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quinta-feira, 5 de julho de 2007

Os ricos globalizam a pobreza - Luc Coppejans

Além-Mar
Fevereiro 2001

Excertos



Uma globalização que só serve os interesses de alguns
promove uma visão unidimensional da natureza humana
e condena à pobreza povos inteiros.
Não é por acaso que um pouco por todo o lado se fazem
ouvir protestos contra a liberalização desenfreada.


Vivemos num tempo de mudanças profundas. No último século, a nossa visão da vida mudou dramaticamente do nacionalismo para o internacionalismo, para o globalismo. Todavia, as nossas instituições políticas e a nossa ideia do mandato político mudaram muito pouco desde o início do nosso século.
O principal veículo da globalização é a ideologia neoliberal do mercado livre. Não houve ao longo da História outra ideologia que tivesse influenciado tão profundamente cada aspecto da vida das pessoas no mundo como a do neoliberalismo. Ela tem impacto na vida económica, na comunicação e na informação, nos desenvolvimentos tecnológicos, na cultura, nos padrões de consumo, no crime, nos conflitos, nas epidemias, na ecologia, na migração e, naturalmente, na política.

O novo credo universal: a economia de mercado

A globalização considera que a competição e a economia de mercado são o credo universal. Esta insistência na competição promove uma visão unidimensional da natureza humana e das relações humanas. Uma sociedade que é um leilão, onde até as coisas sagradas, como o sangue e os órgãos humanos, a biodiversidade, podem ser comprados e vendidos, e onde os valores podem ser substituídos por preços, faz-nos recordar de modo arrepiante a visão do Apocalipse: Babilónia tornou-se antro de demónios, guarida de todos os espíritos imundos... porque do vinho da sua luxúria se embriagaram todas as nações... (Apocalipse 18, 2-3). O credo da lógica do mercado constitui um desafio cultural e espiritual. Um desafio que os políticos não enfrentaram (suficientemente) e pelo qual estão a pagar um preço.
Alguns dos problemas gerados pela acção dos mecanismos de mercado no âmbito do actual movimento da globalização têm a ver com o facto de que a doutrina do mercado livre aumenta nos ricos o falso sentimento de serem «pessoas escolhidas», e com o facto de esta estar orientada para a aquisição de poder em vez de ter em conta as necessidades das pessoas e da Terra.
A globalização, comandada pela actual ideologia liberal do mercado, tem adormecido as pessoas. Satisfeitas com as suas riquezas, muitas pessoas aprovam a ideologia liberal do mercado livre. Desapontadas com a política, aceitam uma visão da sociedade que passa por uma produção e um consumo sempre em expansão, uma sociedade em que o poder está nas mãos de uma pequena e forte elite económica, que facilita a gestão eficiente do processo de produção/consumo, do qual derivam todas as coisas boas da vida. Mas, numa sociedade destas, a maioria das pessoas têm pouco a dizer sobre a configuração da sociedade em que vivem e pouco poder de participação.
Os líderes políticos e as instituições tornam-se meros «ponta-de-lança» de políticas decididas longe, por empresas transnacionais. Este sistema não dá poder às pessoas, mas transforma-as em consumidores satisfeitos, e abre perigosamente as portas para que os direitos humanos sejam atropelados, a dignidade humana desrespeitada, o desenvolvimento humano entravado e o ambiente indiscriminadamente explorado.

