepender-se. E tornar-se bons. É preciso que alguém lhes faça sentir a maldade. Os monstros que albergam. Que trazem dentro de si. Que não lhes dão nenhuma felicidade. E que é necessário arrancar-lhes. Como as carraças aos pobres cães. Ou o joio ao loiro trigo.&lt;br /&gt;— Esses «monstros» são os demónios de que me falaram na Creche?&lt;br /&gt;— Chama-lhes doenças da alma, se quiseres.&lt;br /&gt;— E o que é a alma?&lt;br /&gt;— Direi que é a própria vida. Como que a corda de um boneco. De um boneco de corda...&lt;br /&gt;— Não entendo. Mas que poderei eu fazer?&lt;br /&gt;— A Terra precisa de poemas e canções de amor. E de actos. Muitos actos de amor. Tua Mãe também faz da sua vida de trabalho um verdadeiro hino de amor. Que te oferece todos os dias. Discretamente. Quando esfrega as escadas, a própria escova canta uma canção de amor. E acalenta-lhe a esperança de dias melhores. Embala-a na ideia de que um dia serás grande. E feliz.&lt;br /&gt;— Mas pergunto de novo, o que poderá fazer um pobre como eu?&lt;br /&gt;— Houve poetas pobres. Pobres de bens materiais. E de cultura. Alguns analfabetos. Mas ricos. Muito ricos de sensibilidade. De imaginação. imaginação. Verdadeiros filósofos da vida. Amantes do Ser e não do Ter.&lt;br /&gt;— Mas afinal quem és tu, que sabes tantas coisas? — perguntou intrigado o pequeno NINGUÉM.&lt;br /&gt;— Eu, eu — balbuciou nervosamente o pássaro azul. Depois quedou-se num total silêncio. E NINGUÉM continuou a interrogá-lo:&lt;br /&gt;— És Fada ou ave encantada? Ou vieste de outro Planeta? Em algum disco voador? Ou és sonho acordado? Ou serás o poeta de meu Pai?&lt;br /&gt;E de repente o pássaro azul ergueu-se. E desfez-se em fumo perfumado.&lt;br /&gt;NINGUÉM ancorou as lágrimas ao cais do seu coração. E sentiu que no sangue das suas veias navegava um poeta.&lt;br /&gt;Iria ter a coragem dos gigantes. Que importava ser pequeno? Ainda não sabia escrever. Mas o pássaro azul até lhe falara de poetas analfabetos.&lt;br /&gt;A ideia de ser útil aos outros encheu-lhe a alma de alegria. E os seus olhos demasiadamente tristes de cor de violeta vestiram-se para sempre de rosas. De rosas brancas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O tempo passou. Passou a correr. E NINGUÉM cresceu. Hoje NINGUÉM é um HOMEM. Hoje NINGUÉM É ALGUÉM. Porém, os seus olhos continuam tristes. Muito tristes. Porque continuam a existir muitos NINGUÉNS.&lt;/em&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Fernando Cardoso&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Ninguém e o pássaro azul&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Portugalmundo, 1998&lt;br /&gt;Texto adaptado&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-9027320975654869650?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/9027320975654869650/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=9027320975654869650' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/9027320975654869650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/9027320975654869650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/07/ningum-e-o-pssaro-azul-fernando-cardoso.html' title='Ninguém e o Pássaro Azul - Fernando Cardoso'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-2495897877318891706</id><published>2007-07-17T00:54:00.000-07:00</published><updated>2007-07-23T15:09:16.974-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><title type='text'>Um simples caderno? - Brigitte Meissel</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 170%"&gt;As rodas giravam mas enterravam-se cada vez mais fundo na areia, e o carro não saía do sítio. O motor acelerou e acabou por parar de vez.&lt;br /&gt;A pele muito escura de Mumo brilhava com o suor. Saímos do carro. Os pés enterraram-se até aos tornozelos na areia escaldante. Todas as tentativas para empurrar o carro eram inúteis.&lt;br /&gt;— A que distância estamos do Centro das Missões? — perguntou Willi.&lt;br /&gt;— Dois quilómetros, talvez três — respondeu Mumo.&lt;br /&gt;— Foi sorte o carro não se ter avariado há duas horas atrás — pensou Willi em voz alta. — Eu vou buscar ajuda. Em que direcção fica o Centro?&lt;br /&gt;Mumo estendeu o braço numa direcção qualquer.&lt;br /&gt;Eu só via areia até perder de vista, e alguns espinheiros.&lt;br /&gt;— É melhor irem os dois — disse eu. Tinha muito medo que Willi se perdesse naquela imensidão de areia.&lt;br /&gt;— Queres ficar a guardar o carro sozinha? — perguntou Mumo num tom duvidoso.&lt;br /&gt;— Guardar de quem? — perguntei-lhe a rir. Quem iria assaltar um carro em pleno deserto do Koroli?&lt;br /&gt;— Há muitas pessoas, muitas tribos diferentes, todas muito pobres aqui, em North Horr — disse Mumo com ar sério.&lt;br /&gt;Sentei-me na areia e encostei-me contra a porta do carro. Pelo menos assim estava um pouco mais protegida do vento quente que me fustigava o braço com minúsculos grãos de areia cortantes. Com os olhos, seguia os dois, que, afundados na areia e curvados para se protegerem do vento, se iam afastando, cada vez mais pequenos, até acabarem por se diluir no calor tremeluzente.&lt;br /&gt;Antes que tivesse tempo de me assustar com a solidão daquele ermo, os dois pontos distantes tornaram a aumentar de tamanho. Os homens já estariam de volta? Mas afinal não eram dois, não! Três, quatro, cinco pontos foram crescendo na minha direcção. A ajuda que procurávamos estaria afinal tão perto?&lt;br /&gt;Levantei-me. Os olhos ardiam-me por causa da areia, do vento e do sol incandescente. Seria alguma assombração?&lt;br /&gt;Os pontos transformaram-se em formas, e as formas, em crianças a correr. Crianças que corriam na minha direcção e cada vez em maior número!&lt;br /&gt;Em pouco tempo vi-me rodeada por um bando de crianças nuas, semi-nuas, embrulhadas em trapos, crianças grandes e pequenas. Algumas traziam bebés às costas, outras arrastavam crianças mais pequenas pela mão. Todas de olhos encovados e corpos famintos. Nenhuma se acercou mais de cinco metros.&lt;br /&gt;Fixavam-me, espantadas e de boca aberta, sem um único sorriso para a curiosa aparição que eu devia ser para elas.&lt;br /&gt;Mulheres adultas, com os panos das suas vestimentas ondulando ao vento, aproximavam-se, mais lentas do que as crianças. Também elas eram magras, algumas velhas, outras novas, mulheres grávidas, mulheres com bebés ao peito e de todos os tons de pele, desde castanho “café com leite” até preto escuro. Ficaram em silêncio atrás das crianças e olhavam-me também fixamente.&lt;br /&gt;“Mas que rico encontro!”, pensei eu.&lt;br /&gt;Encostei-me ao jipe. A chapa quente do carro queimava-me a pele através da camisa. E assim ficámos a olhar fixamente uns para os outros, calados e imóveis: mulher branca olha para pretos e pretos olham para mulher branca.&lt;br /&gt;— Olá! — disse eu, quando não aguentei mais.&lt;br /&gt;Ninguém respondeu. Ninguém se mexeu um milímetro sequer, ou mostrou uma cara simpática.&lt;br /&gt;A ideia de que os dois homens poderiam demorar horas até regressarem com ajuda encheu-me de medo. Será que tinha de ficar horas a olhar para os nativos e a ser observada fixamente por eles? Não ia aguentar.&lt;br /&gt;Fiz uma nova tentativa. Com cuidado, acocorei-me, como os africanos fazem. Os meus olhos estavam agora ao nível dos das crianças que se encontravam mais perto de mim. Comecei a cantar: “Todos os patinhos sabem bem nadar…” procurando olhá-las nos olhos.&lt;br /&gt;De repente, as mulheres recuaram. Ocorreu-me a ideia absurda de que teriam pensado que eu queria enfeitiçar as crianças. Mas um dos meninos aproximou-se e estendeu o bracinho magro na minha direcção. Eu segurei-o, com cuidado, e comecei a contar os dedos: “Este é o mindinho…” A criança recolheu o braço, assustada.&lt;br /&gt;Da última fila, alguém empurrava e furava para passar. Uma menina com cerca de doze anos conseguiu por fim chegar à frente e perguntou-me timidamente, em inglês, se estava a cantar canções infantis. Eu acenei que sim, aliviada, e perguntei se podíamos conversar um pouco em inglês. Ela acenou igualmente. Em seguida virou-se para as mulheres e disse-lhes algo em Suahili que, aos meus ouvidos, soou como se estivesse a acalmá-las.&lt;br /&gt;Isto encorajou-me a fazer-lhe mais perguntas. Se ia à escola das Missões? Acenou que sim, com orgulho. Depois, perguntou-me de onde vinha e pareceu traduzir a minha resposta às mulheres.&lt;br /&gt;O gelo estava quebrado. As mulheres murmuraram alguma coisa e, de repente, vi-me cercada por elas.&lt;br /&gt;— Há muita água no teu país? — quis saber a menina. — E árvores verdes?&lt;br /&gt;Acenei que sim e comecei a falar. Falei das nossas montanhas e dos lagos, das nossas crianças, e de como todas eram obrigadas a ir à escola. A menina traduzia, palavra a palavra, e as crianças e as mães estavam espantadas e incrédulas.&lt;br /&gt;Com os dedos, desenhei na areia montanhas, vacas, árvores, e a forma das nossas casas, mas o vento forte depressa apagava os meus desenhos.&lt;br /&gt;Levantei-me e meti o braço pela janela do carro. Sabia que tinha um caderno e um marcador na minha carteira. Tirei as duas coisas mas tive de as segurar no ar, acima da cabeça. Os africanos, grandes e pequenos tinham-se, entretanto, acercado de tal forma contra mim, que mal me podia mexer.&lt;br /&gt;Depois de ter pedido um pouco de espaço, abri o caderno em cima do capot escaldante do carro. Mais uma vez, desenhei montanhas, lagos, árvores, vacas e casas.&lt;br /&gt;As crianças treparam para cima do carro, empurravam-me, penduravam-se em mim. Todas queriam ver e tocar no papel branco e macio.&lt;br /&gt;Deitada de barriga para baixo no tejadilho do carro, a minha intérprete via tudo lá de cima, fazia-me perguntas e pedia-me para desenhar as respostas e levantar o caderno, para todos poderem ver aquelas coisas maravilhosas e inacreditáveis.&lt;br /&gt;— És professora? Vens para aqui? Vais ficar aqui, connosco? Trouxeste um caderno desses para cada um de nós?&lt;br /&gt;As perguntas choviam de todos os lados. Envergonhada, tive de responder não a todas.&lt;br /&gt;Um barulho ao longe fez-me erguer a cabeça. Da direcção em que Mumo e Willi haviam desaparecido aproximava-se um jipe. A nossa ajuda estava a chegar.&lt;br /&gt;Dei o caderno à menina, que me olhou radiante com os seus grandes olhos, mas ainda antes de ter podido dizer &lt;em&gt;thank you&lt;/em&gt;, cerca de trinta ou quarenta pares de mãos estenderam-se e tentavam apanhá-lo. A preciosidade acabou por ser conquistada por um rapazinho.&lt;br /&gt;Protestei com veemência mas ele não ligou às minhas palavras. Subiu para um monte de areia, chamou as crianças com o braço e com os dedos ágeis tirou os agrafos do caderno.&lt;br /&gt;Como rei que distribuía as riquezas do seu reino, distribuiu ele as folhas brancas e lisas.&lt;br /&gt;Não estava à espera disto. Emudecida, compreendi. Estava a zelar para que todos tivessem uma parte do tesouro. Sorria, orgulhoso, com o marcador enfiado no cabelo encarapinhado.&lt;br /&gt;Como o caderno era grosso, quando o jipe chegou, já quase todas as crianças tinham uma folha na mão.&lt;br /&gt;— Estás bem? — perguntou Willi, preocupado, ao ver-me no meio daquela multidão. Limitei-me a acenar com a cabeça.&lt;br /&gt;Enquanto os homens prendiam o cabo no nosso carro, atei rapidamente o meu lenço à volta da cabeça da minha pequena intérprete.&lt;br /&gt;— Vais voltar? — perguntou-me, no momento em que eu entrava para o carro.&lt;br /&gt;— Vamos tentar — prometi-lhe.&lt;br /&gt;Durante a viagem até North Horr — eram mesmo só dois quilómetros — contei a Willi a minha aventura.&lt;br /&gt;— Nem quero pensar no meu cesto de papéis lá de casa — terminei.&lt;br /&gt;— Vais ver que havemos de arranjar forma de lhes enviar cadernos e lápis. – disse Willi para me consolar.&lt;br /&gt;E assim fizemos.&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Brigitte Meissel&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Jutta Modler (org.)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Brücken Bauen&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Wien, Herder, 1987&lt;br /&gt;Tradução e adaptação&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-2495897877318891706?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/2495897877318891706/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=2495897877318891706' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/2495897877318891706'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/2495897877318891706'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/07/um-simples-caderno-brigitte-meissel.html' title='Um simples caderno? - Brigitte Meissel'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-3812543788791345175</id><published>2007-07-05T10:04:00.000-07:00</published><updated>2007-07-20T14:32:57.490-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='corrupção'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='neoliberalismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='multinacionais'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sociedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='finanças'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='banca'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desespero'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='especulação'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='exploração'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='globalização'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='opressão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lucro'/><title type='text'>Os ricos globalizam a pobreza - Luc Coppejans</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Além-Mar&lt;br /&gt;Fevereiro 2001&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Excertos&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;Uma globalização que só serve os interesses de alguns&lt;br /&gt;promove uma visão unidimensional da natureza humana&lt;br /&gt;e condena à pobreza povos inteiros.&lt;br /&gt;Não é por acaso que um pouco por todo o lado se fazem&lt;br /&gt;ouvir protestos contra a liberalização desenfreada.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;Vivemos num tempo de mudanças profundas. No último século, a nossa visão da vida mudou dramaticamente do nacionalismo para o internacionalismo, para o globalismo. Todavia, as nossas instituições políticas e a nossa ideia do mandato político mudaram muito pouco desde o início do nosso século.&lt;br /&gt;O principal veículo da globalização é a ideologia neoliberal do mercado livre. Não houve ao longo da História outra ideologia que tivesse influenciado tão profundamente cada aspecto da vida das pessoas no mundo como a do neoliberalismo. Ela tem impacto na vida económica, na comunicação e na informação, nos desenvolvimentos tecnológicos, na cultura, nos padrões de consumo, no crime, nos conflitos, nas epidemias, na ecologia, na migração e, naturalmente, na política.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O novo credo universal: a economia de mercado&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;A globalização considera que a competição e a economia de mercado são o credo universal. Esta insistência na competição promove uma visão unidimensional da natureza humana e das relações humanas. Uma sociedade que é um leilão, onde até as coisas sagradas, como o sangue e os órgãos humanos, a biodiversidade, podem ser comprados e vendidos, e onde os valores podem ser substituídos por preços, faz-nos recordar de modo arrepiante a visão do Apocalipse: &lt;em&gt;Babilónia tornou-se antro de demónios, guarida de todos os espíritos imundos... porque do vinho da sua luxúria se embriagaram todas as nações...&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;Apocalipse&lt;/em&gt; 18, 2-3). O credo da lógica do mercado constitui um desafio cultural e espiritual. Um desafio que os políticos não enfrentaram (suficientemente) e pelo qual estão a pagar um preço.&lt;br /&gt;Alguns dos problemas gerados pela acção dos mecanismos de mercado no âmbito do actual movimento da globalização têm a ver com o facto de que a doutrina do mercado livre aumenta nos ricos o falso sentimento de serem «pessoas escolhidas», e com o facto de esta estar orientada para a aquisição de poder em vez de ter em conta as necessidades das pessoas e da Terra.&lt;br /&gt;A globalização, comandada pela actual ideologia liberal do mercado, tem adormecido as pessoas. Satisfeitas com as suas riquezas, muitas pessoas aprovam a ideologia liberal do mercado livre. Desapontadas com a política, aceitam uma visão da sociedade que passa por uma produção e um consumo sempre em expansão, uma sociedade em que o poder está nas mãos de uma pequena e forte elite económica, que facilita a gestão eficiente do processo de produção/consumo, do qual derivam todas as coisas boas da vida. Mas, numa sociedade destas, a maioria das pessoas têm pouco a dizer sobre a configuração da sociedade em que vivem e pouco poder de participação.&lt;br /&gt;Os líderes políticos e as instituições tornam-se meros «ponta-de-lança» de políticas decididas longe, por empresas transnacionais. Este sistema não dá poder às pessoas, mas transforma-as em consumidores satisfeitos, e abre perigosamente as portas para que os direitos humanos sejam atropelados, a dignidade humana desrespeitada, o desenvolvimento humano entravado e o ambiente indiscriminadamente explorado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Injustiça estrutural e política&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;É verdade que a esperança de vida, em média, cresceu mais nos últimos 50 anos do que nos anteriores 4000; a competição nos transportes e nas comunicações facilitou imensamente as nossas vidas. Contudo, ao mesmo tempo, a diferença entre ricos e pobres está a aumentar, tanto globalmente como no seio dos vários países. Existem 360 multimilionários no mundo, cuja riqueza conjunta é igual à soma do rendimento de 2,5 mil milhões de pobres. Que estrutura permite e justifica tamanha disparidade de riqueza?&lt;br /&gt;Americanos e europeus gastam 200 mil milhões de dólares (mais de 40 mil milhões de contos) por ano em receitas médicas. Obviamente, medicamentos para enfermidades como a cegueira dos rios, a doença do sono ou a malária não se encontram habitualmente nas prateleiras das farmácias ocidentais, porque não têm procura. Todavia, em dispensários do Sul, como por exemplo no Benin, são também raros, não porque não se precisa deles, mas porque as pessoas não têm posses para os comprarem. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 60 mil milhões de dólares são gastos anualmente na investigação médica, mas menos de 10 por cento desta soma é aplicada na investigação de doenças que afectam 90 por cento da população mundial, como a malária, a tuberculose e o HIV/sida. As indústrias farmacêuticas receiam não ser capazes de vender os seus produtos a preços compensadores, ou que os países pobres não respeitem as suas patentes, por isso não lhas dão! Quantas pessoas morrem diariamente em África por não terem os medicamentos mais comuns?&lt;br /&gt;O Norte pretende que os países do Sul abram os seus mercados, mas os países ricos são proteccionistas nos sectores em que os países pobres são mais capazes de competir, como na agricultura, nos têxteis e no fabrico de vestuário. «Tarifas acumuladas», (taxas cada vez mais altas por cada degrau no processo de produção) e «tarifas &lt;em&gt;antidumping&lt;/em&gt;» para bens considerados «injustamente baratos» protegem os têxteis europeus, a agricultura, o aço, etc. Isto impede efectivamente o crescimento económico em África, não cria emprego nas cidades e reduz o rendimento das famílias africanas!