Injustiça estrutural e política

É verdade que a esperança de vida, em média, cresceu mais nos últimos 50 anos do que nos anteriores 4000; a competição nos transportes e nas comunicações facilitou imensamente as nossas vidas. Contudo, ao mesmo tempo, a diferença entre ricos e pobres está a aumentar, tanto globalmente como no seio dos vários países. Existem 360 multimilionários no mundo, cuja riqueza conjunta é igual à soma do rendimento de 2,5 mil milhões de pobres. Que estrutura permite e justifica tamanha disparidade de riqueza?
Americanos e europeus gastam 200 mil milhões de dólares (mais de 40 mil milhões de contos) por ano em receitas médicas. Obviamente, medicamentos para enfermidades como a cegueira dos rios, a doença do sono ou a malária não se encontram habitualmente nas prateleiras das farmácias ocidentais, porque não têm procura. Todavia, em dispensários do Sul, como por exemplo no Benin, são também raros, não porque não se precisa deles, mas porque as pessoas não têm posses para os comprarem. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 60 mil milhões de dólares são gastos anualmente na investigação médica, mas menos de 10 por cento desta soma é aplicada na investigação de doenças que afectam 90 por cento da população mundial, como a malária, a tuberculose e o HIV/sida. As indústrias farmacêuticas receiam não ser capazes de vender os seus produtos a preços compensadores, ou que os países pobres não respeitem as suas patentes, por isso não lhas dão! Quantas pessoas morrem diariamente em África por não terem os medicamentos mais comuns?
O Norte pretende que os países do Sul abram os seus mercados, mas os países ricos são proteccionistas nos sectores em que os países pobres são mais capazes de competir, como na agricultura, nos têxteis e no fabrico de vestuário. «Tarifas acumuladas», (taxas cada vez mais altas por cada degrau no processo de produção) e «tarifas antidumping» para bens considerados «injustamente baratos» protegem os têxteis europeus, a agricultura, o aço, etc. Isto impede efectivamente o crescimento económico em África, não cria emprego nas cidades e reduz o rendimento das famílias africanas!
A Organização Mundial do Comércio (OMC) forçou a União Europeia a abandonar o seu regime de importação de bananas, que favorecia os pequenos produtores africanos. As grandes firmas americanas conseguiram convencer a OMC que favorecer os pequenos produtores de bananas ia contra as regras do mercado livre. As vítimas destas regras da OMC são os agricultores pobres do Gana, Costa do Marfim, Benin e Togo, cuja vida dependia das bananas; os vencedores são as grandes empresas como a Chiquita. O mesmo acontece com o uso de matérias gordas de substituição do cacau no fabrico do chocolate.
Estes são apenas alguns exemplos das injustiças infligidas pelo Norte à África. O mais estranho é que todas as leis e regulamentos que sustentam estas injustiças são ratificados pelos nossos representantes políticos, democraticamente eleitos: governos ou parlamentos! Senhores políticos: quem tem o poder neste mundo? Quem detém a autoridade no mundo de hoje?