&lt;br /&gt;A Organização Mundial do Comércio (OMC) forçou a União Europeia a abandonar o seu regime de importação de bananas, que favorecia os pequenos produtores africanos. As grandes firmas americanas conseguiram convencer a OMC que favorecer os pequenos produtores de bananas ia contra as regras do mercado livre. As vítimas destas regras da OMC são os agricultores pobres do Gana, Costa do Marfim, Benin e Togo, cuja vida dependia das bananas; os vencedores são as grandes empresas como a Chiquita. O mesmo acontece com o uso de matérias gordas de substituição do cacau no fabrico do chocolate.&lt;br /&gt;Estes são apenas alguns exemplos das injustiças infligidas pelo Norte à África. O mais estranho é que todas as leis e regulamentos que sustentam estas injustiças são ratificados pelos nossos representantes políticos, democraticamente eleitos: governos ou parlamentos! Senhores políticos: quem tem o poder neste mundo? Quem detém a autoridade no mundo de hoje?&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-3812543788791345175?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/3812543788791345175/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=3812543788791345175' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/3812543788791345175'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/3812543788791345175'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/07/os-ricos-globalizam-pobreza-luc.html' title='Os ricos globalizam a pobreza - Luc Coppejans'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-6629474117141667380</id><published>2007-07-05T09:58:00.000-07:00</published><updated>2007-09-25T14:03:15.156-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='corrupção'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='finanças'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='multinacionais'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='banca'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='especulação'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='globalização'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='exploração'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sociedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lucro'/><title type='text'>Um Poder Absoluto - Ana Glória Lucas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Além-Mar&lt;br /&gt;Março, 2003&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Excertos&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;São mais poderosas do que muitos Estados. As empresas multinacionais impõem as suas regras, sobretudo junto dos países pobres, escolhem os de mão-de-obra barata para montar as suas fábricas, poluem e exploram trabalhadores à medida dos seus interesses, sempre na lógica do lucro. E, cúmulo dos cúmulos, ainda se permitem algumas vezes exigir indemnizações a países que têm milhões de habitantes ameaçados de fome.&lt;br /&gt;Comecemos por definir o que é uma empresa multinacional. Segundo o Centre Europe-Tiers Monde (Cetim), um organismo sedeado em Genebra e que actua como consultor das Nações Unidas, trata-se de “pessoas jurídicas de direito privado, com múltipla implantação territorial, mas com um centro único de decisão. (...) Desenvolvem a sua actividade na produção e nos serviços, praticamente em todas as esferas da actividade humana, e também na especulação financeira. E nestas três esferas actuam simultânea, sucessiva ou alternadamente”.&lt;br /&gt;Mais adiante, no mesmo documento do Cetim, de Junho de 2002, pode ler-se: “As suas actividade abarcam diferentes territórios nacionais, variando com rapidez e relativa frequência os lugares em que estão implantadas, em função da sua estratégia baseada no objectivo do lucro máximo.” E, a seguir: “O carácter transnacional das suas actividades permite-lhes iludir o cumprimento das leis e regulamentos nacionais e normas internacionais que consideram desfavoráveis aos seus interesses”.&lt;br /&gt;E, no objectivo de obter o máximo lucro, objectivo esse “que não admite nenhum obstáculo”, são frequentes as práticas que passam pela promoção de guerras de agressão e conflitos inter-étnicos para controlar os recursos naturais do planeta e favorecer a expansão e os lucros da indústria bélica”, “a violação dos direitos laborais e dos direitos humanos em geral” e “a degradação do meio ambiente”, para além da corrupção de funcionários para se apoderarem dos serviços públicos essenciais mediante privatizações fraudulentas e lesivas dos direitos dos utentes” e da “corrupção das elites políticas, intelectuais e dos dirigentes da sociedade civil”.&lt;br /&gt;Neste documento, o Cetim chama a atenção - aliás já não pela primeira vez – para a “confusão entre poder económico e poder político”, nomeadamente no caso dos Estados Unidos, onde tem a sua sede a maioria das multinacionais mundiais, e recorda como já há quatro décadas o então presidente Dwight Eisenhower chamava a atenção para a influência nefasta que tinha sobre o Governo o “complexo militar-industrial”. E lembra como as três grandes figuras da actual administração George W. Bush, Dick Cheney e Colin Powell tinham antes os seus nomes ligados às indústrias petrolíferas e da aviação e comunicações.&lt;br /&gt;O poder das multinacionais estende-se neste momento à própria Organização das Nações Unidas, que lhes abriu as portas através do denominado “Global Compact”, da qual fazem parte algumas das principais multinacionais mundiais, como a British Petroleum, a Shell, a Nike, a Nestlé e a Ciba-Geigy, para citar apenas algumas. A finalidade anunciada por Kofi Annan é a de corrigir os desequilíbrios da globalização, mas a verdade é que um pacto deste tipo acaba por se traduzir numa certa promiscuidade entre empresas e um organismo internacional como a ONU, que, de resto, já em 1993 suprimira organismos criados para manter um controlo sobre as actividades das multinacionais, especialmente na área social.&lt;br /&gt;Calculam-se em 63 mil as empresas multinacionais com 690 mil filiais estrangeiras. Controlam dois terços de todo o comércio mundial e são mais poderosas do que muitos Estados, mesmo ricos. Por exemplo, o volume de vendas da General Motors (EUA) é superior ao produto interno bruto da Dinamarca, e o da Exxon-Mobil (EUA) supera o da Áustria. As 23 multinacionais mais poderosas vendem mais do que exportam países como o Brasil, a Indonésia ou o México.&lt;br /&gt;Só que estes volumes de vendas raramente se traduzem em riqueza para os países onde as multinacionais estão implantadas. Veja-se como exemplo o caso da Bolívia. Hidrocarbonetos, telecomunicações, caminhos-de-ferro, transportes aéreos e electricidade estão nas mãos de multinacionais, que nos últimos cinco anos eliminaram 10 mil postos de trabalho. As reservas de gás natural são as segundas mais importantes da América Latina, avaliadas em 80 mil milhões de dólares. As exportações de gás só para o Brasil renderam às multinacionais algo como 5000 milhões de dólares em duas décadas, tendo o Estado boliviano recebido em impostos e outras regalias apenas 80 milhões de dólares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Violações dos direitos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A área de actuação das multinacionais estende-se a todos os sectores da economia. Dos combustíveis à aviação, dos têxteis ao calçado, dos pesticidas à indústria automóvel, da indústria alimentar aos produtos de higiene, dos produtos farmacêuticos às telecomunicações e aos computadores, nada fica fora da alçada das multinacionais.&lt;br /&gt;No que se refere aos trabalhadores, as multinacionais não são exactamente os melhores amigos destes. Numa contradição espantosa com os números que representam para a economia mundial, as multinacionais empregam apenas três por cento da força de trabalho mundial, preferindo muitos vezes os chamados países do Sul, onde a mão-de-obra é abundante e barata – mesmo que pouco qualificada.&lt;br /&gt;De um modo geral, nos Estados que criam condições atraentes para a implantação das multinacionais, estas traduziram-se numa descida das condições laborais e dos direitos dos trabalhadores, com um aumento da precaridade dos postos de trabalho. E os despedimentos são frequentes para reduzir custos e tornar as empresas mais atraentes, seja para aquisição por outras seja para cotação nas bolsas.&lt;br /&gt;Em muitos países, são as populações indígenas as que mais sofrem, vendo-se muitas vezes expulsas das suas terras – especialmente se estas forem ricas em recursos naturais a fim de facilitar a actividade das grandes empresas estrangeiras.&lt;br /&gt;O meio ambiente também não está nas preocupações das multinacionais, que actuam indiferentes à contaminação ambiental que podem causar. Resíduos industriais poluentes ou resíduos médicos e hospitalares são muitas vezes largados em países do chamado Terceiro Mundo, sem qualquer respeito pelas populações que vivem nas proximidades. Talvez por todas estas razões as multinacionais tenham levantado tantas objecções à ideia da criação de um tribunal mundial para o ambiente, sugerida durante a Cimeira da Terra que se realizou em Joanesburgo, em Setembro de 2002.&lt;br /&gt;A propósito, recorde-se aqui o de¬sastre que afectou a localidade indiana de Bhopal em Dezembro de 1984, quando uma fuga de gás tóxico numa fábrica de pesticidas da Union Carbide (EUA) provocou quase 15 mil mortos, no imediato e ao longo destes mais de 18 anos, e uma contaminação ambiental que se estendeu por um raio de 1,5 quilómetros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Disputas judiciais&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais irónico de tudo isto é que as multinacionais não hesitam em recorrer a processos jurídicos contra países, por mais pobres que sejam, quando sentem que os seus interesses estão em causa.&lt;br /&gt;O caso mais recente e flagrante é talvez o da multinacional suíça Nestlé, que, em Dezembro de 2002, processou a Etiópia por uma nacionalização que remonta a 1975, exigindo-lhe uma indemnização de seis milhões de dólares. A Nestlé, que controla o mercado de café, é uma das 15 empresas mais rentáveis do planeta, tendo obtido em 1999 lucros da ordem dos 3000 milhões de dólares. Isto enquanto a Etiópia, que em 2002 não conseguiu mais de 175 milhões de dólares com as vendas do café, devido à descida do preço desta matéria-prima, atravessa de novo uma crise alimentar que ameaça de fome 12 milhões dos seus habitantes.&lt;br /&gt;Em Fevereiro de 2002, a multinacional norte-americana Bechtel Corporation pediu uma indemnização de 25 milhões de dólares ao Governo boliviano, na sequência do cancelamento de um contrato de 40 anos para que a empresa Aguas del Tunari, uma subsidiária da Bechtel, fornecesse água à cidade de Cochabamba. O contrato foi cancelado após violentos protestos de rua dos habitantes locais contra o aumento considerável do preço da água que o contrato significou. Em 2000, o mesmo ano dos protestos, a Bechtel apresentou receitas da ordem dos 14.300 milhões de dólares.&lt;br /&gt;Em Abril de 2001, nada menos de 39 multinacionais farmacêuticas processaram o Governo de Pretória por vender medicamentos genéricos contra a sida, num país onde há cerca de cinco milhões de infectados com o vírus. O processo acabou por ser retirado, na sequência de uma campanha internacional.&lt;br /&gt;Ainda na África do Sul, mas num processo em sentido inverso, duas organizações não governamentais, a Khulumani e a Jubilee South Mrica, intentaram nos EUA uma acção contra empresas europeias e norte-americanas – entre elas a União de Bancos Suíços, a Exxon-Mobil e a IBM que, no passado, ajudaram o regime do &lt;em&gt;apartheid&lt;/em&gt; no seu desrespeito pelos direitos humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Código de conduta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É consensual entre os especialistas que as multinacionais precisam de adoptar uma atitude mais ética a fim de acabar com alguns dos males que parecem ser intrínsecos à sua actividade: corrupção, violações dos direitos humanos, contaminação ambiental....&lt;br /&gt;Em 1999, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) lançou uma conven¬ção internacional contra as empresas que recorrem à corrupção para atingirem os seus objectivos, as quais ficam sujeitas a acções judiciais, e, no ano seguinte, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, concretizava a sua iniciativa “Global Compact”, a pretexto, como atrás se disse, de corrigir os desequilíbrios da globalização e de fazer respeitar princípios relativos a direitos humanos, normas de trabalho e meio ambiente. Simplesmente, não existem mecanismos para verificar se estes princípios são ou não respeitados.&lt;br /&gt;Logo na altura ficou claro que não se tratava de um código de conduta para multinacionais, porque estas não aceitam submeter-se a nenhum. “Evidentemente que não podemos criar um código de conduta para as empresas. Isso seria uma missão impossível para a ONU”, disse na altura Georg Kell, director executivo do “Global Compact”.&lt;br /&gt;Resta, assim, acreditar que as multinacionais possam algum dia vir a pensar em algo mais do que o lucro próprio. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-6629474117141667380?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/6629474117141667380/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=6629474117141667380' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/6629474117141667380'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/6629474117141667380'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/07/um-poder-absoluto-ana-glria-lucas.html' title='Um Poder Absoluto - Ana Glória Lucas'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-5667404496444859657</id><published>2007-07-05T09:53:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:35:45.734-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='finanças'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='multinacionais'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='banca'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='especulação'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='globalização'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sociedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lucro'/><title type='text'>Os donos do mundo - José Rebelo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Além-Mar&lt;br /&gt;Março 2003&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Excertos&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;As notícias de «deslocalização» de um par de grandes empresas agitaram o País. Os comentadores concordam em afirmar que outras lhes seguirão o exemplo e alguns acham até que fazem pouca falta, porque são especialistas em aproveitar fundos e regalias, mas contribuem pouco para o desenvolvimento. Em contrapartida, deixam atrás de si o drama humano de muitos trabalhadores atirados para o desemprego.&lt;br /&gt;Numa intervenção indignada, o Presidente da República lembrou que «as pessoas não são números». Todavia, para as grandes corporações transnacionais, o que conta é o lucro e não as pessoas. Por isso, de modo geral, não se importam com a defesa dos direitos humanos, laborais, sociais e ambientais.&lt;br /&gt;A título de exemplo, recorde-se que o Centro das Nações Unidas para as Corporações Transnacionais (UNCTC) revelou que metade dos gases responsáveis pelo efeito de estufa são produzidos pelas multinacionais, que também são responsáveis por muitos dos desastres ecológicos. O que têm para oferecer não é muito: apesar dos seus lucros fabulosos, dão emprego apenas a três por cento da mão-de-obra mundial.&lt;br /&gt;Os chorudos proveitos obtidos pelas transnacionais são repartidos pelos seus gestores e accionistas. As nações que fornecem a força de trabalho e os recursos – geralmente do Terceiro Mundo – pouco ganham financeiramente e sofrem, de modo consistente, danos sociais, com a exploração desregrada dos trabalhadores.&lt;br /&gt;Os salários dos seus empregados – a maior parte proveniente das zonas rurais – não chegam para pagar a alimentação, o alojamento, os transportes e as outras necessidades. Acabam nos bairros de lata das grandes cidades, onde não têm apoio familiar e social, e onde frequentemente falta água e saneamento básico, escolas e centros de saúde.&lt;br /&gt;A Organização Mundial de Saúde estima que 1,1 mil milhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,4 não dispõem de uma instalação sanitária adequada. Apesar disso, está em curso um processo de privatização dos serviços de abastecimento de água e saneamento básico, que só contribuirá para o aumento da pobreza e das desigualdades. Quanto mais se alarga a esfera privada, mais se restringe a democracia, os direitos dos mais fracos e a sua capacidade de intervenção social.&lt;br /&gt;Mas o poder destes gigantes privados é enorme. Pela sua influência sobre a produção agrícola, o comércio mundial (controlam dois terços), as finanças e mesmo a política. Em última instância, quem decide não são os governos dos diversos países, mas as eminências pardas que movem nos bastidores as suas poderosas e obscuras teias de interesses.&lt;br /&gt;O seu sucesso baseia-se na habilidade para influenciar as políticas governamentais, conseguir os subsídios disponíveis e conquistar o apoio dos principais actores políticos e económicos. O caso mais paradigmático e perigoso é o dos Estados Unidos, onde os gigantes da energia e da defesa exercem um poderoso &lt;em&gt;lobby&lt;/em&gt; sobre os membros da Administração Bush.&lt;br /&gt;A tendência mundial para a liberalização dos serviços públicos, como a saúde, o saneamento e a educação, e de bens essenciais, como a água, a electricidade e o gás, é incentivada pelas multinacionais, que vêem neste sectores, tradicionalmente assegurados pelo Estado, uma nova árvore das patacas.&lt;br /&gt;À medida que os Estados se retiram de sectores essenciais para o bem-estar das populações, as megacompanhias entram em cena. E a lógica é a que todos bem conhecemos: quem pode pagar fica bem servido, quem não pode é esquecido.&lt;br /&gt;Como disse Jorge Sampaio, as pessoas não são coisas nem números. Parece evidente, menos para aqueles que reconhecem como único valor absoluto e único deus o lucro pelo lucro. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-5667404496444859657?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/5667404496444859657/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=5667404496444859657' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/5667404496444859657'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/5667404496444859657'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/07/os-donos-do-mundo-jos-rebelo.html' title='Os donos do mundo - José Rebelo'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-4292697090311012378</id><published>2007-07-05T09:32:00.000-07:00</published><updated>2007-07-23T15:13:43.986-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='neoliberalismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='finanças'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='multinacionais'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='banca'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sociedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lucro'/><title type='text'>De neoliberais a neo-solidários - Diego Marani</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Além-Mar&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Outubro 2000&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Excertos&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Enrico Chiavacci, um dos teólogos italianos do nosso tempo que mais tem estudado as relações entre a moral cristã e a economia, afirma que «é preciso acabar com a distinção, tão cara nos ambientes católicos, entre liberalismo, que seria uma coisa boa, e capitalismo selvagem, a rejeitar. O capitalismo não pode ser senão selvagem, porque tende à maximização do lucro.»