Um Poder Absoluto - Ana Glória Lucas

Além-Mar
Março, 2003

Excertos

São mais poderosas do que muitos Estados. As empresas multinacionais impõem as suas regras, sobretudo junto dos países pobres, escolhem os de mão-de-obra barata para montar as suas fábricas, poluem e exploram trabalhadores à medida dos seus interesses, sempre na lógica do lucro. E, cúmulo dos cúmulos, ainda se permitem algumas vezes exigir indemnizações a países que têm milhões de habitantes ameaçados de fome.
Comecemos por definir o que é uma empresa multinacional. Segundo o Centre Europe-Tiers Monde (Cetim), um organismo sedeado em Genebra e que actua como consultor das Nações Unidas, trata-se de “pessoas jurídicas de direito privado, com múltipla implantação territorial, mas com um centro único de decisão. (...) Desenvolvem a sua actividade na produção e nos serviços, praticamente em todas as esferas da actividade humana, e também na especulação financeira. E nestas três esferas actuam simultânea, sucessiva ou alternadamente”.
Mais adiante, no mesmo documento do Cetim, de Junho de 2002, pode ler-se: “As suas actividade abarcam diferentes territórios nacionais, variando com rapidez e relativa frequência os lugares em que estão implantadas, em função da sua estratégia baseada no objectivo do lucro máximo.” E, a seguir: “O carácter transnacional das suas actividades permite-lhes iludir o cumprimento das leis e regulamentos nacionais e normas internacionais que consideram desfavoráveis aos seus interesses”.
E, no objectivo de obter o máximo lucro, objectivo esse “que não admite nenhum obstáculo”, são frequentes as práticas que passam pela promoção de guerras de agressão e conflitos inter-étnicos para controlar os recursos naturais do planeta e favorecer a expansão e os lucros da indústria bélica”, “a violação dos direitos laborais e dos direitos humanos em geral” e “a degradação do meio ambiente”, para além da corrupção de funcionários para se apoderarem dos serviços públicos essenciais mediante privatizações fraudulentas e lesivas dos direitos dos utentes” e da “corrupção das elites políticas, intelectuais e dos dirigentes da sociedade civil”.
Neste documento, o Cetim chama a atenção - aliás já não pela primeira vez – para a “confusão entre poder económico e poder político”, nomeadamente no caso dos Estados Unidos, onde tem a sua sede a maioria das multinacionais mundiais, e recorda como já há quatro décadas o então presidente Dwight Eisenhower chamava a atenção para a influência nefasta que tinha sobre o Governo o “complexo militar-industrial”. E lembra como as três grandes figuras da actual administração George W. Bush, Dick Cheney e Colin Powell tinham antes os seus nomes ligados às indústrias petrolíferas e da aviação e comunicações.
O poder das multinacionais estende-se neste momento à própria Organização das Nações Unidas, que lhes abriu as portas através do denominado “Global Compact”, da qual fazem parte algumas das principais multinacionais mundiais, como a British Petroleum, a Shell, a Nike, a Nestlé e a Ciba-Geigy, para citar apenas algumas. A finalidade anunciada por Kofi Annan é a de corrigir os desequilíbrios da globalização, mas a verdade é que um pacto deste tipo acaba por se traduzir numa certa promiscuidade entre empresas e um organismo internacional como a ONU, que, de resto, já em 1993 suprimira organismos criados para manter um controlo sobre as actividades das multinacionais, especialmente na área social.
Calculam-se em 63 mil as empresas multinacionais com 690 mil filiais estrangeiras. Controlam dois terços de todo o comércio mundial e são mais poderosas do que muitos Estados, mesmo ricos. Por exemplo, o volume de vendas da General Motors (EUA) é superior ao produto interno bruto da Dinamarca, e o da Exxon-Mobil (EUA) supera o da Áustria. As 23 multinacionais mais poderosas vendem mais do que exportam países como o Brasil, a Indonésia ou o México.
Só que estes volumes de vendas raramente se traduzem em riqueza para os países onde as multinacionais estão implantadas. Veja-se como exemplo o caso da Bolívia. Hidrocarbonetos, telecomunicações, caminhos-de-ferro, transportes aéreos e electricidade estão nas mãos de multinacionais, que nos últimos cinco anos eliminaram 10 mil postos de trabalho. As reservas de gás natural são as segundas mais importantes da América Latina, avaliadas em 80 mil milhões de dólares. As exportações de gás só para o Brasil renderam às multinacionais algo como 5000 milhões de dólares em duas décadas, tendo o Estado boliviano recebido em impostos e outras regalias apenas 80 milhões de dólares.

Violações dos direitos

A área de actuação das multinacionais estende-se a todos os sectores da economia. Dos combustíveis à aviação, dos têxteis ao calçado, dos pesticidas à indústria automóvel, da indústria alimentar aos produtos de higiene, dos produtos farmacêuticos às telecomunicações e aos computadores, nada fica fora da alçada das multinacionais.
No que se refere aos trabalhadores, as multinacionais não são exactamente os melhores amigos destes. Numa contradição espantosa com os números que representam para a economia mundial, as multinacionais empregam apenas três por cento da força de trabalho mundial, preferindo muitos vezes os chamados países do Sul, onde a mão-de-obra é abundante e barata – mesmo que pouco qualificada.
De um modo geral, nos Estados que criam condições atraentes para a implantação das multinacionais, estas traduziram-se numa descida das condições laborais e dos direitos dos trabalhadores, com um aumento da precaridade dos postos de trabalho. E os despedimentos são frequentes para reduzir custos e tornar as empresas mais atraentes, seja para aquisição por outras seja para cotação nas bolsas.
Em muitos países, são as populações indígenas as que mais sofrem, vendo-se muitas vezes expulsas das suas terras – especialmente se estas forem ricas em recursos naturais a fim de facilitar a actividade das grandes empresas estrangeiras.
O meio ambiente também não está nas preocupações das multinacionais, que actuam indiferentes à contaminação ambiental que podem causar. Resíduos industriais poluentes ou resíduos médicos e hospitalares são muitas vezes largados em países do chamado Terceiro Mundo, sem qualquer respeito pelas populações que vivem nas proximidades. Talvez por todas estas razões as multinacionais tenham levantado tantas objecções à ideia da criação de um tribunal mundial para o ambiente, sugerida durante a Cimeira da Terra que se realizou em Joanesburgo, em Setembro de 2002.
A propósito, recorde-se aqui o de¬sastre que afectou a localidade indiana de Bhopal em Dezembro de 1984, quando uma fuga de gás tóxico numa fábrica de pesticidas da Union Carbide (EUA) provocou quase 15 mil mortos, no imediato e ao longo destes mais de 18 anos, e uma contaminação ambiental que se estendeu por um raio de 1,5 quilómetros.

Disputas judiciais

O mais irónico de tudo isto é que as multinacionais não hesitam em recorrer a processos jurídicos contra países, por mais pobres que sejam, quando sentem que os seus interesses estão em causa.
O caso mais recente e flagrante é talvez o da multinacional suíça Nestlé, que, em Dezembro de 2002, processou a Etiópia por uma nacionalização que remonta a 1975, exigindo-lhe uma indemnização de seis milhões de dólares. A Nestlé, que controla o mercado de café, é uma das 15 empresas mais rentáveis do planeta, tendo obtido em 1999 lucros da ordem dos 3000 milhões de dólares. Isto enquanto a Etiópia, que em 2002 não conseguiu mais de 175 milhões de dólares com as vendas do café, devido à descida do preço desta matéria-prima, atravessa de novo uma crise alimentar que ameaça de fome 12 milhões dos seus habitantes.
Em Fevereiro de 2002, a multinacional norte-americana Bechtel Corporation pediu uma indemnização de 25 milhões de dólares ao Governo boliviano, na sequência do cancelamento de um contrato de 40 anos para que a empresa Aguas del Tunari, uma subsidiária da Bechtel, fornecesse água à cidade de Cochabamba. O contrato foi cancelado após violentos protestos de rua dos habitantes locais contra o aumento considerável do preço da água que o contrato significou. Em 2000, o mesmo ano dos protestos, a Bechtel apresentou receitas da ordem dos 14.300 milhões de dólares.
Em Abril de 2001, nada menos de 39 multinacionais farmacêuticas processaram o Governo de Pretória por vender medicamentos genéricos contra a sida, num país onde há cerca de cinco milhões de infectados com o vírus. O processo acabou por ser retirado, na sequência de uma campanha internacional.
Ainda na África do Sul, mas num processo em sentido inverso, duas organizações não governamentais, a Khulumani e a Jubilee South Mrica, intentaram nos EUA uma acção contra empresas europeias e norte-americanas – entre elas a União de Bancos Suíços, a Exxon-Mobil e a IBM que, no passado, ajudaram o regime do apartheid no seu desrespeito pelos direitos humanos.