&lt;br /&gt;E vai mais longe: «A teologia moral católica cingia-se, até ao Concílio Vaticano II, ao “não roubar”, único preceito de ética normativa em matéria de economia. Posso provocar dez milhões de mortos de fome deslocando capitais de um lado para o outro no mundo, mas não roubei; por isso, não cometi qualquer pecado. Para uma moral destas não há deveres de justiça para com o pobre. Esta não era, porém, a posição do Evangelho, dos padres da Igreja ou dos grandes teólogos medievais.»&lt;br /&gt;Como se há-de comportar o cristão na economia? É uma pergunta que não diz respeito unicamente às relações Norte/Sul mas também às de cada pessoa nas sociedades ricas do Norte do mundo.&lt;br /&gt;Não há dia em que não se fale de nova economia, o comportamento das bolsas ocupa grandes espaços nos órgãos de informação e condiciona a vida dos investidores. Mas será lícito a um cristão ganhar 100, 50 ou até dez por cento ao ano através dos jogos da bolsa, em acções ou fundos de investimento? Será um problema moral entrar no jogo da bolsa? Perguntas que poucos têm a coragem de se colocar. E ainda menos aqueles que lhe ousam responder.&lt;br /&gt;«A responsabilidade da teologia católica consiste em não ter prescrito um certo número de disposições morais, deixando ao arbítrio de cada um todo o espaço que se segue à compra legítima da propriedade privada.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Idolatria do mercado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que relação existe entre globalização, prosperidade e riqueza no Norte, exclusão e pobreza no Sul? A resposta de Chiavacci é trágica, mas sem rodeios: «Hoje o sistema económico global prospera com a fractura entre o Norte e o Sul. Tende a conservá-la onde já existe e, até, a provocá-la.» Porque o sistema mundial do capital, hoje conhecido também por globalização, «não está interessado em satisfazer as necessidades básicas para o desenvolvimento humano, mas unicamente aquelas necessidades ou desejos cuja satisfação fomenta o lucro». Portanto, nesta lógica, seria normal para um cristão não se interrogar para saber aonde vão acabar as suas poupanças, o importante é que elas rendam. Porque «ao sistema não interessa o que é produzido com o capital investido, mas apenas o lucro que se pode obter com o investimento: armas ou remédios, droga ou escolas, poluindo ou não poluindo, criando emprego ou desemprego (antes, cada vez mais se investe para criar desemprego, aumentando assim os lucros!) são opções que deixam o investidor perfeitamente indiferente».&lt;br /&gt;Alain Durand, director da DIAL, agência de notícias sobre a América Latina com sede em Lião (França), publicou um artigo intitulado «Para uma prática cristã da globalização» na revista Foi et Développement, onde afirmava: «A palavra de Deus pode ajudar-nos a compreender que a globalização de hoje se encontra desvirtuada pelo mundo neoliberal onde prospera. Somos convidados a passar da globalização neoliberal para a solidária.»&lt;br /&gt;Senão, contribuímos para criar pobreza e marginalização em todo o mundo.&lt;br /&gt;E a globalização — «religião» económica neoliberalista legitimada por uma política neoliberal — «tem uma grande responsabilidade neste aumento do número de pobres e de crescimento das desigualdades».&lt;br /&gt;Neste mercado mundial que não dá prioridade às necessidades básicas, que não cuida das suas vítimas a criação de riquezas parece ter como única finalidade a perpetuação da produção: o consumo de todos para o lucro de poucos como norma moral universal.&lt;br /&gt;A melhor e mais segura forma de amar o nosso próximo seria portanto esta: «Viver como egoísta no livre mercado global.»&lt;br /&gt;Chiavacci diria mais: «Não apenas a riqueza, mas o enriquecimento constante como fim em si mesmo tornou-se o novo ídolo, o novo ideal de vida nos países ricos. Estamos diante do vitelo de ouro, que tem de se adorar, ao qual todos os outros valores humanos e até religiosos têm de inclinar-se. Mas este biombo esconde a visão clara desta hora dramática de uma idolatria triunfante e torna-nos cúmplices dela; talvez inconscientemente, mas não isentos de culpa.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles empobrecidos, nós desumanos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta idolatria do mercado transforma os seus fiéis em consumidores. «O lugar sagrado onde os consumidores vivem com mais intensidade esta religiosidade do mercado são os centros comerciais», explica Jung Mo Sung, teólogo coreano emigrado ainda novo para o Brasil, autor de algumas obras que denunciam o deus oculto do capitalismo, porque «ao mercado são atribuídas todas as características de um Deus» e, para a Vulgata neoliberal, «o mercado é a fonte da vida, lugar onde a vida é produzida e reproduzida».&lt;br /&gt;«Também nós, países ricos, estamos ameaçados por um desenvolvimento desumanizante», recorda Chiavacci. «A lógica económica dominante tornou-se já a lógica global de uma “boa vida”: um modelo cultural profundamente inserido na mentalidade do Norte. A lógica que torna famintos três quartos da humanidade é a mesma que está a desumanizar o outro quarto mais rico.» Perda do sentido da vida, de relações afectivas gratificantes, de contacto profundo com a natureza, perda da capacidade de se sentir próximo de si próprios, dos outros, da criação, de Deus. Perda do relacionamento, mascarado com a solidão da hipercomunicação tecnológica do telemóvel e da Internet; anestesiado pelo papel de meros repetidores do monólogo colectivo a que a televisão, em primeiro lugar, nos reduziu; fomentado pela vulgarização ocidental de tantos negócios da nova era: desde a psicoterapia ao ioga, das clínicas de beleza às drogas mais ou menos sintéticas e às realidades mais ou menos virtuais.&lt;br /&gt;Os que pertencem às classes médias do Norte rico — explica Mo Sung —, «quando se sentem deprimidos e o seu humanismo se corrompeu pelas contradições da vida, vão ao seu templo/centro comercial, onde, comprando, se sentem mais humanos e animados. Em contacto com a nova sacralidade, as pessoas sentem-se fortificadas e aptas a enfrentar a realidade quotidiana, feita de competição e de concorrência». A palavra de ordem «melhor relação qualidade/preço» tornou-se um dogma, capaz de dar sentido à nossa ânsia de consumo.&lt;br /&gt;Não obstante tudo isto, há uma porta de saída para aquilo que só na aparência é a única realidade e o único pensamento: «Colocar no coração do sistema o espírito de solidariedade, em vez do espírito de concorrência.»&lt;br /&gt;Durand encontra-se também em sintonia com Jung Mo Sung quando afirma que este «sistema económico de produção é indefinido e incontrolado, reabsorve e reutiliza constantemente o tempo e as energias que o progresso da produtividade liberta, a fim de se poder ocupar também de outras coisas» e, por isso, «é urgente na nossa sociedade dar lugar a realidades como o rosto do outro, a palavra, o dom, o perdão, a criatividade, a festa».&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-4292697090311012378?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/4292697090311012378/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=4292697090311012378' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/4292697090311012378'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/4292697090311012378'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/07/de-neoliberais-neo-solidrios-diego.html' title='De neoliberais a neo-solidários - Diego Marani'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-8045184046343495226</id><published>2007-06-29T09:18:00.000-07:00</published><updated>2007-07-23T15:08:01.008-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desespero'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='exploração'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><title type='text'>As palmeiras são nossas! - Ilse van Heyst</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;O Dr. Magdy e eu saímos da luz tremeluzente mas suave da floresta de palmeiras para o sol forte, passámos junto das bananeiras e das últimas cabanas, pela passadeira de orla florida, e fomos dar ali onde acabava a terra fértil e começa a terra morta. Onde acabavam os jardins floridos e começava a areia seca. Subimos até ao deserto para, lá em cima, visitar, na superfície infinita, as escavações das pirâmides dos antigos faraós, resgatadas da areia.&lt;br /&gt;Regressámos ao fim de algumas horas. Parámos na primeira e única cabana das redondezas e saímos do carro. A cabana estava à sombra de três palmeiras particularmente bonitas, de forma que Magdy quis fotografá-las. Focou a máquina e fez clic. Tudo o resto era silêncio.&lt;br /&gt;Nesse silêncio que pairava no ar, entrou, de repente, uma menina pequena. Com cabelos desgrenhados e movimentos ágeis, descalça, escura e magra, aproximou-se de Magdy silenciosamente.&lt;br /&gt;— Queres fotografar as palmeiras, mas para isso tens de pagar — disse, quando se pôs à frente dele.&lt;br /&gt;Olhava-o com um olhar desafiador e estendia a mão na sua direcção.&lt;br /&gt;— Vai-te embora! — disse Magdy, que mediu a distância com passadas, carregou no botão e depois passou para o outro lado da estrada.&lt;br /&gt;A menina esfarrapada e frágil atravessou-se-lhe no caminho.&lt;br /&gt;Ele afastou-a para o lado como a um cão incómodo.&lt;br /&gt;Ela seguiu-o e falava-lhe:&lt;br /&gt;— As palmeiras são nossas — dizia ela, cada vez mais insistente e com a voz subindo de tom. — Se queres tirar-lhes uma fotografia, tens de pagar.&lt;br /&gt;— Vai à fava! — repetiu ele.&lt;br /&gt;A pequena olhou-o, furiosa, e repetiu com uma voz estridente:&lt;br /&gt;— Tens de pagar. As palmeiras são nossas! São as nossas palmeiras.&lt;br /&gt;Magdy, até aí bastante paciente, não suportou aquele tom.&lt;br /&gt;— É atrevida e desavergonhada — disse, virando-se para mim.&lt;br /&gt;Com poucas palavras enxotou a criança, o que a exaltou ainda mais.&lt;br /&gt;Eu não compreendia o que diziam, porque ambos usavam palavras pouco usuais e limitavam-se a lançá-las simplesmente à cara um do outro. Contudo, percebi uma frase que a menina disse, porque, essa frase, disse-a devagar, palavra a palavra, cheia de desprezo e de raiva.&lt;br /&gt;— Vocês são avarentos, como todos os ricos. Avarentos e maus!&lt;br /&gt;Magdy tirou mais uma fotografia e nessa ficou até a menina, pois tinha recuado para junto das palmeiras.&lt;br /&gt;Mal se ouviu o disparo da máquina, ela recomeçou de novo, com a voz a tremer de raiva:&lt;br /&gt;— São as nossas palmeiras! E eu, eu… Oh, vocês, ricos!...&lt;br /&gt;Pareceu-me que, no gaguejar selvático, também transparecia medo. Acreditaria ainda aquela criança na antiga crença pagã de que, com a imagem, também se obtinha o domínio do objecto? Perguntei-lhe:&lt;br /&gt;— Tens medo por teres ficado na fotografia?&lt;br /&gt;A menina olhou-me admirada e respondeu-me subitamente calma:&lt;br /&gt;— Não, não tenho medo nenhum.&lt;br /&gt;E, sem mais uma palavra, regressou à cabana.&lt;br /&gt;Segui-a, preocupada, e quis entrar, mas a menina tinha trancado a porta por dentro. Não abriu quando bati.&lt;br /&gt;Magdy também se aproximou. Franziu o sobrolho quando se ouviu, saído da cabana, um fraco gemido de recém-nascido.&lt;br /&gt;— Uma criança doente! — disse ele, e pediu à menina que abrisse.&lt;br /&gt;Mas a porta permaneceu fechada. E mesmo a um segundo pedido nosso.&lt;br /&gt;— E a mãe que não está junto do filho doente… — disse eu.&lt;br /&gt;— Ela está no campo. Tem de trabalhar.&lt;br /&gt;Em seguida, através da porta, Magdy disse à menina que era médico e que podia ajudar.&lt;br /&gt;Ela não respondeu.&lt;br /&gt;Ficámos parados, indecisos. Após alguns momentos, ouvimos a menina dizer para a criança:&lt;br /&gt;— Vais morrer e a mãe vai bater-me porque não sei pedir esmola. Os estrangeiros têm muito dinheiro mas não nos dão nada. E as palmeiras até são nossas!&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;br /&gt;Ilse van Heyst&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Texto traduzido&lt;br /&gt;Lene Mayer-Skumanz (org.)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Hoffentlich bald&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Wien, Herder Verlag, 1986&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-8045184046343495226?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/8045184046343495226/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=8045184046343495226' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/8045184046343495226'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/8045184046343495226'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/as-palmeiras-so-nossas-ilse-van-heyst.html' title='As palmeiras são nossas! - Ilse van Heyst'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-6427977307202551717</id><published>2007-06-27T12:25:00.000-07:00</published><updated>2007-07-23T15:08:47.295-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='neoliberalismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='multinacionais'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desespero'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='exploração'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lucro'/><title type='text'>No país de Iqbal - Jacques Vénuleth</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Jacques Vénuleth &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Au pays d’Iqbal&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Paris, Ed. Magnard, 2001 &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;tradução&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para todas aquelas crianças&lt;br /&gt;que trabalham sem ter idade,&lt;br /&gt;em qualquer parte do mundo.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1 &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Feliz aniversário, querido!&lt;br /&gt;Kevin sopra as velas. Apaga-as de uma só vez. À volta dele, pais e amigos gritam e aplaudem.&lt;br /&gt;Kevin pode agora abrir os presentes. Gosta particularmente deste momento, em que pode rasgar o papel dos embrulhos.&lt;br /&gt;Estragam-no com mimos. Como sempre acontece todos os anos.&lt;br /&gt;Começa pelos sobrescritos que contêm dinheiro, mas o que mais gosta de abrir são, é claro, os presentes de verdade.&lt;br /&gt;Dos três embrulhos, Kevin já percebeu qual é o melhor, aquele por que está à espera. Guarda-o para o fim.&lt;br /&gt;— Uau, é tão bonita! — exclama.&lt;br /&gt;Exactamente o que ele queria: uma bola de couro, cosida. Uma bola de jogador profissional, azul e branca, ainda mais lisa e brilhante do que nos sonhos.&lt;br /&gt;Tira-a da caixa, segurando-a com a ponta dos dedos, como se fosse de açúcar.&lt;br /&gt;Kevin queria uma bola, porque Laurent, o seu vizinho, tem uma e nunca quer emprestá-la por muito tempo. No entanto, é muito menos bonita.&lt;br /&gt;Quando jogam na praceta em frente às vivendas, sempre que Laurent começa a perder encontra um pretexto para se zangar. Pega na bola e vai-se embora. E, claro, o jogo acaba. É irritante.&lt;br /&gt;De futuro, nunca mais ninguém poderá interromper a partida enquanto Kevin quiser continuar a jogar; nunca mais ninguém poderá suspendê-la contra a sua vontade.&lt;br /&gt;Nunca se sentira tão feliz.&lt;br /&gt;— Dá cá! — pede o pai, estendendo as mãos.&lt;br /&gt;É a sua vez de agarrar na bola. Acaricia-a, fá-la saltar, que vontade de lhe dar uns bons chutos!&lt;br /&gt;— Dá-ma — atalha rapidamente Kevin, que sabe o pai que tem. Quando este segura uma bola nas mãos, torna-se uma autêntica criança. É capaz de a estragar sem querer.&lt;br /&gt;— Se querem jogar, vão para o jardim!&lt;br /&gt;A mãe conhece-os bem, e já começa a recear pelos móveis e adornos.&lt;br /&gt;Kevin não espera que lhe digam duas vezes e desata a fugir com o seu presente.&lt;br /&gt;Nem sequer espera até chegar ao relvado. Ainda vai a meio do terraço e já quer experimentar a bola. Lança-a ao chão e estende as mãos para a apanhar…&lt;br /&gt;Mas não apanha nada! As mãos estendidas ficam vazias. A bola não saltou.&lt;br /&gt;Estatelou-se como uma goma sobre a tijoleira. Não voltou a mexer-se, ficou como que colada e mole. Dir-se-ia um &lt;em&gt;marshmallow&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Espantado, Kevin baixa-se para pegar no seu tesouro. Espantado, mas não inquieto.&lt;br /&gt;Esta bola não pode ser de má qualidade. Foi ele, Kevin, que a atirou mal… Ou então é a tijoleira do terraço que está pegajosa, provavelmente cheia de compota. Seja como for, tratou-se de um acidente que não voltará a acontecer.&lt;br /&gt;Kevin limpa a bola e dá-lhe lustro. Observa-lhe discretamente todas as costuras mas, nada, está tudo perfeito.&lt;br /&gt;A bola precisa é de erva. No relvado vai renascer.&lt;br /&gt;Kevin afasta-se da casa e espera o momento de chegar a meio do relvado para atirar ao ar o seu brinquedo.&lt;br /&gt;Lança a bola para o céu, o mais alto que lhe é possível. Orgulhosamente, vê-a descer, lisa, brilhante, azul e branca, bela.&lt;br /&gt;Vê-a descer… e abater-se sobre aquele tapete de relva tão suave, sem o menor desejo de saltar e de se divertir.&lt;br /&gt;Não há dúvida, esta bola tem algum defeito, há algo que não bate certo.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;2&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;— Então! Não chores! É porque a bola não está suficientemente cheia. Acontece muitas vezes quando são novas.&lt;br /&gt;Kevin tinha ido contar ao pai a sua desdita. Apesar dos esforços para se conter, os olhos estão cheios de lágrimas.&lt;br /&gt;O pai enterra os fortes polegares no couro, que cede facilmente.&lt;br /&gt;— O que é que eu dizia! Anda, vamos arranjar isto!&lt;br /&gt;Kevin assoa-se e vai com o pai até à garagem. Está cabisbaixo, ainda não sorri, mas já recuperou a esperança.&lt;br /&gt;O pai de Kevin é habilidoso. Na garagem, penduradas na parede ou guardadas numa gaveta, há ferramentas que permitem consertar tudo o que não funciona bem à face da terra.&lt;br /&gt;— Não mexas! Sei que há uma bomba de ar em qualquer lado… Cá está, nesta caixa…&lt;br /&gt;Introduz um tubo fino como uma agulha na bomba de ar e, com firmeza, segura a bola recalcitrante entre os joelhos. E depressa lhe devolve a boa cara que ela nunca deveria ter perdido.&lt;br /&gt;— Anda, apanha-a, se fores capaz!&lt;br /&gt;A porta da garagem abre para o jardim. O pai lança a bola com tanta força que esta devia saltar até à parede do fundo. Kevin corre atrás dela, a rir-se…&lt;br /&gt;Mas não por muito tempo!&lt;br /&gt;Cheia ou não, a bonita bola deixa-se ficar na relva, após dois ou três saltos ofegantes. Não chegará nunca à parede do fundo.&lt;br /&gt;Mais uma vez a esperança morreu nos olhos de Kevin.&lt;br /&gt;— Tens razão — constata o pai — algum defeito há-de ter, na verdade. Talvez um problema no couro, não compreendo… Guardei o talão de compra. Amanhã vamos à loja para a trocarmos, não te preocupes!&lt;br /&gt;Kevin encolhe os ombros: — Amanhã, amanhã!&lt;br /&gt;Não está preocupado, mas a festa, o seu aniversário é hoje, não amanhã! Com um pontapé furioso, atira aquele trapo mole para um canto, já que de nada serve.&lt;br /&gt;Kevin decide esquecê-la. Afinal, tem outros brinquedos, brinquedos de verdade que gostam de se divertir, brinquedos de confiança.&lt;br /&gt;Chegada a noite, ainda se sente tão zangado que continua a não querer ocupar-se daquele brinquedo tão decepcionante.&lt;br /&gt;— Pode dormir lá fora, é o que merece.&lt;br /&gt;Mas o pai não está de acordo.&lt;br /&gt;— Não, não, Kevin. Vai buscá-la e guarda-a. Se a perderes&lt;br /&gt;ou estragares, já não podes trocá-la.&lt;br /&gt;É verdade. Kevin reconhece-o. O pai tem razão.&lt;br /&gt;Vai buscar a bola. Empurra-a com o pé até ao terraço, como se fosse uma velha lata de conserva, depois pega nela sem qualquer cuidado. À entrada do quarto está o cesto da roupa suja. Atira-a lá para dentro.&lt;br /&gt;— Dorme bem! — ironiza.&lt;br /&gt;De agora em diante só quer esquecê-la, mas sente-se tão irritado que não é capaz de o fazer. Antes de se deitar, não consegue deixar de se virar uma vez mais para o cesto, onde a deixou:&lt;br /&gt;— Não se admite o que fizeste, não se admite. No teu lugar, escondia-me. Não tens o direito de ser tão bonita, de brilhar, para depois não servires para nada quando contamos contigo. Não tens o direito de te esvaziares dessa maneira… Uma idiota, é o que tu és! Detesto-te!... Ainda bem que não te mostrei aos meus colegas. Que vergonha!... Mas não faz mal, não perdes pela demora. Amanhã vais voltar para de onde vieste, e nunca mais quero ouvir falar de ti!&lt;br /&gt;Mais calmo depois destas duras palavras, Kevin deita-se e apaga a luz. Está tão cansado que adormeceria bem depressa se, por detrás dele, um estranho barulho se não fizesse ouvir.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;3&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;br /&gt;Um estranho barulho, na verdade, como o de alguém a fungar, como o soluço abafado de uma criança. No meio da escuridão, Kevin ergue-se e aguça o ouvido.&lt;br /&gt;— És mau! — escuta distintamente.&lt;br /&gt;Desorientado, volta a acender a luz da mesa-de-cabeceira:&lt;br /&gt;— Quem foi que falou, quem? — pergunta Kevin, cada vez mais inquieto.&lt;br /&gt;— Aqui! — decide-se a dizer a voz misteriosa. — Aqui! Na tua bola!&lt;br /&gt;De facto, a voz parece sair do cesto da roupa suja.&lt;br /&gt;Kevin senta-se na beira da cama, virado para o cesto, sem se atrever a aproximar-se. É impossível, não consegue acreditar.&lt;br /&gt;— Uma bola não fala! Uma bola não tem boca!&lt;br /&gt;— Uma bola também não tem ouvidos e, no entanto, dirigiste-me a palavra, deste-me uma lição de moral durante um quarto de hora! Verdade ou mentira? Julgo até que me chamaste “idiota”…&lt;br /&gt;— Escapou-me…&lt;br /&gt;— Bem vês que não é assim tão simples.&lt;br /&gt;Com os olhos encarquilhados e a boca aberta, quase sem respirar, Kevin fixa o recipiente.&lt;br /&gt;— Vá, não fiques assim. Vou explicar-te. Mas, por favor, tira-me deste cesto de roupa suja.&lt;br /&gt;Kevin obedece como um autómato. Aproxima-se e levanta a tampa. É de facto a bola que está lá dentro, a própria bola. Pega nela cautelosamente, com as pontas dos dedos mas, desta vez, é por ter medo dela. Com os braços esticados, leva-a até à cama e pousa-a em cima do colchão.&lt;br /&gt;— Pára lá com essas fitas! Anda ajudar-me! — impacienta-se a voz.&lt;br /&gt;Kevin dá um enorme grito, porque a voz já não vem de dentro da bola.&lt;br /&gt;Um rapazinho da sua idade esforça-se por sair pelo minúsculo orifício da válvula. Já libertou a cabeça e os ombros.&lt;br /&gt;Com as duas mãos apoiadas no couro, tenta soltar o resto do corpo, e é a voz dele que se ouve.&lt;br /&gt;Kevin esconde o rosto. Já nem se atreve a olhar.&lt;br /&gt;— Não! É demais! Vim parar à casa do rei dos medricas, ou quê? Anda ajudar-me, já te disse! Acho que fiquei preso.&lt;br /&gt;Kevin ainda tem medo, mas sente-se envergonhado. Não pode continuar a tremer. Faz um esforço para se aproximar.&lt;br /&gt;É verdade que o rapaz não é nenhum monstro. Com os cabelos muito negros e muito lisos colados à testa, é parecido com qualquer outra criança.&lt;br /&gt;Kevin agarra a bola, segura nela com firmeza para a impedir de deslizar para os lados, enquanto o seu estranho visitante faz cada vez mais força com os braços.&lt;br /&gt;— Assim, isso! Aguenta!&lt;br /&gt;Faz tanta força que se liberta num rompante, de uma forma tão brusca como a rolha de uma garrafa de champanhe. Depois de um enorme trambolhão, dá consigo sentado, de costas contra a parede, a um canto do quarto.&lt;br /&gt;Ri-se. Os dentes reluzem-lhe no rosto tisnado.&lt;br /&gt;Kevin ri também. O medo desaparecera. O coração continua a bater-lhe acelerado, mas por causa do esforço e da emoção.&lt;br /&gt;— É um caso sério sair de lá de dentro. Ainda bem que me ajudaste, se não, ainda lá estava.&lt;br /&gt;Kevin encolheu os ombros. Concorda, sente-se até orgulhoso, mas nem sabe o que dizer. Não se pode falar tranquilamente, como se nada fosse, com alguém saído não se sabe de onde. Antes de mais, Kevin precisa de algumas explicações.&lt;br /&gt;O rapaz compreende.&lt;br /&gt;— Queres saber como cheguei até aqui? É normal! Vou explicar-te, conforme prometi.&lt;br /&gt;Levanta-se e alisa a roupa amarrotada: uma longa túnica, uma espécie de camisa de noite. Satisfeito, senta-se confortavelmente com as pernas cruzadas, em cima da alcatifa. Kevin instala-se a seu lado, com as costas apoiadas na beira da cama.&lt;br /&gt;Para começar, o rapaz apresenta-se:&lt;br /&gt;— Chamo-me Iqbal… Tu, chamas-te Kevin. Ouvi o teu pai chamar-te assim.&lt;br /&gt;— Ouvias tudo dentro da bola?&lt;br /&gt;— Claro!&lt;br /&gt;— E… (Kevin lembra-se dos seus pontapés furiosos) também sentias tudo? Devo ter-te magoado! Desculpa.&lt;br /&gt;— Não te preocupes, já vi outras coisas bem piores no local onde trabalho! Aliás, foi por isso que fugi.&lt;br /&gt;— Trabalhar… Fugir… Continuo sem perceber! Antes de mais, diz-me de onde vens.&lt;br /&gt;— Venho de muito longe. Venho do país onde se fazem as bolas.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;4&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;br /&gt;Kevin, que se instalara sensatamente junto do seu convidado, levanta-se de um salto, furioso:&lt;br /&gt;— Estás a exagerar! Do país onde se fazem as bolas? Tretas! Julgas, se calhar, que na minha idade ainda acredito em contos como o da Branca de Neve e os sete anões? Que ainda acredito naqueles países extraordinários onde se diz que seres minúsculos fabricam os nossos objectos quotidianos? Obrigado, mas já passei a idade dessas tolices! Ando na escola e sei que os objectos são feitos em fábricas por máquinas e até por &lt;em&gt;robots&lt;/em&gt;… Não tentes baralhar-me!&lt;br /&gt;— Mas eu não estou a tentar baralhar-te. Juro que estou a dizer a verdade: as bolas como esta são quase todas fabricadas no meu país, um país de verdade. Os bocados são unidos com um fio e uma agulha enorme por crianças da minha idade. No que me diz respeito, não os contei, mas devo ter cosido seguramente uns milhares.&lt;br /&gt;— Ah, bem… Desculpa, é que não gosto que me tomem por um imbecil.&lt;br /&gt;Kevin acalma-se. Senta-se e repete:&lt;br /&gt;— Desculpa! Explica-me agora porque razão fugiste e, principalmente, como.&lt;br /&gt;— Porquê, é fácil de explicar. Mas como foi, já te previno, não é nada fácil. Nem eu consegui ainda perceber!&lt;br /&gt;— Se não percebeste, então quero ouvir o que tens a dizer-me. Conta.&lt;br /&gt;— Foi certamente por influência da minha avó. Ela é extraordinária! É velha, velha, e conhece coisas que tu nem imaginas… Olha, estamos aqui os dois a conversar, como se falássemos a mesma língua!... tenho a certeza de que se deve a ela.&lt;br /&gt;— Estranho, de facto… Mas fala-me da tua avó!&lt;br /&gt;— Ela ficou cega mas, com as mãos, continua a fazer milagres. Cura as queimaduras, afasta o mal. As pessoas vêm vê-la de muito longe, pagam para falar com ela… Gosto de me sentar à beira da minha avó, embora ela às vezes me assuste. Costumava dizer:&lt;br /&gt;— Sinto o infortúnio pairar sobre ti! Tem cuidado.&lt;br /&gt;Um dia, acrescentou:&lt;br /&gt;— Ouve, se alguém quiser fazer-te mal, pronuncia esta palavra, só esta palavra, e serás salvo.&lt;br /&gt;Advertiu-me com um ar tão trágico que a palavra ficou logo gravada na minha memória.&lt;br /&gt;— Serviste-te dela porque queriam matar-te? Foi isso, não foi? — diz Kevin de imediato, impressionado com a história.&lt;br /&gt;— De certo modo… O dono da oficina onde cosemos as bolas batia-me cada vez mais.&lt;br /&gt;— Porque é que te batia?&lt;br /&gt;— Apercebi-me de que ele era um ladrão… Tinha emprestado dinheiro ao meu pai, e o meu trabalho seria para o ajudar a reembolsá-lo. Trabalhava até rebentar e o meu pai também, mas a dívida não diminuía. Havia um ardil por detrás, ele era um ladrão.&lt;br /&gt;— O patife!&lt;br /&gt;— Dizes bem. Da primeira vez que quis protestar, começou a dar-me murros… Uma noite, vinguei-me, inundei-lhe o stock, os caixotes prontos para partir para todos os países do mundo.&lt;br /&gt;— Bem feito!&lt;br /&gt;— Talvez, mas ele ficou louco. Agarrou num pau enorme e atirou-se a mim. Senti muito medo e escondi a cabeça entre os braços. Pensei logo na minha avó, porque ela sempre me defendeu. Sem mesmo reflectir, a palavra que me tinha ensinado veio-me aos lábios. Gritei-a…&lt;br /&gt;— E então?&lt;br /&gt;— E então, vi-me em tua casa, dentro desta bola, e não era nada agradável: davas-me grandes pontapés na cabeça, porque eu não saltava — concluiu Iqbal a rir.&lt;br /&gt;— Pára com isso! Tiveste muita sorte, ele podia ter-te matado!... Que palavra extraordinária é essa?&lt;br /&gt;— Não é extraordinária, até nem quer dizer nada, a minha avó inventou-a com toda a certeza: &lt;em&gt;Shabatsé&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Iqbal já tinha pronunciado a palavra quando se apercebeu que não o devia ter feito. E Kevin repete:&lt;br /&gt;— &lt;em&gt;Shabatsé&lt;/em&gt;, é bonito, talvez que…&lt;br /&gt;Não chega a terminar a frase. Torna-se de repente muito leve, começa a flutuar, a baloiçar. E grita:&lt;br /&gt;— Iqbal!&lt;br /&gt;Demasiado tarde. E imediatamente a seguir ao seu amigo, Kevin é aspirado para o interior da bola.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;5&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;— Onde estamos? O que se passou?&lt;br /&gt;Kevin sente medo, tem vontade de chorar.&lt;br /&gt;— Regressámos à minha oficina — responde Iqbal. — Que horror!&lt;br /&gt;Estão sentados no chão de cimento de uma divisão sombria, húmida e suja. À volta deles amontoam-se peles. É o couro que serve para fabricar as bolas. Cheira mal.&lt;br /&gt;— &lt;em&gt;Shabatsé&lt;/em&gt;! &lt;em&gt;Shabatsé&lt;/em&gt;! &lt;em&gt;Shabatsé&lt;/em&gt;! — grita Kevin, desesperado.&lt;br /&gt;— Não te canses! — advertiu Iqbal. — Já tentei, mas parece que a palavra perdeu todo o seu poder.&lt;br /&gt;Kevin lança-se contra a porta… Está fechada à chave pelo lado de fora.&lt;br /&gt;— O que é que nos vai acontecer? Não pedi para vir até cá! — gritou Kevin.&lt;br /&gt;— Ninguém pediu para vir!&lt;br /&gt;Não foi Iqbal quem respondeu. A pessoa que respondeu foi um rapaz ainda mais novo. Está de pé, ao lado de Kevin. Tem olhos grandes, muito tristes, mas sorri.&lt;br /&gt;Não é o único a ter-se levantado e aproximado. Três, cinco, oito crianças mais rodeiam Iqbal, o recém-chegado, e o seu misterioso companheiro.&lt;br /&gt;— De onde saíram? — inquieta-se Kevin.&lt;br /&gt;— Trabalham comigo.&lt;br /&gt;— E vivem aqui? Dormem aqui? Como é que fazem? Há ratos, não?&lt;br /&gt;— Habituamo-nos. Os ratos não fazem mal.&lt;br /&gt;— É nojento. O vosso patrão merece ser preso.&lt;br /&gt;Ninguém se dá ao trabalho de concordar.&lt;br /&gt;— E agora, o que vamos fazer?&lt;br /&gt;Kevin mudou de tom. Começou a perceber. Já não se inquieta apenas por si próprio, mas por todas as crianças que o acaso apanhou numa armadilha, naquele buraco pestilento.&lt;br /&gt;Iqbal queria responder, mas não teve tempo: a chave gira na fechadura enferrujada da única porta. Em pânico, as crianças desaparecem. Voltam a deitar-se e fingem que estão a dormir. O próprio Iqbal foge também, mas regressa; não tem o direito de abandonar Kevin.&lt;br /&gt;O homem que entra é enorme, um brutamontes. Os olhos são tão frios como balas de espingarda:&lt;br /&gt;— Ah! Estás aqui! Sempre voltaste! Onde te meteste? Não perdes nada pela demora!&lt;br /&gt;Está prestes a lançar-se sobre Iqbal, quando de repente se imobiliza:&lt;br /&gt;— E este, quem é?&lt;br /&gt;Descobrira Kevin e compreendera que pertencia a um outro mundo.&lt;br /&gt;— É meu amigo — murmura Iqbal.&lt;br /&gt;— Teu amigo… Teu amigo…&lt;br /&gt;O homem hesita. Hesita, tanto mais que Kevin já não é o mesmo. Não só tinha deixado de tremer como é ele agora quem ataca:&lt;br /&gt;— Devia ter vergonha! O meu professor falou-nos de pessoas como você, mas eu não acreditava! Vou contar-lhe tudo e havemos de escrever ao ministro, ao presidente da República, ao vosso chefe de Estado! Vai pagar caro!&lt;br /&gt;O homem de olhos cruéis hesitou apenas um instante. Desata a rir.&lt;br /&gt;— Estrangeiro imbecil! Não vais contar a tua história a ninguém. Não voltarás a sair daqui. Vou reduzir-te a picado e hás-de ser comido pelos ratos.&lt;br /&gt;Com uma só mão, agarra Kevin pelos colarinhos, levanta-o como se fosse uma palha e encosta-o à parede. Levanta a outra mão, fecha o punho, ganha o impulso necessário... Vai cumprir a ameaça, mas pára no último instante.&lt;br /&gt;Volta-se, sem largar Kevin: o seu instinto de animal selvagem advertiu-o de que havia perigo nas suas costas.&lt;br /&gt;Está cercado por um bando de crianças amotinadas, encurralado contra a parede.&lt;br /&gt;Como seria de esperar, Iqbal e os companheiros encontram-se na primeira linha, mas os restantes vieram em socorro deles. São já trinta, quarenta, em filas cerradas, e cada vez chega mais gente. Empunham o seu instrumento de trabalho, uma temível agulha, tão afiada como um punhal. Mas mais inquietante ainda é o brilho dos seus olhos.&lt;br /&gt;O homem nunca levará a melhor. Sabe-o bem, apesar da sua tacanhez. Pode varrer a primeira fila e, depois, a segunda. Como soldados prontos para o sacrifício, outros tomarão a vez. Mais cedo ou mais tarde será derrotado.&lt;br /&gt;Para poder ver-se livre deles, prefere render-se.&lt;br /&gt;Esquece Kevin, e levanta os braços.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;6&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;br /&gt;As crianças não dão nenhuma hipótese ao seu carrasco.&lt;br /&gt;Com a resistente corda que serve para coser as bolas, prendem-no de imediato e abandonam-no. Agora é cada um por si: todos se dispersam e fogem.&lt;br /&gt;— Vamos ter com a minha avó. Só ela pode ajudar-te a regressar a casa — garante Iqbal a Kevin.&lt;br /&gt;Para deixarem aquela cidade gigantesca, têm de caminhar durante horas antes de chegarem aos primeiros campos, sulcados por uma rede de irrigação.&lt;br /&gt;Algumas frágeis barracas de madeira aninham-se no cruzamento de dois caminhos perdidos.&lt;br /&gt;— É ali — declara Iqbal.&lt;br /&gt;Indica-lhe uma das casas.&lt;br /&gt;Entram na divisão única, sem ninguém, já que naquela altura a família está a trabalhar no campo.&lt;br /&gt;A avó de Iqbal está sentada bem longe da entrada, no meio de um amontoado de tapetes.&lt;br /&gt;— Estava à vossa espera! — afirma. — Aproximem-se, para eu vos ver melhor.&lt;br /&gt;Para poder ver melhor, tal como diz, acaricia o rosto das crianças com as suas velhas mãos cheias de suavidade.&lt;br /&gt;— Meu Deus, estão exaustos! Dá-lhe de beber! Recebe o teu amigo como deve ser.&lt;br /&gt;Sobre uma braseira acesa algures, a água ferve. Iqbal prepara o chá. Serve-o a Kevin com toda a cerimónia.&lt;br /&gt;— Sabes, avó, o homem quis matar Kevin. É preciso castigá-lo. Vais…&lt;br /&gt;— Chiu!&lt;br /&gt;A avó põe um dedo nos lábios. Pede a Iqbal que se cale, antes de continuar:&lt;br /&gt;— Kevin, meu filho… Chamas-te Kevin, não é verdade? Não estou enganada? Descansa primeiro, restabelece-te de tantas emoções. Em seguida, quando estiveres preparado, pronuncia esta palavra: &lt;em&gt;Namasté&lt;/em&gt; e voltarás para o teu quarto.&lt;br /&gt;Kevin não se apressa. Acaba o chá, bate na mão de Iqbal, prometendo que tentará vê-lo de novo, embora não saiba como, pronuncia a fórmula e desaparece. &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;7&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;— Kevin! Kevin!&lt;br /&gt;Kevin senta-se na cama, acordado em sobressalto pelo pai. Dormira toda a manhã.&lt;br /&gt;— Levanta-te. A bola espera-te lá fora. Já não tem nada, salta como um cabrito.&lt;br /&gt;— Que bola?...&lt;br /&gt;Com os cabelos despenteados e os olhos pesados de sono, Kevin tem o ar de quem veio de outro planeta.&lt;br /&gt;— Sabes? A tua bola supostamente estragada… Tive tempo de ir à loja. Está impecável. Devemos ter sonhado… Mas o vendedor tranquilizou-me. Tem havido ultimamente muitos problemas, muitas coisas estranhas a acontecer com estes produtos fabricados não se sabe onde… Até me falou de um &lt;em&gt;punching-ball &lt;/em&gt;que acabou de receber. Sabes, aqueles grandes sacos de couro com que os &lt;em&gt;boxeurs&lt;/em&gt; se treinam. Sempre que alguém lhes dá um soco, tem-se a impressão de que o saco chora e geme! Como se alguém estivesse fechado lá dentro! É estranho, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-6427977307202551717?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/6427977307202551717/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=6427977307202551717' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/6427977307202551717'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/6427977307202551717'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/no-pas-de-iqbal-jacques-vnuleth.html' title='No país de Iqbal - Jacques Vénuleth'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-4256700438540841949</id><published>2007-06-27T12:01:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:30:48.138-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='globalização'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lucro'/><title type='text'>A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho  - Jean Ziegler</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Jean Ziegler&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Petrópolis, Editora Vozes, 2002&lt;br /&gt;Excertos adaptados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:115%;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;em&gt;— Quantas pessoas no mundo estão actualmente ameaçadas de morrer de fome?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;— A FAO (&lt;em&gt;Food and Agricultural Organization&lt;/em&gt;), Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas, avalia, no seu último relatório, em mais de 30 milhões o número de pessoas que morreram de fome em 1999 e, para o mesmo período, em mais de 828 milhões de seres torturados pela desnutrição grave e permanente. São homens, mulheres e crianças que, devido à falta de alimentos, padecem de lesões frequentemente irreversíveis. Ou então morrem num prazo mais ou menos breve, ou vegetam num estado de deficiência grave – cegueira, raquitismo, desenvolvimento precário da capacidade cerebral, etc.