Código de conduta

É consensual entre os especialistas que as multinacionais precisam de adoptar uma atitude mais ética a fim de acabar com alguns dos males que parecem ser intrínsecos à sua actividade: corrupção, violações dos direitos humanos, contaminação ambiental....
Em 1999, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) lançou uma conven¬ção internacional contra as empresas que recorrem à corrupção para atingirem os seus objectivos, as quais ficam sujeitas a acções judiciais, e, no ano seguinte, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, concretizava a sua iniciativa “Global Compact”, a pretexto, como atrás se disse, de corrigir os desequilíbrios da globalização e de fazer respeitar princípios relativos a direitos humanos, normas de trabalho e meio ambiente. Simplesmente, não existem mecanismos para verificar se estes princípios são ou não respeitados.
Logo na altura ficou claro que não se tratava de um código de conduta para multinacionais, porque estas não aceitam submeter-se a nenhum. “Evidentemente que não podemos criar um código de conduta para as empresas. Isso seria uma missão impossível para a ONU”, disse na altura Georg Kell, director executivo do “Global Compact”.
Resta, assim, acreditar que as multinacionais possam algum dia vir a pensar em algo mais do que o lucro próprio.

Os donos do mundo - José Rebelo

Além-Mar
Março 2003

Excertos



As notícias de «deslocalização» de um par de grandes empresas agitaram o País. Os comentadores concordam em afirmar que outras lhes seguirão o exemplo e alguns acham até que fazem pouca falta, porque são especialistas em aproveitar fundos e regalias, mas contribuem pouco para o desenvolvimento. Em contrapartida, deixam atrás de si o drama humano de muitos trabalhadores atirados para o desemprego.
Numa intervenção indignada, o Presidente da República lembrou que «as pessoas não são números». Todavia, para as grandes corporações transnacionais, o que conta é o lucro e não as pessoas. Por isso, de modo geral, não se importam com a defesa dos direitos humanos, laborais, sociais e ambientais.
A título de exemplo, recorde-se que o Centro das Nações Unidas para as Corporações Transnacionais (UNCTC) revelou que metade dos gases responsáveis pelo efeito de estufa são produzidos pelas multinacionais, que também são responsáveis por muitos dos desastres ecológicos. O que têm para oferecer não é muito: apesar dos seus lucros fabulosos, dão emprego apenas a três por cento da mão-de-obra mundial.
Os chorudos proveitos obtidos pelas transnacionais são repartidos pelos seus gestores e accionistas. As nações que fornecem a força de trabalho e os recursos – geralmente do Terceiro Mundo – pouco ganham financeiramente e sofrem, de modo consistente, danos sociais, com a exploração desregrada dos trabalhadores.
Os salários dos seus empregados – a maior parte proveniente das zonas rurais – não chegam para pagar a alimentação, o alojamento, os transportes e as outras necessidades. Acabam nos bairros de lata das grandes cidades, onde não têm apoio familiar e social, e onde frequentemente falta água e saneamento básico, escolas e centros de saúde.
A Organização Mundial de Saúde estima que 1,1 mil milhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,4 não dispõem de uma instalação sanitária adequada. Apesar disso, está em curso um processo de privatização dos serviços de abastecimento de água e saneamento básico, que só contribuirá para o aumento da pobreza e das desigualdades. Quanto mais se alarga a esfera privada, mais se restringe a democracia, os direitos dos mais fracos e a sua capacidade de intervenção social.
Mas o poder destes gigantes privados é enorme. Pela sua influência sobre a produção agrícola, o comércio mundial (controlam dois terços), as finanças e mesmo a política. Em última instância, quem decide não são os governos dos diversos países, mas as eminências pardas que movem nos bastidores as suas poderosas e obscuras teias de interesses.
O seu sucesso baseia-se na habilidade para influenciar as políticas governamentais, conseguir os subsídios disponíveis e conquistar o apoio dos principais actores políticos e económicos. O caso mais paradigmático e perigoso é o dos Estados Unidos, onde os gigantes da energia e da defesa exercem um poderoso lobby sobre os membros da Administração Bush.
A tendência mundial para a liberalização dos serviços públicos, como a saúde, o saneamento e a educação, e de bens essenciais, como a água, a electricidade e o gás, é incentivada pelas multinacionais, que vêem neste sectores, tradicionalmente assegurados pelo Estado, uma nova árvore das patacas.
À medida que os Estados se retiram de sectores essenciais para o bem-estar das populações, as megacompanhias entram em cena. E a lógica é a que todos bem conhecemos: quem pode pagar fica bem servido, quem não pode é esquecido.
Como disse Jorge Sampaio, as pessoas não são coisas nem números. Parece evidente, menos para aqueles que reconhecem como único valor absoluto e único deus o lucro pelo lucro.