&lt;br /&gt;Tomemos o exemplo da cegueira: cada ano, sete milhões de pessoas, normalmente crianças, perdem a vista, na maioria das vezes por falta de uma alimentação suficiente ou como consequência de enfermidades vinculadas ao subdesenvolvimento. Cento e quarenta e seis milhões de cegos vivem nos países da África, da Ásia e da América Latina. Em 1999, Gore Brundtland, directora da Organização Mundial da Saúde, ao apresentar o seu plano “Visão 2020” em Genebra, disse: &lt;em&gt;Oitenta por cento dos afectados na vista seriam perfeitamente evitáveis.&lt;/em&gt; Sobretudo por meio de uma dose regular de vitamina A para as crianças pequenas. Em 1990, havia 822 milhões de pessoas severamente afectadas pelo flagelo da fome. Podemos ler de duas maneiras estas estatísticas. Primeira leitura: as vítimas da subalimentação aumentam sem cessar no mundo, especialmente nos países do Sul; mas se comparamos os mártires do flagelo da fome com a progressão demográfica da população mundial, constatamos um ligeiro retrocesso. Em 1990, 20% da humanidade sofria de subalimentação extrema; oito anos depois, “só” 19%.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;— Onde vivem as pessoas mais gravemente subalimentadas?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;— No sul e leste da Ásia, 18% dos homens, mulheres e crianças padecem de uma severa desnutrição. Na África, o seu número alcança 35% da população continental. Na América Latina e no Caribe, 14%. As três quartas partes dos “gravemente subalimentados” do planeta são gente do campo; a outra quarta parte são habitantes das periferias que se amontoam em torno das megalópoles do Terceiro Mundo.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;— A nossa Terra poderia alimentar convenientemente e cada dia todos os seus habitantes?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;— Não só isso, mas poderia alimentar pelo menos o dobro da população mundial actual. Hoje em dia somos quase seis biliões de seres humanos na Terra. A FAO, há mais de quinze anos, elaborou um relatório no qual assinalava que o mundo, no estado actual das forcas de produção agrícola, poderia alimentar sem problema mais de doze biliões de seres humanos. Alimentar quer dizer fornecer a cada homem, mulher e criança uma ração equivalente a 2400 ou 2700 calorias diárias, uma vez que as necessidades alimentares variam segundo os indivíduos, em função do trabalho que realizam e das zonas climáticas onde vivem.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;— O flagelo da fome não é então uma fatalidade?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;— De modo algum. Se a distribuição de alimentos na Terra fosse justa, haveria comida suficiente para todo o mundo.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;— Por que razão nunca ninguém nos fala na escola da fome no mundo e das pessoas que a provocam e daquelas que a combatem?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;— Para mim, isso também é um mistério. Muitos professores de institutos e de escolas são pessoas abertas, generosas e estão profundamente solidarizadas com a luta dos povos do Terceiro Mundo. Muitos deles alertam os seus alunos quando se declara uma fome grave e promovem-se colectas públicas. No entanto, não sei de nenhuma escola onde o tema da fome, que mata todos os dias mais gente do que todas as guerras do planeta juntas, figure no seu programa. Não existe nenhum tipo de ensino onde se analise, se discuta o problema da fome, se examinem as suas raízes e os meios de lhe dar um fim.&lt;br /&gt;Mas os técnicos internacionais dizem as coisas bem claras. Ouve, por exemplo, esta frase que é a conclusão de um relatório da FAO de 1998: &lt;em&gt;Recent trends give no room for complacency as progress in some regions has been more than offset by a deterioration in others.&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;Os últimos dados não permitem contemplações, uma vez que o progresso numas regiões tem sido anulado pela deterioração noutras.&lt;/em&gt;) Isto quer dizer que as batalhas ganhas numa frente são imediatamente anuladas pelas derrotas sofridas noutra.&lt;br /&gt;Os bons sentimentos não bastam, são um luxo para os filhos dos ricos. A calamidade da fome manifesta-se de mil maneiras. O seu aparecimento e os seus efeitos exigem análises precisas e pormenorizadas. Mas a escola não diz nada, não cumpre a sua função. Os adolescentes frequentemente saem dela cheios de bons sentimentos e de uma vaga convicção de solidariedade, mas nunca com um verdadeiro conhecimento, uma clara consciência das origens e dos estragos da fome.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;— Como se a fome fosse um tabu?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;— Exactamente. Um tabu que dura há muito tempo. Já em 1952 o brasileiro Josué de Castro dedicava todo um capítulo do seu célebre livro &lt;em&gt;Geopolítica da fome&lt;/em&gt; a esse “tabu da fome”. A sua explicação é interessante: as pessoas sentem-se tão envergonhadas por saber que uma grande parte dos seus semelhantes morrem por falta de alimento, que ocultam o escândalo com um espesso silêncio. Esta vergonha é compartilhada pela escola, pelos governos e pela maioria de nós.&lt;br /&gt;O nível de alimentação está em relação directa com o nível de bem-estar e com o nível de saúde das pessoas. Por um lado, onde não se come o suficiente, encontramos pobreza, miséria, desnutrição, doença, fome e morte. Por outro, no extremo oposto, onde há meios de subsistência e alimentos, encontramos esperança desde o nascimento, saúde e vida.&lt;br /&gt;Já no ventre da mãe, o bebé sofre as consequências desta desigualdade, inclusivamente na constituição de seu intelecto. A desnutrição da mãe durante a gestação – quando o bebé deve desenvolver o conjunto de células que o constituirão como um ser dotado de todas as suas faculdades – diminui as possibilidades de que a criança nasça, pois a placenta – alimento, água, oxigénio e anticorpos do bebé instalado no útero – não escapa aos danos causados pelas carências de alimentação. A mãe deve nutrir-se convenientemente desde a formação do embrião.&lt;br /&gt;A constituição física e intelectual da criança, a sua capacidade de desenvolvimento e a sua força para o trabalho também dependem da alimentação que vai receber desde o momento do seu nascimento. A criança chega ao mundo num ambiente condicionado: ou com muitos privilégios ou com muitas privações. Nos primeiros anos da história da humanidade, o mundo era aquele no qual o macho mais forte se apropriava da comida da qual necessitavam a mulher e a criança. Hoje, a história não mudou em absoluto, porque os poderosos continuam apropriando-se da comida.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;— Por quê esses esqueletos da fome? Por quê esse martírio quotidiano, interminável, para tantas centenas de milhões de seres humanos?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;— A causa principal das hecatombes por subalimentação e por fome aguda é a desigual distribuição das riquezas do nosso planeta. Esta desigualdade é negativamente dinâmica: os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Em 1960, 20% dos habitantes mais ricos do mundo desfrutavam de uma renda 3 1 vezes superior à dos 20% mais pobres. Em 1998, o rendimento dos 20% mais ricos é 83 vezes superior à dos 20% mais pobres.&lt;br /&gt;A concentração do rendimento e das riquezas nas mãos de uns poucos progride a grande velocidade.&lt;br /&gt;O conceito de desigualdade soa-nos irreal e o seu significado é insuficiente. O termo aparece num mundo que já não se assusta com as estatísticas. As cifras acima citadas escondem uma realidade de sofrimento e de desespero. A desigualdade negativamente dinâmica que rege a ordem actual do mundo produz a seguinte situação: por um lado, um poder político, económico, ideológico, científico e militar sem limites identificáveis, exercido por uma escassa oligarquia transnacional; por outro, a falta de vida, o desespero e o flagelo da fome vividos por centenas de milhões de seres anónimos. A oligarquia decide o destino da multidão. A massa de vítimas anónimas padece, impotente, a sua própria agonia. Só a brutal imbecilidade de um regime de classes sociais existentes antes do seu nascimento, de ideologias discriminatórias, de privilégios defendidos pela violência explica a desigualdade entre os seres humanos.&lt;br /&gt;A política deve velar para que todos possam saciar a fome. Seria horrível tomarmos como natural o facto de todos os anos morrerem dezenas de milhões de pessoas por causa da subalimentação crónica e da fome aguda. A fatalidade não preside à ordem mortal do mundo. Basta lembrar que no actual estado das forcas produtivas agrícolas, seria possível alimentar sem problemas doze mil milhões de pessoas. Alimentar significa proporcionar a cada indivíduo 2600 calorias por dia. A população actual do mundo chega a menos de seis mil milhões de pessoas. Conclusão: estamos diante de uma falta contingente e não de uma falta objectiva de alimentos. Por outras palavras, o problema da grave fome no mundo é um problema social. As centenas de milhões de pessoas que morrem todos os anos de subalimentação aguda morrem por causa da injusta distribuição de alimentos disponíveis no planeta.&lt;br /&gt;A &lt;em&gt;Acção contra a Fome&lt;/em&gt;, organização não-governamental (ONG) de um compromisso exemplar, constata que “um grande número de pobres no mundo carece do alimento necessário, na medida em que a produção alimentar se ajusta à demanda solvente” Quem tem dinheiro, come. Quem não tem, morre lentamente de fome.&lt;br /&gt;Trata-se portanto de civilizar o actual jugo do capitalismo selvagem. A economia mundial é fruto da produção, distribuição, intercâmbio e consumo de alimentos. Afirmar a autonomia da economia em relação à fome é absurdo ou, pior ainda, é um crime. Não se pode abandonar a luta contra essa catástrofe ao livre jogo do mercado.&lt;br /&gt;Todos os mecanismos da economia mundial devem submeter-se a este imperativo primordial: vencer a fome, alimentar convenientemente todos os habitantes do planeta. Para impor este imperativo é preciso criar uma estrutura jurídica internacional, apoiado em tratados e normas.&lt;br /&gt;Jean-Jacques Rousseau escreveu: “Entre o fraco e o forte, é a liberdade que oprime e a lei que liberta”. A liberdade total do mercado é sinónimo de opressão; a lei é a primeira garantia da justiça social. O mercado mundial necessita de normas e de uma restrição imposta pela vontade colectiva dos povos. A luta contra a maximização do lucro como única motivação dos protagonistas que dominam o mercado e a luta contra a aceitação passiva da miséria são imperativos urgentes.&lt;br /&gt;O ser humano é o único vertebrado que pode sentir na sua consciência o sofrimento do outro.&lt;br /&gt;Será que a constituição de uma consciência da identidade, da solidariedade radical com aquele que sofre se infere de um projecto utópico? Não. No decurso da história já ocorreram alguns saltos qualitativos análogos. Por exemplo, o nascimento do Estado. Numa época remota, os humanos fizeram uma escolha fundamental: então, a solidariedade, a identificação com o outro limitavam-se à família, ao clã, por conseguinte, àqueles cujo rosto era conhecido e cuja presença física era sensível; com o nascimento da nação e do Estado, o ser humano fez-se pela primeira vez solidário com aqueles que não conhecia e com os que provavelmente nunca encontraria. Acabava de nascer um sentimento de identidade nacional, algumas instituições de solidariedade, uma consciência suprafamiliar, uma lei comum.&lt;br /&gt;A única identidade humana válida é a que nasce do encontro real ou imaginário com os outros, do acto de solidariedade.&lt;br /&gt;Não pode haver um mundo dentro do mundo, uma inserção de bem-estar num mundo de dor. É inaceitável uma economia mundial que relega para o não-ser a sexta parte da humanidade. Se o flagelo da fome não desaparecer rapidamente do nosso planeta, não haverá humanidade possível. Portanto, é preciso reintegrar na humanidade essa “fracção sofredora”, que hoje está excluída e perece na noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-4256700438540841949?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/4256700438540841949/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=4256700438540841949' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/4256700438540841949'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/4256700438540841949'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/fome-no-mundo-explicada-meu-filho-jean.html' title='A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho  - Jean Ziegler'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-4335933415230733561</id><published>2007-06-27T11:56:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:29:51.098-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desespero'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='exploração'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sociedade'/><title type='text'>Uma lixeira no Paraíso - Martinho Lopes Moural</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Martinho Lopes Moural&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Além-mar&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Fevereiro 2006&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Depois de quase 30 anos em África, Martinho Lopes Moura, missionário comboniano, foi enviado para o Brasil. E há seis foi-lhe confiada a paróquia de Guriri, que abrange a ilha do mesmo nome e redondezas. A ilha é um paraíso turístico, mas há um bairro onde as pessoas vivem do lixo que a cidade de São Mateus lhes oferece. Mais uma vergonha para um país que, sendo um dos mais ricos do mundo, tem mais de 50 milhões de miseráveis.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A área da paróquia de Guriri compreende a ilha do mesmo nome e os bairros e povoações ao longo do rio Cricaré até Urussuquara, no limite com o município de Linhares. A ilha ronda os 100 quilómetros quadrados. Até ao século XIX estava rodeada pela lagoa de Suruaca e pelo rio Ipiranga. Com a abertura da baía de Barra Nova, ficou dividida em duas e o percurso do rio Mariricu foi interrompido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A paróquia fica portanto entre rios e é banhada pelo Atlântico. A população é na sua maioria descendente dos escravos africanos que, depois da abolição da escravatura pela princesa Isabel, aqui encontraram meios de subsistência, pescando e caçando. Outra parte da população é formada por descendentes de índios, de muitas tribos, e uma boa parte são caboclos (mestiços). Há ainda os moradores da estância balnear de Guriri, que para aqui vieram por causa do clima e das águas tépidas do mar. São na sua maioria gente de Minas Gerais ou Capixabas do Espírito Santo, descendentes dos imigrantes italianos que no século XIX desembarcaram na área. Os primeiros moradores foram, é claro, os índios. Vieram do interior e do norte, por vezes para fugir às perseguições que lhes eram movidas pelos outros índios e pelo Governo colonial. Toda esta área é rica em petróleo – os poços são às centenas –, gás natural e sal-gema. No mar e nos rios abundam o caranguejo, o camarão e os peixes das mais variadas espécies, alguns dos quais com muitas dezenas de quilos. A maior parte dos pescadores usam meios artesanais, e no período em que a pesca lhes é interdita sobrevivem com dificuldade. As piranhas, que estão a tornar-se uma praga, também contribuem para diminuir as capturas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma boa parte da população sobrevive, para além da pesca, da agricultura de subsistência e da criação de gado. O turismo é, sem dúvida, a sua maior riqueza. No Verão (brasileiro, entenda-se), a população, de dez mil pessoas, pode chegar a atingir as 70 mil. Os hotéis e restaurantes são poucos, mas muitas famílias têm aqui as suas residências de férias. No Carnaval, o número pode subir para 100 mil. Os residentes têm de sobreviver no resto do ano com os lucros obtidos na época alta (do Natal ao Carnaval), e alugam tudo o que podem para ganhar mais alguma coisa. O turismo também traz consigo a prostituição, que atinge sobretudo os adolescentes dos bairros mais carenciados. As comunidades cristãs eram 19, quando cheguei. Hoje são 22: 11 dentro da ilha e 11 fora. A paróquia tem dedicado muitas energias à formação religiosa, litúrgica e ao acolhimento das pessoas, sobretudo à obra de promoção humana Vida Plena. De uma forma geral, as comunidades são pobres e pouco numerosas, excepto as três maiores, que se encontram no centro da ilha. No Verão, as igrejas do centro ficam superlotadas. Porém, graças a Deus, a participação é boa também durante o resto do ano. A visita às famílias tem sido uma prioridade pastoral e o resultado é evidente: muitas crianças, adolescentes e jovens frequentam a catequese nas comunidades, e até um bom grupo de adultos. As seitas ainda não são um fenómeno significativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Comer lixo&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As dezenas e dezenas de quilómetros de praias desertas e de mangais, ainda praticamente virgens e onde abunda o caranguejo, são uma atracção a nível nacional e mundial. Os rios estão rodeados pela mata, que vai encolhendo devido ao abate ilegal. Guriri é ainda a sala de visitas da cidade de São Mateus. Muita gente conhece Guriri como um lugar tranquilo, onde se pode descansar, como um paraíso para idosos, devido ao clima quente mas ameno durante todo o ano, às águas sempre mornas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas também no paraíso existe o reverso da medalha. Para o ironicamente chamado Bairro da Liberdade são trazidos os resíduos de toda a cidade. E há muita gente que «vive» no meio da lixeira, ganhando o seu sustento a escolher de entre os desperdícios aqueles que ainda têm alguma utilidade ou valor. As «casas» são barracas. As condições são, como é natural, extremamente insalubres. E a miséria material traz consigo a miséria humana e moral: o alcoolismo e o consumo de drogas estão a aumentar. Através da obra social «Vida Plena» temos ajudado muita gente dos bairros mais carenciados, nomeadamente apoiando a construção de casas decentes, distribuindo mensalmente um «pacote» de alimentos básicos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A miséria e a falta de higiene são um «viveiro» de doenças de todo o tipo: infecções intestinais, tuberculose, parasitas, lepra, tifo, cólera e dengue. A chuva e a humidade castigam particularmente aqueles que moram em terrenos alagadiços. Depois, a população não pára de aumentar: não é raro encontrar senhoras com dez e mais filhos e adolescentes já mães e com filhos de vários pais. As pessoas não têm empregos estáveis e não conseguem ter acesso a um médico, muito menos comprar medicamentos. No meio de tanta água, muita gente nem sequer dispõe de água potável.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No Bairro da Liberdade, há quem saboreie as últimas gotas de cerveja das latas vazias que vão juntando para vender, há quem alimente a família com os restos do churrasco que sobrou das mesas dos ricos. É vergonhoso: o Brasil, uns dos países mais ricos do mundo, tem mais de 50 milhões de miseráveis.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-4335933415230733561?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/4335933415230733561/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=4335933415230733561' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/4335933415230733561'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/4335933415230733561'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/uma-lixeira-no-paraso-martinho-lopes.html' title='Uma lixeira no Paraíso - Martinho Lopes Moural'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-1232789336744371691</id><published>2007-06-26T05:01:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:33:43.721-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desespero'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='exploração'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='opressão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lucro'/><title type='text'>Excluídas e invisíveis - Carlos Reis</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Carlos Reis &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Além-Mar,&lt;/em&gt; Dezembro de 2006&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;em&gt;Milhões de crianças que são vítimas de exploração e discriminação graves tornaram-se invisíveis aos olhos da comunidade internacional. Não são contadas nem tidas em conta. «Desaparecem», quando são objecto de tráfico ou obrigadas a trabalhar como servos. Outras, como as crianças de rua, vivem à vista de todos, mas são sujeitas a maus-tratos e não têm acesso à escola nem a cuidados de saúde.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Bilu e João são dois irmãos que lutam juntos pela sobrevivência, recolhendo cartão e sucata de metal nas ruas de São Paulo, no Brasil. Blanca, de 13 anos, vive um verdadeiro pesadelo por ser portadora do vírus HIV: é discriminada na escola que frequenta em Brooklyn, nos Estados Unidos, e nem os que lhe estão mais próximos a poupam à angústia e ao estigma da doença. Ciro é um adolescente que deixou para trás os pais negligentes e uma família disfuncional, e passou a sustentar-se através do roubo nas perigosas ruas de Nápoles, em Itália. Uros, um menino bósnio internado num degradado reformatório, não quer sair de lá, pois pelo menos ali sente-se protegido: uma vez cá fora, o pai obriga-o de novo a roubar.&lt;br /&gt;Em algumas zonas da África, crianças-soldado de milícias famintas manipulam metralhadoras com destreza. Na China, as diferenças sociais entre duas meninas da mesma idade são gritantes: uma é rica e a outra mal sobrevive a vender flores nos semáforos de uma grande metrópole. Estas poucas e breves histórias ajudam a dar um rosto a milhões de vítimas silenciosas que, para além do mais, são as mais desprotegidas e vulneráveis face ao álcool, drogas, abusos sexuais e físicos, infecções, má nutrição.&lt;br /&gt;As situações de maior vulnerabilidade surgem à margem dos programas de desenvolvimento e permanecem invisíveis em muitas sociedades onde as crianças estão ausentes dos debates, da legislação, das estatísticas e dos meios de comunicação. A pobreza, o VIH/sida e os conflitos armados, aliados a uma má governação e a várias formas de discriminação, excluem da escola e privam de cuidados de saúde muitos milhões de crianças de todo o mundo, o que as torna ainda mais vulneráveis à exploração e à exclusão.&lt;br /&gt;As crianças que vivem em situações de conflito armado, por exemplo, são frequentemente vítimas de violação e de outras formas de violência sexual. O risco de se tornarem esquecidas é maior para as crianças que não possuem identificação: mais de metade dos nascimentos que todos os anos ocorrem nos países em desenvolvimento (excluindo a China) não são registados, o que rouba a mais de 50 milhões de crianças o direito a algo tão fundamental como o estatuto de cidadão, para além de as banirem à partida das estatísticas oficiais. Assim, não são contadas nem tidas em conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Guerra e crime&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Em Novembro, as Nações Unidas acusaram os militares do Sri Lanka de recrutarem crianças para uma milícia que luta contra o grupo separatista Tigres Tamil. O conselheiro especial da ONU, Allan Rock, representante da ONU em questões relacionadas com Crianças e Conflitos Armados, afirma que tem provas do envolvimento directo de soldados do país no alistamento forçado de crianças para a milícia dissidente dos Tigres Tamil, a Facção Karuna. «Encontrámos provas directas e indirectas de cumplicidade e participação», assegura Allan Rock, comentando o facto de crianças de 13 e 4 anos terem sido raptadas de pequenas povoações sem que tivessem sido realizadas investigações ou prisões por parte das forças de segurança.&lt;br /&gt;No Sudão, durante os longos anos da guerra, «a Igreja Católica foi a única fonte de esperança para milhares de crianças», diz o cardeal Gabriel Wako, arcebispo de Cartum e presidente da Conferência Episcopal. «Uma das maiores preocupações da Igreja sudanesa são as crianças órfãs. Infelizmente, a guerra deixou um grande número de órfãos de pai e muitos perderam ambos os pais. Por não terem uma família que se ocupe delas, a situação destas crianças é muito difícil e precária. Até aqueles que vivem apenas com a mãe se encontram em dificuldades, porque, infelizmente, as mulheres são uma das categorias mais desfavorecidas da sociedade sudanesa.»&lt;br /&gt;Nesse sentido, a Igreja está a apostar em programas de ajuda à infância, «sobretudo no campo sanitário e do ensino», assegura o cardeal. Um pouco por todo o mundo, ela é uma das instituições que mais contribuem para fazer face às necessidades das crianças excluídas. Apenas um exemplo: é graças à generosidade das próprias crianças dos 110 países onde se encontra presente a Obra da Santa Infância que estão a ser financiados mais de três mil projectos de assistência aos menores mais carentes.&lt;br /&gt;Embora os governos e a sociedade civil também se encontrem envolvidos em inúmeros programas de apoio, muitas permanecem desprotegidas. Só na fronteira entre a Argentina, Brasil e Paraguai, milhares de crianças e adolescentes vivem em condições de pobreza extrema, em “casas” sem saneamento ou água potável. Para além do mais, o crime organizado que grassa na região representa uma grave ameaça, de que as crianças são vítimas preferenciais. Entre os seus “negócios” contam-se a exploração sexual, o tráfico de drogas e de seres humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Violência e discriminação&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Muitos actos de violência perpetrados contra as crianças permanecem na sombra e têm muitas vezes a aprovação da sociedade. A violência contra as crianças inclui violência física, psicológica, discriminação, negligência e maus-tratos e acontece em qualquer lugar, em todos os países e sociedades e em todos os grupos sociais. Utilizando diversos estudos e dados sobre a população, a Organização Mundial de Saúde estima que, no mundo actual, as relações sexuais forçadas que envolvem menores de 18 anos afectam 73 milhões.&lt;br /&gt;Segundo a Organização Internacional do Trabalho, dos 218 milhões de crianças trabalhadoras, 126 milhões estão envolvidas em trabalhos perigosos e prejudiciais, 5,7 milhões realizam trabalhos forçados em regime de servidão, 1,8 milhões estão envolvidas na prostituição e 1,2 milhões já foram vítimas de tráfico. Desprovidos de cuidados dos pais, milhões de órfãos, crianças de rua e de jovens detidos crescem sem o afecto e protecção familiar. Estima-se que 143 milhões de crianças de países em desenvolvimento – 1 em cada 13 – perderam pelo menos um dos pais.&lt;br /&gt;Muitos dos Estados frágeis, países que não têm meios ou vontade para proporcionar serviços básicos aos seus cidadãos, discriminam os menores com base no sexo, etnia ou deficiência. Estes factores de exclusão impedem a entrada de milhões de menores na escola e bloqueiam a prestação de serviços essenciais. Calcula-se que haverá no mundo cerca de 150 milhões de crianças portadoras de deficiência, muitas delas sem possibilidade de acesso à educação, cuidados de saúde ou apoio afectivo em consequência de uma discriminação sistemática. Um número seco e assustador: anualmente, cerca de 53 mil menores são vítimas de homicídio.&lt;br /&gt;A violência tem «consequências duradoiras, não apenas para as crianças e seus familiares mas também para as comunidades e países», alerta Ann Veneman, directora executiva da Unicef. Para Paulo Pinheiro, perito independente nomeado pelo secretário-geral das Nações Unidas para liderar o estudo «Violência contra as Crianças», «a melhor forma de tratar do problema é impedir que aconteça. Todas as pessoas têm um papel a desempenhar, mas cabe aos Estados assumir a principal responsabilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Desemprego e pobreza&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Em todo o mundo, o desemprego é outro dos grandes problemas que os jovens enfrentam. E que faz que um em cada quatro – cerca de 300 milhões de pessoas – viva abaixo do limiar da pobreza. Segundo a Organização Internacional de Trabalho (OIT), o número de jovens entre os 15 e 24 anos que estão desempregados aumentou de 71 milhões, em 1995, para 85 milhões, no ano passado. A população juvenil cresceu 13 por cento entre 1995 e 2005, enquanto a disponibilidade de empregos para este segmento da população só registou um crescimento de quatro por cento. Como consequência, os jovens desempregados representam 44 por cento do total de desempregados a nível mundial. Estima-se que sejam necessários 400 milhões de empregos produtivos, ou mais e melhor emprego, para aproveitar o potencial da juventude actual.&lt;br /&gt;«A incapacidade das economias para criar empregos produtivos está a atingir os jovens em todo o mundo», afirma o director-geral da OIT. Segundo Juan Somavia, além de gerar um défice de oportunidades de trabalho e altos níveis de incerteza económica, esta preocupante tendência ameaça desperdiçar um dos principais recursos de qualquer sociedade – a juventude. «Neste momento, estamos a desperdiçar o potencial económico de uma grande parte da população, em especial nos países em desenvolvimento, que são os que menos se podem permitir esse desperdício. Por isso, os países devem concentrar-se nos jovens», preconiza.&lt;br /&gt;As regiões do Médio Oriente e do Norte de África registam a taxa mais elevada de desemprego juvenil (26 por cento), quase o dobro da que se verifica na União Europeia: 13 por cento. Mesmo nos casos em que existe emprego, isso não quer dizer que assegure o sustento dos jovens. Ainda de acordo com a OIT, a pobreza afecta cerca de 56 por cento dos jovens trabalhadores, que se confrontam também com a possibilidade de ter largas jornadas de trabalho, contratos a termo certo, salários baixos, protecção social reduzida ou inexistente.&lt;br /&gt;Regista-se também um preocupante aumento do número de jovens que não trabalha nem estuda. Na verdade, o acesso à educação continua a ser um problema para muitos e o analfabetismo ainda é um desafio importante em muitos países em desenvolvimento. Os desafios são maiores para as jovens, já que em algumas regiões, devido à tradição cultural, não se lhes concede a oportunidade de conciliar o trabalho doméstico com um emprego.&lt;br /&gt;Mas, apesar de um cenário tantas vezes tão negro, os jovens dispõem de um capital único: não perdem a capacidade de sonhar. &lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-1232789336744371691?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/1232789336744371691/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=1232789336744371691' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/1232789336744371691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/1232789336744371691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/excludas-e-invisveis-carlos-reis.html' title='Excluídas e invisíveis - Carlos Reis'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-3143630743116582417</id><published>2007-06-26T04:58:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:20:37.869-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><title type='text'>Doçura e Bondade - Guerra Junqueiro</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;em&gt;Há entre vós, meus filhos, índoles violentas, que não sabem dominar-se, e que se deixam arrastar pelas primeiras impressões. É um grande defeito, e urge emendá-lo: conduz a desavenças e à prática de acções cujo arrependimento chega tarde. Citar-vos-ei dois casos, de que fui testemunha.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada.&lt;br /&gt;— Oh! Senhor! — exclamou o outro — Mal sabe o remorso que vai ter! Bateu num cego!&lt;/p&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;**&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a bater no burro, para o fazer correr.&lt;br /&gt;O homem apeou-se, foi direito a eles, e mostrando-lhes a sua perna aleijada, disse-lhes:&lt;br /&gt;— Se soubésseis que eu era coxo, não teríeis sido tão covardes.&lt;br /&gt;Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma palavra.&lt;br /&gt;O que vos parece estas duas lições? Estou convencido de que aproveitaram a quem as recebeu.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Guerra Junqueiro&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Contos para a Infância&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Porto, Editora Justiça e Paz, 1987&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-3143630743116582417?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/3143630743116582417/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=3143630743116582417' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/3143630743116582417'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/3143630743116582417'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/doura-e-bondade-guerra-junqueiro.html' title='Doçura e Bondade - Guerra Junqueiro'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-4204683178485856350</id><published>2007-06-26T04:53:00.001-07:00</published><updated>2007-07-23T15:17:08.588-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='multinacionais'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='exploração'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><title type='text'>A minha mãe é uma deusa - Klaus Korkon</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;p align="justify"&gt;Veena vive em Bombaim, uma grande cidade da Índia, à beira-mar.&lt;br /&gt;A casa onde Veena vive é apenas um barracão com um corredor comprido e muitos quartos, um para cada família. Cada quarto tem cinco passadas de comprimento e três de largura. Para terem mais espaço, o pai acrescentou uma assoalhada entre o chão e o tecto, onde, em cima de esteiras, dormem Veena, os irmãos e irmãs, e os pais. Veena tem dois irmãos, Shivaji e Goga, e três irmãs, Shaya, Najma e Rukminidevi. Rukminidevi ainda é bebé e todos lhe chamam Ruki.&lt;br /&gt;Uma corda estendida ao longo do quarto serve para pôr a roupa a secar. Não há armários, por isso estão penduradas nas paredes muitas panelas, conchas, sertãs e outros utensílios. Por debaixo da janela há dois fogareiros e, ao lado, duas prateleiras de madeira com muitas ervas aromáticas, legumes e peixe secos, onde também estão encostados os sacos com o arroz, as lentilhas e os cereais. Está tudo muito limpo e arrumado, porque a mãe é uma Annapurna. Veena tem orgulho na mãe. Ser uma Annapurna não significa apenas ser cozinheira: significa ser uma deusa. A deusa Annapurna é a deusa da alimentação. Há muitas Annapurnas nos barracões, como a mãe de Veena, que cozinham para os empregados têxteis que trabalham na fábrica do Sr. Madanis.&lt;br /&gt;Como o pai está doente há muito tempo e já não pode ir trabalhar para a fábrica, a mãe é a única que sustenta a família. Embora já tenha nove anos, Veena não pode ir à escola. Ela e Shaya, a irmã, têm de ajudar a mãe. Limpar vegetais, moer especiarias e lavar arroz ou lentilhas são coisas que também elas já sabem fazer.&lt;br /&gt;Todos os dias, pelo meio-dia, Veena e a mãe pegam nos sacos e nos cestos, e vão ao mercado. Normalmente, está muito calor, mas a mãe não pode ir noutra altura. Os comerciantes, indolentes, descansam à sombra das suas lojas, bancas, carrinhos de mão e mesas. Costumam comprar muita coisa: peixe seco, legumes, trigo, azeite, carne e, por vezes, peixe fresco também. Veena não gosta do peixe fresco. Cheira muito mal e, além disso, está sempre envolto numa nuvem de moscas. Quando a mãe levanta um para ver se é mesmo fresco, as moscas fogem e há sempre algumas que tentam poisar na cara de Veena, que as sacode. Mas elas são teimosas e voltam sempre. Ainda bem que a mãe raramente compra peixe fresco. O peixe seco é mais barato e aguenta mais tempo.&lt;br /&gt;A mãe há muito que conhece a maior parte dos vendedores, e cumprimenta-os pelo nome. Também eles a conhecem e são simpáticos com ela, pelo menos enquanto olha e escolhe, mas, mal pergunta o preço, tornam-se sérios. Começam a regatear e, às vezes, demoram muito tempo. A mãe não desiste enquanto não consegue um bom preço. Alguns vendedores fazem que choram de aflição, outros praguejam:&lt;br /&gt;– Deixa estar, Kirrisushi, da próxima vez não me enganas!&lt;br /&gt;Mas, quando a mãe volta a aparecer, são tão simpáticos como dantes. A mãe sabe disso e sorri.&lt;br /&gt;– O que seria um comerciante sem os compradores? – disse uma vez a Veena. – Nada. Nós precisamos dele e ele precisa de nós.&lt;br /&gt;No mercado, Veena caminha em silêncio ao lado da mãe. Há tanta gente! As pessoas abrem caminho às cotoveladas, calcam os pés umas das outras e fazem-se de muito importantes. Veena sente-se insignificante.&lt;br /&gt;Do barulho, pelo contrário, Veena gosta muito. É completamente diferente do barulho das salas da fábrica. Alguns comerciantes anunciam os seus produtos com ditos muito engraçados, outros juram por todos os deuses que os seus são os mais frescos, embora qualquer pessoa veja que as bananas já estão muito escuras e que as maçãs estão tocadas.&lt;br /&gt;Os pregões são abafados pelo som estridente dos rádios transístores. Cada vendedor sintonizou uma estação diferente e todas se misturam umas com as outras, numa grande confusão de ruídos. Mesmo assim, Veena consegue apanhar uma melodia que lhe agrada e fixa-a. Trauteia-a depois baixinho enquanto está no mercado e depois quando ela e a mãe regressam a casa, cada uma com um saco à cabeça e um cesto em cada mão. Com uma melodia, Veena esquece até o peso da carga, e é capaz de se sentir feliz uma tarde inteira.&lt;br /&gt;Hoje, ouviu uma melodia particularmente bonita, tocada por um flautista sentado entre duas bancas. À direita e à esquerda havia rádios a tocar, mas ele prosseguia, persistente e alheado, a sua melodia melancólica. Até a mãe gostou e parou algum tempo para ouvir, coisa que nunca faz. E agora trauteia-a juntamente com Veena.&lt;br /&gt;– Eu já tinha ouvido esta música e acho que foi quando era pequena – diz a mãe, ao ver Veena olhar para ela, admirada.&lt;br /&gt;Veena não consegue imaginar que a mãe já tenha sido criança, mas é claro que teve de ser. Será que era parecida com ela? Ou antes com Shaya?&lt;br /&gt;No preciso momento em que pensava nisto, Veena ouve muitos gritos atrás dela:&lt;br /&gt;– Ladrão! Pára!&lt;br /&gt;– Ali! Ali vai ele a correr!&lt;br /&gt;Vira-se e assusta-se: Goga! É Goga quem fura por entre a multidão, sem olhar para a direita nem para a esquerda, e desaparece na confusão. Dois ou três vendedores correm atrás dele, mas não conseguem apanhá-lo.&lt;br /&gt;A mãe também ouviu os gritos e viu Goga. Ainda há pouco sorria e cantava baixinho, mas agora, de repente, parece muito cansada.&lt;br /&gt;Até chegarem a casa, Veena não se atreve a dizer mais nada. Já não é a primeira vez que Goga rouba. A mãe ralha muitas vezes com ele por causa disso, mas Goga volta sempre a repetir.