De neoliberais a neo-solidários - Diego Marani

Além-Mar
Outubro 2000
Excertos


Enrico Chiavacci, um dos teólogos italianos do nosso tempo que mais tem estudado as relações entre a moral cristã e a economia, afirma que «é preciso acabar com a distinção, tão cara nos ambientes católicos, entre liberalismo, que seria uma coisa boa, e capitalismo selvagem, a rejeitar. O capitalismo não pode ser senão selvagem, porque tende à maximização do lucro.»
E vai mais longe: «A teologia moral católica cingia-se, até ao Concílio Vaticano II, ao “não roubar”, único preceito de ética normativa em matéria de economia. Posso provocar dez milhões de mortos de fome deslocando capitais de um lado para o outro no mundo, mas não roubei; por isso, não cometi qualquer pecado. Para uma moral destas não há deveres de justiça para com o pobre. Esta não era, porém, a posição do Evangelho, dos padres da Igreja ou dos grandes teólogos medievais.»
Como se há-de comportar o cristão na economia? É uma pergunta que não diz respeito unicamente às relações Norte/Sul mas também às de cada pessoa nas sociedades ricas do Norte do mundo.
Não há dia em que não se fale de nova economia, o comportamento das bolsas ocupa grandes espaços nos órgãos de informação e condiciona a vida dos investidores. Mas será lícito a um cristão ganhar 100, 50 ou até dez por cento ao ano através dos jogos da bolsa, em acções ou fundos de investimento? Será um problema moral entrar no jogo da bolsa? Perguntas que poucos têm a coragem de se colocar. E ainda menos aqueles que lhe ousam responder.
«A responsabilidade da teologia católica consiste em não ter prescrito um certo número de disposições morais, deixando ao arbítrio de cada um todo o espaço que se segue à compra legítima da propriedade privada.»

Idolatria do mercado

Que relação existe entre globalização, prosperidade e riqueza no Norte, exclusão e pobreza no Sul? A resposta de Chiavacci é trágica, mas sem rodeios: «Hoje o sistema económico global prospera com a fractura entre o Norte e o Sul. Tende a conservá-la onde já existe e, até, a provocá-la.» Porque o sistema mundial do capital, hoje conhecido também por globalização, «não está interessado em satisfazer as necessidades básicas para o desenvolvimento humano, mas unicamente aquelas necessidades ou desejos cuja satisfação fomenta o lucro». Portanto, nesta lógica, seria normal para um cristão não se interrogar para saber aonde vão acabar as suas poupanças, o importante é que elas rendam. Porque «ao sistema não interessa o que é produzido com o capital investido, mas apenas o lucro que se pode obter com o investimento: armas ou remédios, droga ou escolas, poluindo ou não poluindo, criando emprego ou desemprego (antes, cada vez mais se investe para criar desemprego, aumentando assim os lucros!) são opções que deixam o investidor perfeitamente indiferente».
Alain Durand, director da DIAL, agência de notícias sobre a América Latina com sede em Lião (França), publicou um artigo intitulado «Para uma prática cristã da globalização» na revista Foi et Développement, onde afirmava: «A palavra de Deus pode ajudar-nos a compreender que a globalização de hoje se encontra desvirtuada pelo mundo neoliberal onde prospera. Somos convidados a passar da globalização neoliberal para a solidária.»
Senão, contribuímos para criar pobreza e marginalização em todo o mundo.
E a globalização — «religião» económica neoliberalista legitimada por uma política neoliberal — «tem uma grande responsabilidade neste aumento do número de pobres e de crescimento das desigualdades».
Neste mercado mundial que não dá prioridade às necessidades básicas, que não cuida das suas vítimas a criação de riquezas parece ter como única finalidade a perpetuação da produção: o consumo de todos para o lucro de poucos como norma moral universal.
A melhor e mais segura forma de amar o nosso próximo seria portanto esta: «Viver como egoísta no livre mercado global.»
Chiavacci diria mais: «Não apenas a riqueza, mas o enriquecimento constante como fim em si mesmo tornou-se o novo ídolo, o novo ideal de vida nos países ricos. Estamos diante do vitelo de ouro, que tem de se adorar, ao qual todos os outros valores humanos e até religiosos têm de inclinar-se. Mas este biombo esconde a visão clara desta hora dramática de uma idolatria triunfante e torna-nos cúmplices dela; talvez inconscientemente, mas não isentos de culpa.»

Eles empobrecidos, nós desumanos

Esta idolatria do mercado transforma os seus fiéis em consumidores. «O lugar sagrado onde os consumidores vivem com mais intensidade esta religiosidade do mercado são os centros comerciais», explica Jung Mo Sung, teólogo coreano emigrado ainda novo para o Brasil, autor de algumas obras que denunciam o deus oculto do capitalismo, porque «ao mercado são atribuídas todas as características de um Deus» e, para a Vulgata neoliberal, «o mercado é a fonte da vida, lugar onde a vida é produzida e reproduzida».
«Também nós, países ricos, estamos ameaçados por um desenvolvimento desumanizante», recorda Chiavacci. «A lógica económica dominante tornou-se já a lógica global de uma “boa vida”: um modelo cultural profundamente inserido na mentalidade do Norte. A lógica que torna famintos três quartos da humanidade é a mesma que está a desumanizar o outro quarto mais rico.» Perda do sentido da vida, de relações afectivas gratificantes, de contacto profundo com a natureza, perda da capacidade de se sentir próximo de si próprios, dos outros, da criação, de Deus. Perda do relacionamento, mascarado com a solidão da hipercomunicação tecnológica do telemóvel e da Internet; anestesiado pelo papel de meros repetidores do monólogo colectivo a que a televisão, em primeiro lugar, nos reduziu; fomentado pela vulgarização ocidental de tantos negócios da nova era: desde a psicoterapia ao ioga, das clínicas de beleza às drogas mais ou menos sintéticas e às realidades mais ou menos virtuais.
Os que pertencem às classes médias do Norte rico — explica Mo Sung —, «quando se sentem deprimidos e o seu humanismo se corrompeu pelas contradições da vida, vão ao seu templo/centro comercial, onde, comprando, se sentem mais humanos e animados. Em contacto com a nova sacralidade, as pessoas sentem-se fortificadas e aptas a enfrentar a realidade quotidiana, feita de competição e de concorrência». A palavra de ordem «melhor relação qualidade/preço» tornou-se um dogma, capaz de dar sentido à nossa ânsia de consumo.
Não obstante tudo isto, há uma porta de saída para aquilo que só na aparência é a única realidade e o único pensamento: «Colocar no coração do sistema o espírito de solidariedade, em vez do espírito de concorrência.»
Durand encontra-se também em sintonia com Jung Mo Sung quando afirma que este «sistema económico de produção é indefinido e incontrolado, reabsorve e reutiliza constantemente o tempo e as energias que o progresso da produtividade liberta, a fim de se poder ocupar também de outras coisas» e, por isso, «é urgente na nossa sociedade dar lugar a realidades como o rosto do outro, a palavra, o dom, o perdão, a criatividade, a festa».

quarta-feira, 27 de junho de 2007

No país de Iqbal - Jacques Vénuleth

Jacques Vénuleth
Au pays d’Iqbal
Paris, Ed. Magnard, 2001
tradução


Para todas aquelas crianças
que trabalham sem ter idade,
em qualquer parte do mundo.