&lt;br /&gt;De volta ao barracão, a mãe pousa primeiro os cestos e depois tira o saco da cabeça. A seguir, chama Shaya.&lt;br /&gt;– Viste o Goga?&lt;br /&gt;Shaya não viu o irmão nem coisa nenhuma. Aproveitou a ausência da mãe para dormir mais um pouco, o que se vê pela cara inchada e pelos olhos mortiços.&lt;br /&gt;A mãe pergunta ao pai, mas ele também não o viu. Esteve todo o tempo deitado na esteira, e, em casa, o Goga não esteve. Também não o ouviu. E Najma esteve a tomar conta de Ruki. Isso já é trabalho que chegue. Ruki é tão selvagem que Najma não pode tirar os olhos de cima dela nem por um segundo.&lt;br /&gt;A mãe não descansa. Corre para fora e pergunta aos rapazes que estão em frente do barracão. Mas também eles não viram Goga desde manhã cedo. Nem Shivaji sabe onde possa estar o irmão. Veena está ao pé da mãe e ouve-a perguntar por ele, preocupada. Não diz que Goga roubou no mercado. Não quer que se fale por aí, mas fica zangada com Shivaji por ele não saber por onde anda Goga. Shivaji tem dezasseis anos, Goga, catorze. Shivaji devia olhar mais pelo irmão.&lt;br /&gt;Shivaji faz uma careta. Está a jogar com os amigos e não quer ser incomodado.&lt;br /&gt;A mãe volta para o barracão, mas Veena ainda fica sentada por algum tempo a ver os rapazes. Colocaram uma lata à frente deles e tentam cuspir lá para dentro. Quem falhar fica de fora. Todos os que acertaram dão um passo atrás e voltam a cuspir para ver quem vence a aposta.&lt;br /&gt;Ao fim de bastante tempo, ficam só dois. Um deles é Shivaji. Inclina-se para a frente, porque a distância à lata é já muito grande, mas, mesmo assim, acerta. O outro não. Shivaji ganhou. Dá a volta por todos os rapazes e recebe de cada um deles uma moeda. Depois, o jogo recomeça.&lt;br /&gt;Veena procura Goga, mas não o vê em lado nenhum. Tem dois irmãos tão diferentes! Goga é um vadio, sempre metido em sarilhos. Shivaji prefere ficar por casa e ganhar algum dinheiro aos outros. Será que é por ter o nome do deus Shivaji que ele é assim tão hábil?&lt;br /&gt;Veena suspira. Por vezes, gostaria de dizer aos irmãos que não deviam dar tantas preocupações à mãe. Mas claro que não pode dizer nada. Ela é só uma rapariga, e um dia vai casar e partir. Shivaji e Goga ficarão com os pais e, um dia, vão alimentá-los.&lt;br /&gt;– Veeeeena!&lt;br /&gt;A mãe! Veena levanta-se depressa e corre para junto da mãe. Tem de cortar ervas aromáticas, lavar arroz e moer especiarias. Não há muito tempo para pensar.&lt;br /&gt;Goga só aparece à noite. Não sabe que Veena e a mãe o viram. Tem um cigarro enfiado no canto da boca, um sorriso irónico espalhado pela cara, e parece muito satisfeito.&lt;br /&gt;A mãe não contou nada ao pai sobre o roubo. Só Veena sabe. A mãe não lhe faz qualquer reparo, porque continua a não querer que o pai saiba, e dá-lhe a porção de arroz. Só o olhar é que deixa adivinhar alguma coisa.&lt;br /&gt;Goga repara nisso, e o sorriso desaparece-lhe.&lt;br /&gt;– Aconteceu alguma coisa? – pergunta em voz baixa.&lt;br /&gt;A mãe continua calada. Só quando Goga acaba de comer é que lhe faz sinal para ir até à frente da barraca.&lt;br /&gt;Veena segue-os. Se viu o que Goga fez, também quer saber o que a mãe vai dizer-lhe.&lt;br /&gt;Está escuro, em frente da barraca. Veena agacha-se junto ao caixote do lixo e olha para os dois. Só distingue as sombras, mas consegue ouvir tudo.&lt;br /&gt;– Goga! – exclama a mãe em voz baixa. – Goga! Goga! Goga!&lt;br /&gt;E depois pergunta:&lt;br /&gt;– O que é que roubaste?&lt;br /&gt;– Eu? – Goga faz-se de admirado. – Absolutamente nada!&lt;br /&gt;– Não mintas! – ralha a mãe. – Eu vi-te. Tu tornaste a roubar, embora me tivesses prometido que não tornavas!&lt;br /&gt;Goga fica calado.&lt;br /&gt;– Então, o que é que roubaste?&lt;br /&gt;– Uma galinha.&lt;br /&gt;– E o que fizeste com ela?&lt;br /&gt;Goga baixa ainda mais a cabeça e volta a calar-se.&lt;br /&gt;A mãe fica furiosa. Agarra Goga pelos ombros e sacode-o.&lt;br /&gt;– Nós somos pessoas honestas, ouviste? Nós não roubamos. Temos comida e um tecto, estamos bem. Não temos razão nenhuma para roubar.&lt;br /&gt;Veena não consegue ver, mas sabe que Goga está a fazer cara de amuado. Goga quer um dia ser rico a sério. Foi ele que lhe disse. Ter a barriga cheia e um tecto sobre a cabeça não lhe chega.&lt;br /&gt;– O que fizeste com a galinha? – insiste a mãe. – Fala, de uma vez por todas!&lt;br /&gt;– Eu… eu vendi-a – diz Goga por fim.&lt;br /&gt;– E o que fizeste com o dinheiro?&lt;br /&gt;Goga volta a calar-se. A mãe perde a paciência.&lt;br /&gt;– Se não mo queres dizer a mim, di-lo ao pai.&lt;br /&gt;Isso Goga não quer.&lt;br /&gt;– Eu… eu comprei um bilhete para ir ao cinema.&lt;br /&gt;– Tu foste ao cinema?&lt;br /&gt;Goga acena com a cabeça e depois desata a chorar.&lt;br /&gt;– Há tantos rapazes que vão ao cinema. Eu também queria…&lt;br /&gt;Não diz mais nada. A mãe tapa-lhe a boca. Ninguém deve saber da conversa que tiveram um com o outro.&lt;br /&gt;– Ainda tens dinheiro? – pergunta em voz baixa.&lt;br /&gt;– Sim – confessa Goga.&lt;br /&gt;– Leva-o ao templo. Oferece-o a Shiva. Talvez ele te perdoe.&lt;br /&gt;Goga acena com a cabeça e depois sai imediatamente para seguir o conselho da mãe. Pelo menos, faz como se fosse segui-lo.&lt;br /&gt;Ainda por um momento, Veena segue o irmão com o olhar, e depois vai atrás da mãe para continuar a ajudá-la.&lt;br /&gt;Mas agora o trabalho já não é importante. O que Goga acabou de dizer é simplesmente extraordinário.&lt;br /&gt;Foi ao cinema e viu um filme a sério? Ela nunca foi ao cinema, só conhece os cartazes coloridos, onde se vêem mulheres bonitas, homens a lutar, ou um casal de apaixonados.&lt;br /&gt;Mira, a vizinha, também já foi ao cinema. Isso foi há bastante tempo, mas ela conta o filme muitas vezes. À mãe já contou duas, e, de ambas as vezes, Veena pôde ouvir. Desde então, também ela deseja poder ir ver um filme. O filme de Mira tinha sido muito bonito. Aparecia uma flor mágica, mas depois um demónio roubava-a, e um jovem deus tinha de voltar a encontrá-la.&lt;br /&gt;Deve ser maravilhoso viver uma história daquelas. Mira diz que nunca tinha chorado nem rido tanto como no cinema. E que todas as outras pessoas também tinham rido e chorado.&lt;br /&gt;De noite, Veena está acordada e olha para Goga. Está muito escuro e não consegue vê-lo bem, mas sabe exactamente onde ele está deitado. Cautelosamente, chega-se a ele às apalpadelas. Shivaji acorda e agarra na bolsa com as moedinhas que escondeu debaixo da esteira. É o seu ganho. Hoje teve muita sorte no jogo.&lt;br /&gt;– Sou eu – sussurra Veena, chegando-se para mais perto de Goga. Shivaji resmunga em voz baixa, mas não se atreve a falar mais alto. Se o pai apanha a bolsa, fica com ela.&lt;br /&gt;Goga ainda está acordado, deitado de costas, a olhar para a escuridão.&lt;br /&gt;Veena toca-lhe ligeiramente.&lt;br /&gt;– Sou eu.&lt;br /&gt;– O que é que queres?&lt;br /&gt;Goga não quer ser incomodado. Talvez esteja a pensar no filme.&lt;br /&gt;– Foi bonito no cinema?&lt;br /&gt;– Foi.&lt;br /&gt;– O filme foi interessante?&lt;br /&gt;– O que é que achas? Claro que sim.&lt;br /&gt;– Conta-mo!&lt;br /&gt;– Agora?&lt;br /&gt;– Sim, por favor! Eu nunca fui ao cinema.&lt;br /&gt;Goga conta-lhe então o filme, e fá-lo de boa vontade. Estava mesmo a pensar nele. Veena vê tudo à sua frente: a bela princesa, que foi assaltada por um bandido, o príncipe, que ama a princesa e que tem de lutar contra o bandido, a grande festa em honra do príncipe, por ele ter vencido o bandido.&lt;br /&gt;Quando Goga acaba, Veena chora.&lt;br /&gt;– O que foi? – sussurra Goga. – Por que estás agora a chorar?&lt;br /&gt;– Também gostava de ir uma vez ao cinema.&lt;br /&gt;Primeiro, Goga fica em silêncio. Depois diz, com um ar duro:&lt;br /&gt;– Quem quer ir ao cinema tem de roubar.&lt;br /&gt;Roubar? Não! Disso, ela nunca será capaz! Sem barulho, Veena volta para a sua esteira e torna a pensar na princesa do filme de Goga. Depois, no bandido e no príncipe… De repente, no meio das imagens, vê a bolsa de Shivaji. Será que o dinheiro que está lá dentro chegaria para um bilhete de cinema?&lt;br /&gt;Veena começa a sentir-se muito quente. Não pode pensar aquilo em que está a pensar. Ela não é nenhuma ladra. Mas Shivaji é seu irmão… E ele ganhou o dinheiro no jogo… Se o pai o apanha, também lho vai tirar.&lt;br /&gt;Com cuidado, Veena chega-se mais perto de Shivaji. Encolhe a mão e fá-la deslizar por baixo da esteira de Shivaji. Ah, ali está a bolsa. Só precisa de a puxar e…&lt;br /&gt;– Veena!&lt;br /&gt;A mãe procura-a na esteira dela! Veena volta depressa para o seu lugar.&lt;br /&gt;– Sim?&lt;br /&gt;– Levanta-te, já são horas! Hoje tens de me ajudar mais cedo. Vou fazer um &lt;em&gt;pulao&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Um &lt;em&gt;pulao&lt;/em&gt; é um prato especial que dá muito trabalho. A mãe não sabe que ela não dormiu nada durante a noite. Veena levanta-se e segue-a pelas escadas abaixo.&lt;br /&gt;– Eu sozinha não consigo, sabes? – diz a mãe, quando acabaram de descer.&lt;br /&gt;Veena apenas acena com a cabeça. Está agradecida à mãe por tê-la salvo, se não, os deuses de certeza que a teriam castigado. E, além disso, ela também não teria tempo para ir ao cinema…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;Klaus Korkon&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Annapurna, a minha mãe é uma deusa&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;München, DTV Junior, 1989&lt;br /&gt;Adaptação&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-4204683178485856350?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/4204683178485856350/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=4204683178485856350' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/4204683178485856350'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/4204683178485856350'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/minha-me-uma-deusa-klaus-korkon.html' title='A minha mãe é uma deusa - Klaus Korkon'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-8344931289784510661</id><published>2007-06-26T04:50:00.000-07:00</published><updated>2007-07-23T15:16:32.847-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><title type='text'>Laura-Flor - Matilde Rosa Araújo</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;— Laura Flor, vem cá!&lt;br /&gt;A Laura veio e era como uma flor. Delicada e suave flor igual ao nome.&lt;br /&gt;Depois, foi a Maria Clara de tranças belas, castanhas, nariz arrebitado, sorriso claro – e Clara se chamava. A apertar a bata, na cintura, um cinto feito de papéis de lustro de cor, arco-íris naquela cintura de menina.&lt;br /&gt;Depois, a Maria Odete, figurinha que parece ter saído de uma jarra, sempre com muitos cuidados a andar, a falar, jeito que lhe ficou de estar dentro da jarrinha. Uns olhos orientais, um sorriso que é quase choro, franjinha negra sobre os olhos à flor da pele.&lt;br /&gt;— Maria Odete, se eu fosse ao Oriente e encontrasse uma flor, lembrava-me logo de ti!&lt;br /&gt;— Pois é! Ela tem os olhos em bico! — diz uma companheira, pronta a tirar conclusões.&lt;br /&gt;Maria Odete começa a chorar. A caírem-lhe as lágrimas devagarinho, brilhantes, também com cuidado, lentas, luminosas.&lt;br /&gt;Eu não sei o que vou dizer, mas digo. Não sei o que disse, mas Maria Odete sorri. Devagarinho, também as lágrimas acabam de cair.&lt;br /&gt;A que disse que a Maria Odete tinha os olhos em bico é tal e qual uma maçã dourada, redonda, toda muito por igual: maçã suspensa, nítida, decidida.&lt;br /&gt;As meninas todas olharam com admiração a flor do Oriente.&lt;br /&gt;Eu é que não devia dizer estas coisas, eu é que tenho a culpa – pensar alto. Mas havia reparado ontem na Maria Odete a dizer-me que não tinha livro nenhum.&lt;br /&gt;— Foi tudo na cheia de ontem, minha senhora...&lt;br /&gt;— E nunca mais os viste?&lt;br /&gt;— Nunca mais! A minha bata, apanhei-a hoje na valeta... Até o dinheiro que ficou está a secar, preso por molas.&lt;br /&gt;Diz isto com uma vozinha de quem canta dentro da tal jarra.&lt;br /&gt;— Sabe a senhora? As minhas vizinhas dizem que vão reclamar ao Ministro...&lt;br /&gt;—...?&lt;br /&gt;— Porque não arranjaram aquele cano... É por isso que eu hoje não trago bata nem tenho livro...&lt;br /&gt;— …&lt;br /&gt;— ... nem tenho dinheiro para comprar outro...&lt;br /&gt;Diz isto tudo muito serena, com um ar de quem está a contar a história mais natural deste mundo. História tão cinzenta que na voz dela até parece um conto de fadas ao contrário.&lt;br /&gt;A menina linda com os olhos à flor da pele, transparentes e escuros ao mesmo tempo. Puros. A infância desarmada.&lt;br /&gt;— Senhor Ministro, devia ter mandado arranjar o cano. Não tenho livro, não tenho bata, o pouco dinheiro está a secar, preso por molas...&lt;br /&gt;Tão serena. As lágrimas vagarosas de hoje – como meninas que saíram a passear para uma ilha imaginária.&lt;br /&gt;Senhor Ministro, desça abaixo ao seu jardim...&lt;br /&gt;Mas o Senhor Ministro não ouviu. Não desceu. Sabe lá o que é ter o pouco dinheiro preso por molas e os livros a irem na cheia.&lt;br /&gt;E deve ter aprendido na escola, no liceu, que Camões salvou os Lusíadas a nado. E que deixou o fim do poema para Laura Flor escrever. Com uma peninha de rouxinol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Matilde Rosa Araújo&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;As botas de meu pai&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Lisboa, Livros Horizonte, 1977&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-8344931289784510661?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/8344931289784510661/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=8344931289784510661' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/8344931289784510661'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/8344931289784510661'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/laura-flor-matilde-rosa-arajo.html' title='Laura-Flor - Matilde Rosa Araújo'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-833118016973282363</id><published>2007-06-26T04:47:00.000-07:00</published><updated>2007-07-23T15:14:31.994-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desespero'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='opressão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><title type='text'>O tesouro de Clara - Beatrice Alemagna</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Clara vive no Brasil.&lt;br /&gt;Não possui quase nada. Tem uma pele de âmbar e cabelos pretos.&lt;br /&gt;Veste uma t-shirt grande e, nos pés, traz sandálias de borracha, faça chuva ou sol.&lt;br /&gt;Clara tem doze anos. Trabalha num orfanato.&lt;br /&gt;A sua função é limpar a cozinha e, de vez em quando, pode fazer de mãe dos mais pequeninos. E gosta muito disso.&lt;br /&gt;À quinta-feira, é o dia de descanso de Clara. É então que sai…&lt;br /&gt;A cinquenta metros, perto de um banco que está fechado, estão todos juntos à espera dela. Olham uns para os outros, sorriem, regalam-se de antemão.&lt;br /&gt;São os seus amigos: Lúcia, Ângelo e Ana. Não têm casa e dormem onde calha, nas ruas do Rio.&lt;br /&gt;Lúcia tem oito anos. Os seus cabelos são como ninhos de andorinha. Está sempre a rir e a mexer as mãos e os pés.&lt;br /&gt;Ângelo é pequeno mas muito forte para os seus onze anos.&lt;br /&gt;Um dia, conseguiu mesmo levantar uma bicicleta. Está sempre descalço.&lt;br /&gt;Caminha sem dificuldade sobre as pedras. Canta as canções escritas por aqueles que viajaram e viram muitos países. Canta muito bem, o Ângelo.&lt;br /&gt;Ana é a mais bem-comportada. Não fala muito.&lt;br /&gt;Tem doze anos, tal como Clara, que conheceu há muitos anos naquele sítio, diante do banco.&lt;br /&gt;Por vezes, Lúcia, Ângelo e Ana vão trabalhar na produção do algodão. Outras vezes, varrem as ruas. Ou então, os pescadores chamam-nos à praia para puxarem as redes. Depois, encontram-se, sonham em conjunto, com o nariz no ar, a olhar para as nuvens e a contar os dias até quinta-feira.&lt;br /&gt;Ângelo, Lúcia e Ana têm muitos amigos na rua.&lt;br /&gt;Alguns respiram uma cola contida em garrafas de plástico, o que os faz sorrir sem razão nenhuma.&lt;br /&gt;Quando Clara encontra os amigos, vão todos a correr para a praia. Atiram areia à cara uns dos outros. Cantam Pescadores dos três mares e comem o pão que os turistas lhes dão. Lúcia, Ângelo e Ana não querem daquela cola que faz esquecer os problemas.&lt;br /&gt;Eles têm Clara. Clara é a mercadora de sonhos.&lt;br /&gt;Não é que os venda realmente; em vez disso, dá-os de prenda.&lt;br /&gt;Clara sonha muito alto com lugares maravilhosos. Praias compridas e douradas, com barcos, papagaios de papel e papagaios de verdade.&lt;br /&gt;Montanhas encantadas cobertas de gelo e criaturas estranhas, onde sopra um vento mágico, do norte. Um vento que te adormece e te acorda cem anos mais tarde.&lt;br /&gt;Cidades futuras cheias de luz. De carros que voam e de parques de estacionamento floridos. E de um fogo de artifício feito de pequenos comboios brilhantes, de pizzarias e de arranha-céus espelhados.&lt;br /&gt;E Clara fala-lhes de um Rio sem adultos.&lt;br /&gt;Onde só há crianças gentis e alegres, que têm os dentes todos. Que saltam sobre os carros e invadem as lojas de bombons.&lt;br /&gt;Ela oferece-lhes vales inteiros de árvores carregadas de frutos, com quatro sóis amarelos no meio do céu e com camponeses ricos, vestidos de comerciantes.&lt;br /&gt;E Clara transforma os monumentos antigos da cidade em palácios das Mil e Uma Noites, e os gatos que passam em tigres da Malásia.&lt;br /&gt;Clara conta os seus sonhos durante horas.&lt;br /&gt;Ela estudou quatro anos na escola e lê todos os livros que encontra.&lt;br /&gt;Agora, é tarde. Clara levanta-se, sacode a areia das mãos e volta para o orfanato. Os amigos escutaram-na, de boca aberta.&lt;br /&gt;Riram e choraram. E os olhos deles arregalar-se-ão de novo na próxima quinta-feira.&lt;br /&gt;Para eles, não há cola.&lt;br /&gt;Eles têm Clara.&lt;br /&gt;E muitos sonhos bons para viverem ainda…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Beatrice Alemagna&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Le trésor de Clara&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Paris, Autrement Jeunesse, 2000&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-833118016973282363?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/833118016973282363/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=833118016973282363' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/833118016973282363'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/833118016973282363'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/clara-vive-no-brasil.html' title='O tesouro de Clara - Beatrice Alemagna'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-5546015911302279663</id><published>2007-06-26T04:44:00.000-07:00</published><updated>2007-07-23T15:13:29.847-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desespero'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sociedade'/><title type='text'>Miloko - Jean Siccardi</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Miloco é um menino descalço e esfarrapado. Vive na rua. Veio de longe, de um país distante, assinalado com letras minúsculas no mapa do mundo.&lt;br /&gt;Numa noite, por entre a chuva e o nevoeiro, desembarcou ali, vindo não se sabe bem de onde. De olhos cheios de sono e cansaço, com outras crianças, com outros Milocos como ele, que, de imediato, se espalharam pelos quatro cantos da grande cidade.&lt;br /&gt;Percorreu as ruas rente às fachadas de persianas corridas. Seguiu os candeeiros como os marinheiros seguem as estrelas. Caminhou durante muito tempo até de madrugada Depois, esgotado, adormeceu na praia, embalado pelo ressoar das ondas.&lt;br /&gt;Os gritos das gaivotas e dos alcatrazes acordaram-no. Viu os barcos deslizarem displicentes nas águas do mar. Tinha fome. Subiu a grande avenida das lojas e dos supermercados. Invisível, transparente, a multidão não deu por ele.&lt;br /&gt;Miloco não passava de um menino descalço e esfarrapado.&lt;br /&gt;Um dia, na rotunda da auto-estrada, em frente ao aeroporto, perto do supermercado, encontrou outros garotos como ele, Milocos nus e de pés descalços, que o adoptaram.&lt;br /&gt;Por baixo da ponte de acesso à auto-estrada, abrigado do vento e das intempéries, Miloco, com as caixas de cartão dos frigoríficos, cartões enormes de televisores, e de outros objectos&lt;br /&gt;fúteis e sem importância, construiu uma casa só para ele, fechada por arame, entre as cabanas dos seus novos companheiros.&lt;br /&gt;Miloco sentia-se bem.&lt;br /&gt;À noite, junto da fogueira, cantava e até ria.&lt;br /&gt;Os amigos tinham-lhe emprestado uma escova, panos de limpeza e uma garrafa com lixívia que fazia balões multicores com os reflexos do sol.&lt;br /&gt;Miloco, na rotunda do supermercado, esperava os carros que paravam no semáforo. Entre a mudança do verde para o vermelho, passando pelo laranja, e do vermelho para o verde, Miloco levantava as escovas, esfregava, puxava, lavava os vidros sujos de lama e de mosquitos.&lt;br /&gt;Dos carros vinham berros, e às vezes injúrias! Os condutores, de lentes fumadas, subiam os vidros, desviavam o olhar, aceleravam, não se atrevendo a enfrentar o rosto da verdade. Por vezes, por uma nesga da janela, com as portas bem trancadas, uma mão, estendida sem convicção, atirava uma moeda, uma moeda de pouco valor, para o asfalto.&lt;br /&gt;Miloco agradecia com um breve clarão de felicidade a iluminar-lhe o rosto.&lt;br /&gt;No início da Primavera, numa manhã muito cedo, camiões azuis cercaram a aldeia de papel.&lt;br /&gt;Ninguém teve tempo de fugir.&lt;br /&gt;Homens de uniforme e capacetes prateados juntaram as crianças no meio da rotunda e contaram-nas.&lt;br /&gt;Levaram Miloco para uma casa grande, numa colina, longe da cidade. Atrás dos muros altos e escuros, não via nem mar nem horizonte. As lágrimas inundavam-lhe as faces.&lt;br /&gt;Havia muitos companheiros como ele, Milocos nus e de pés descalços, que olhavam por cima dos muros do jardim, para a liberdade que lhes tinha sido roubada. Miloco sentia-se prisioneiro.&lt;br /&gt;Então pensou muito na sua aldeia, naquele país distante desenhado no mapa do mundo em letras minúsculas. Rascunhou à mãe um postal cheio de sol, de céu azul, de passeios cheios de flores, de ruas imensas e coloridas. Contou que diante do aeroporto, perto do supermercado, debaixo da ponte, tinha uma casa só sua, uma casa de cartão.&lt;br /&gt;Certa manhã, quando a claridade penetrava no parque, Miloco saltou o muro. Nu e descalço, desatou a correr, sem olhar para trás, em direcção à rotunda do supermercado e escondeu-se no fundo da sua cabana.&lt;br /&gt;Ficou ali muito, muito tempo, escondido no seu refúgio, a espiar o mais pequeno ruído, assustado com o ruído dos motores.&lt;br /&gt;Depois, pouco a pouco, entreabriu a porta e aventurou-se a sair. Um calor suave acariciou-lhe as faces.&lt;br /&gt;A partir daí, todas as noites, conta os camiões que chegam de algures. Por entre o nevoeiro e a chuva, espreita as sombras furtivas que deslizam na escuridão. Fica à espreita da sombra da mãe. Gostava que ela estivesse ali, que o apertasse nos braços até ele perder a respiração.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Tradução e adaptação&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Jean Siccardi; Joly Guth&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Miloko&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Draguignan, Lo Païs d’Enfance, 2004&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-5546015911302279663?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/5546015911302279663/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=5546015911302279663' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/5546015911302279663'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/5546015911302279663'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/miloko-jean-siccardi.html' title='Miloko - Jean Siccardi'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-5004245992889550890</id><published>2007-06-26T04:30:00.000-07:00</published><updated>2007-07-23T15:13:03.690-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><title type='text'>Chico</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Chico vive numa aldeia perdida num dos muitos países de África. Podia ser em Angola, no Senegal ou no Ruanda. Podia chamar-se Chico, Abuabar ou N’gouda. Há muitos Chicos em África. Chicos de olhos brilhantes e pés descalços, com a cabeça povoada de sonhos, com vontade de ter um futuro para viver.&lt;br /&gt;Como quase todos os seus companheiros, Chico levanta-se bem cedinho pela manhã. Ajuda a mãe a tratar das duas cabrinhas, Flor e Kenchú, e só depois parte para a escola.&lt;br /&gt;Chico gosta particularmente de Flor. Foi ele quem lhe pôs o nome, no mesmo dia em que ela chegou à palhota, apertada nos braços fortes do pai, ainda mal se segurando nas patinhas frágeis, e a berrar pela mãe. Fora um vizinho que lha dera, como forma de pagar a ajuda no arranjo da cabana.&lt;br /&gt;Na primeira noite, Flor berrou todo o tempo a chamar pela mãe e nem deixava que Kenchú tentasse acalmá-la com lambidelas carinhosas.&lt;br /&gt; Deitado na sua esteira, Chico não conseguia adormecer. Entendia tão bem a cabrinha! O pai dele arranjara trabalho longe, lá na cidade, e só podia vir a casa de quinze em quinze dias. Às vezes, para fazer mais algum dinheiro, ficava fora mais tempo. Quando chegava a hora de regressar à cidade, o pai dizia-lhe que se portasse como o chefe da casa e que devia obedecer à mãe. Como se fosse preciso dizer-lho! Ele bem sabia que a mãe, com o trabalho na fazenda do Sr. Macedo, com os gémeos de três anos e Linita, de oito, não podia fazer tudo e precisava da ajuda dele.&lt;br /&gt;Sempre que o pai partia, Chico ficava triste o resto do dia, mas depois passava. Quando a saudade lhe enchia o peito até cima e parecia querer saltar-lhe pelos olhos, apertava com muita força na mão o seixo que o pai lhe dera naquela tarde em que Chico pescara o maior peixe da sua vida. O pai explicara-lhe que tinha arranjado na cidade um bom trabalho, mas que ia deixar de poder vê-los todos os dias. Depois, metera a mão na água e tirara dois seixos, os mais bonitos que Chico alguma vez vira, e colocou-lhe um na palma da mão.&lt;br /&gt;— Quando tiveres muitas saudades minhas, apertas com força esta pedrinha. A tua saudade vai passar para a minha pedra e eu vou recebê-la e tu vais sentir-te acompanhado.&lt;br /&gt;Em certas ocasiões, as saudades eram tantas que acabavam por conseguir irromper para fora e duas lágrimas teimosas, quentes e grossas, deslizavam suavemente pela face castanha-escura de Chico.&lt;br /&gt;Ah, como ele compreendia a cabrinha malhada com a manchinha branca na testa! Esgueirou--se para fora da palhota sem acordar os pais e os irmãos que dormiam, saiu para a noite quente e húmida e entrou na cabana dos animais. Passou a noite inteira deitado ao lado de Flor, que se acalmou e acabou por adormecer com a cabeça poisada no peito de Chico. No dia seguinte, já aceitou de bom grado o leite que Kenchú lhe oferecia.&lt;br /&gt;Os pais estranharam a mudança mas, durante algum tempo, a causa dessa transformação ficou um segredo entre Chico, Flor e Kenchú.&lt;br /&gt;Só depois de ordenhadas as cabras e de lhes ter deitado de comer, é que Chico saía para a escola.&lt;br /&gt;À saída da aldeia encontrava-se com Djimbu e Mkembé, os seus dois melhores amigos, e juntos faziam o caminho até à escola das Missões.&lt;br /&gt;Ir à escola era do que Chico mais gostava. O seu maior sonho, já segredado para dentro das orelhas de Flor e contado ao pai, durante uma tarde de pesca, era, um dia, poder ensinar outros meninos como ele a ler e a escrever. E haveria de trabalhar tanto, que iria até conseguir dinheiro para comprar uma bicicleta novinha para os irmãos, igual a uma que vira um dia. Bem, do que ele gostava mesmo, mesmo, era de um dia poder ter um carro como o do Sr. Macedo, o dono da fazenda onde a mãe às vezes ia trabalhar. Mas esse era o seu maior segredo e ainda não se atrevera a contar a ninguém, nem mesmo a Flor. Claro que, se o contasse a Djimbu ou a Mkembé, eles também iam querer, e deixava de ser um desejo só dele…&lt;br /&gt;Sempre que o Sr. Macedo vinha à casa grande, somente de tempos a tempos, Chico ficava parado no caminho a observar o grande carro branco e brilhante, tão brilhante que, quando o sol cintilava nos vidros, até fazia doer os olhos, e assim ficava perdido no seu segredo.&lt;br /&gt;Ao chegar à escola, Chico notou um alvoroço desacostumado. Alguns homens em manga de camisa transportavam caixas para dentro do edifício da escola. Pareciam todos muito bem dispostos, e até o Palhinhas, o cão acastanhado do professor, soltava latidos alegres e abanava a cauda, bem disposto.&lt;br /&gt;Chico, Djimbu eMkembé estugaram o passo. Que confusão!&lt;br /&gt;Quando a velha furgoneta partiu, deixando a velha escola atafulhada de caixas, sentaram-se, de pernas cruzadas no chão, e o professor deu início à abertura das caixas.&lt;br /&gt;Era uma encomenda vinda da Europa com uma oferta de material para a escola. Perante o olhar fascinado das crianças, o professor foi retirando, com largos gestos teatrais mas sinceros, folhas soltas, restos de cadernos, cadernos e blocos novos e usados. Chico nem queria acreditar! Aquele material podia não ser novo, mas para eles isso não tinha a menor importância e era-lhes muitíssimo útil. Quem o enviara parecia adivinhar exactamente aquilo de que estavam a precisar!&lt;br /&gt;O professor continuou a retirar lápis, lápis novos e usados, restos de lápis, lápis de cor – que bonitas as cores! – canetas – eram tão poucas as que lhes chegavam à escola! – borrachas que apagavam  o  que  o  lápis escrevia.  Mas o melhor de tudo vinha no último caixote…&lt;br /&gt;Quando o professor o abriu, o rosto iluminou-se num sorriso. Muito lentamente, como um mágico que tira um coelho da cartola, o professor foi erguendo o braço. As crianças, mortas de curiosidade e com os olhos a brilhar, sustinham a respiração. O professor mostrou… Livros!! Livros com imagens cheias de cor! Chico sentiu o coração a bater mais rápido. Parecia-lhe que estava a viver um sonho e só tinha medo de que a mãe o acordasse naquele momento.&lt;br /&gt;Livros! Chico era capaz de ficar horas a fio mergulhado e perdido nas páginas de um livro. Ainda não tinha lido muitos. Só três dos meros vinte que constituíam a magra biblioteca da escola. Podia ser muito reduzida,  mas  os meninos  achavam-se  importantes por os terem e manuseavam--nos carinhosamente e com muito cuidado. Chico tinha lido os três mesmo até ao fim, e tantas, tantas vezes, até saber as histórias de cor e poder contá-las à noite, em volta do lume, à mãe, ao pai e aos irmãozinhos, que o escutavam com os grandes olhos castanhos muito abertos de espanto e com a respiração suspensa. Se Chico pudesse, levaria um daqueles para casa para lhos ler. Ficariam certamente ainda mais orgulhosos dele. Se algum dia conseguisse ganhar dinheiro, haveria de poupar até conseguir juntar o suficiente para comprar um grande livro de histórias ou de aventuras para ler aos irmãos. O maior e o mais grosso que houvesse à venda.&lt;br /&gt;Os pensamentos de Chico foram interrompidos pela passagem do professor. Já tinha partido os lápis em pedaços mais pequeninos, que distribuía naquele momento pelos alunos. Cada um ia encaixar o seu pedacinho de lápis numa caninha ou num pau para conseguir aproveitá-lo até ao fim. Tinham autorização para levar o material para casa, mas ninguém o levava com medo de perder as preciosas folhas de papel ou os lápis.&lt;br /&gt;Chico pegou no seu, como quem recebe em mãos uma relíquia ou um tesouro. Não, hoje ia ter muito cuidado. Da última vez que preparara o lápis, no preciso momento em que estava a cortar a cana, o Sr. Macedo apareceu no seu carro brilhante, a apitar a uma gazela que se atravessara no caminho. Por momentos, Chico esqueceu tudo o que estava a fazer, imaginando-se sentado nos bancos macios, por trás do volante, com o vento a acariciar-lhe a face, e a apitar a empalas, zebras e macacos. Zás! Deixou cair o braço e cortou o bico do lápis, que, se já era pequeno, ainda mais reduzido ficou.&lt;br /&gt;Que tristeza! Até deu pontapés no velho embondeiro que se erguia à saída da cabana, tão furioso ficou. Porque é que o Sr. Macedo tinha de aparecer precisamente naquele momento? Por causa daquele carro enfeitiçado, já não teve lápis para escrever ao pai – o encarregado da fábrica lia as cartas aos empregados – naquela altura em que ele esteve muito tempo sem vir a casa. Não, desta vez ia estar com mil olhos. Nem que passassem mesmo ao lado dele dois carros a apitar, ele ia ceder à tentação de olhar!&lt;br /&gt;Ao regressar a casa, Chico apertava com força o seixinho do rio. Tinha tantas novidades para contar em casa! E tanta coisa para escrever ao pai! Queria dizer-lhe que, da próxima vez que viesse a casa, ele, Chico, iria ter novas histórias para contar à noite, junto ao fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;I. Birnbaum&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-5004245992889550890?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/5004245992889550890/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=5004245992889550890' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/5004245992889550890'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/5004245992889550890'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/chico.html' title='Chico'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-794203068773203178.post-7975318382170679678</id><published>2007-06-26T04:22:00.000-07:00</published><updated>2007-07-23T15:11:41.602-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='injustiça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desespero'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pobreza'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desigualdade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sociedade'/><title type='text'>Shégué, Príncipe da Rua - Dominique Mwankumi</title><content type='html'>&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Shégué é um príncipe da rua.&lt;br /&gt;Abandonado pelos pais desde a mais tenra idade, passa as noites dentro de uma caixa de cartão com os brinquedos que ele próprio fabrica.&lt;br /&gt;Não é o único. Outros meninos, como o seu amigo Lokombe, vivem nas mesmas condições.&lt;br /&gt;De manhã muito cedo, Lokombe acorda-o:&lt;br /&gt;— Eh! Shégué! São horas da descarga, vamos, se não, já não encontramos nada.&lt;br /&gt;Pelo caminho, os dois amigos ouvem os risos de alguns adultos que troçam deles.&lt;br /&gt;— Cuidado, Lokombe! Não te magoes nas garrafas partidas, nas latas de conserva velhas e nos restos de frigoríficos enferrujados…&lt;br /&gt;— Não te preocupes. Sei bem o que ando a fazer.&lt;br /&gt;Mais à frente, empoleirado num carro velho, Shégué, com a ajuda de um alicate, um martelo e um cinzel, recupera pedaços de chapa e fio eléctrico. Sabe do que precisa para fazer brinquedos.&lt;br /&gt;Apesar do terrível calor do meio-dia, os dois amigos lá conseguem arranjar uma grande quantidade de material. Há bastante tempo que estão a esticar com cuidado os fios de arame em cima de uma pedra lisa.&lt;br /&gt;— Cuidado, Lokombe! Não te magoes nas garrafas partidas, nas latas de conserva velhas e nos restos de frigoríficos enferrujados…&lt;br /&gt;— Não te preocupes. Sei bem o que ando a fazer.&lt;br /&gt;Mais à frente, empoleirado num carro velho, Shégué, com a ajuda de um alicate, um martelo e um cinzel, recupera pedaços de chapa e fio eléctrico. Sabe do que precisa para fazer brinquedos.&lt;br /&gt;Apesar do terrível calor do meio-dia, os dois amigos lá conseguem arranjar uma grande quantidade de material. Há bastante tempo que estão a esticar com cuidado os fios de arame em cima de uma pedra lisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tia molende yo ko zua, tia molende, tia molende yo ko zua &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;(Não desistas, hás-de alcançar o que desejas,&lt;br /&gt;Não desistas, hás-de alcançar o que desejas.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;canta Shégué com todo o entusiasmo, enquanto constrói primeiro um avião, depois um carro e a seguir uma moto.&lt;br /&gt;— Ah! Se eu pudesse fazer aviões a sério, motas a sério e carros a sério… — sonha ele – seria muito, muito rico!&lt;br /&gt;Mal acabam o trabalho, Shégué e Lokombe vão a correr para o mercado para venderem os brinquedos.&lt;br /&gt;Têm de esperar muito tempo, de estômago vazio.&lt;br /&gt;Por fim, lá vem um cliente, depois outro: os brinquedos de Shégué são todos comprados.&lt;br /&gt;É dinheiro bem merecido, que vai servir para arranjar comida. Mas, a poucos passos dali, uns vadios vigiam as vendas… Três sombras aproximam-se de Shégué:&lt;br /&gt;— Hoje é o teu fim! — diz-lhe uma voz.&lt;br /&gt;Os agressores querem roubar-lhe o dinheiro. Com sorte, Shégué consegue escapar. Corre, corre até não poder mais. Que susto!&lt;br /&gt;Esgotado, de barriga vazia, Shégué deita-se na sua caixa de cartão.&lt;br /&gt;As noites são difíceis para um príncipe da rua!&lt;br /&gt;No dia seguinte de manhã, ainda mal refeito do susto, vê chegar o amigo Lokombe, que vem buscá-lo para de novo voltarem ao trabalho.&lt;br /&gt;Pelo caminho, os dois amigos vão comendo qualquer coisa.&lt;br /&gt;Naquele dia, Shégué constrói um magnífico instrumento de música. Consegue mesmo tocar umas melodias que, em pouco tempo, atraem um círculo de admiradores.&lt;br /&gt;— Que talento, Shégué! É magnífico esse instrumento. E tocas tão bem! Encanta-me com a tua música e saberei recompensar-te.&lt;br /&gt;O menino tem um grande sucesso. Em pouco tempo enche os bolsos de dinheiro. Depois do espectáculo, fortuna feita, Shégué vai comprar roupa nova, porque é assim que fazem os meninos ricos daquele grande país. Dali em diante, o menino Shégué não será mais um príncipe da rua.&lt;br /&gt;Para ele, uma nova vida vai certamente começar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Dominique Mwankumi&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Prince de la rue&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Paris, Archimède, L’école des loisirs, 1999&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/794203068773203178-7975318382170679678?l=ricosepobres.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ricosepobres.blogspot.com/feeds/7975318382170679678/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=794203068773203178&amp;postID=7975318382170679678' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/7975318382170679678'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/794203068773203178/posts/default/7975318382170679678'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ricosepobres.blogspot.com/2007/06/shgu-prncipe-da-rua-dominique-mwankumi.html' title='Shégué, Príncipe da Rua - Dominique Mwankumi'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