1


— Feliz aniversário, querido!
Kevin sopra as velas. Apaga-as de uma só vez. À volta dele, pais e amigos gritam e aplaudem.
Kevin pode agora abrir os presentes. Gosta particularmente deste momento, em que pode rasgar o papel dos embrulhos.
Estragam-no com mimos. Como sempre acontece todos os anos.
Começa pelos sobrescritos que contêm dinheiro, mas o que mais gosta de abrir são, é claro, os presentes de verdade.
Dos três embrulhos, Kevin já percebeu qual é o melhor, aquele por que está à espera. Guarda-o para o fim.
— Uau, é tão bonita! — exclama.
Exactamente o que ele queria: uma bola de couro, cosida. Uma bola de jogador profissional, azul e branca, ainda mais lisa e brilhante do que nos sonhos.
Tira-a da caixa, segurando-a com a ponta dos dedos, como se fosse de açúcar.
Kevin queria uma bola, porque Laurent, o seu vizinho, tem uma e nunca quer emprestá-la por muito tempo. No entanto, é muito menos bonita.
Quando jogam na praceta em frente às vivendas, sempre que Laurent começa a perder encontra um pretexto para se zangar. Pega na bola e vai-se embora. E, claro, o jogo acaba. É irritante.
De futuro, nunca mais ninguém poderá interromper a partida enquanto Kevin quiser continuar a jogar; nunca mais ninguém poderá suspendê-la contra a sua vontade.
Nunca se sentira tão feliz.
— Dá cá! — pede o pai, estendendo as mãos.
É a sua vez de agarrar na bola. Acaricia-a, fá-la saltar, que vontade de lhe dar uns bons chutos!
— Dá-ma — atalha rapidamente Kevin, que sabe o pai que tem. Quando este segura uma bola nas mãos, torna-se uma autêntica criança. É capaz de a estragar sem querer.
— Se querem jogar, vão para o jardim!
A mãe conhece-os bem, e já começa a recear pelos móveis e adornos.
Kevin não espera que lhe digam duas vezes e desata a fugir com o seu presente.
Nem sequer espera até chegar ao relvado. Ainda vai a meio do terraço e já quer experimentar a bola. Lança-a ao chão e estende as mãos para a apanhar…
Mas não apanha nada! As mãos estendidas ficam vazias. A bola não saltou.
Estatelou-se como uma goma sobre a tijoleira. Não voltou a mexer-se, ficou como que colada e mole. Dir-se-ia um marshmallow.
Espantado, Kevin baixa-se para pegar no seu tesouro. Espantado, mas não inquieto.
Esta bola não pode ser de má qualidade. Foi ele, Kevin, que a atirou mal… Ou então é a tijoleira do terraço que está pegajosa, provavelmente cheia de compota. Seja como for, tratou-se de um acidente que não voltará a acontecer.
Kevin limpa a bola e dá-lhe lustro. Observa-lhe discretamente todas as costuras mas, nada, está tudo perfeito.
A bola precisa é de erva. No relvado vai renascer.
Kevin afasta-se da casa e espera o momento de chegar a meio do relvado para atirar ao ar o seu brinquedo.
Lança a bola para o céu, o mais alto que lhe é possível. Orgulhosamente, vê-a descer, lisa, brilhante, azul e branca, bela.
Vê-a descer… e abater-se sobre aquele tapete de relva tão suave, sem o menor desejo de saltar e de se divertir.
Não há dúvida, esta bola tem algum defeito, há algo que não bate certo.

2
— Então! Não chores! É porque a bola não está suficientemente cheia. Acontece muitas vezes quando são novas.
Kevin tinha ido contar ao pai a sua desdita. Apesar dos esforços para se conter, os olhos estão cheios de lágrimas.
O pai enterra os fortes polegares no couro, que cede facilmente.
— O que é que eu dizia! Anda, vamos arranjar isto!
Kevin assoa-se e vai com o pai até à garagem. Está cabisbaixo, ainda não sorri, mas já recuperou a esperança.
O pai de Kevin é habilidoso. Na garagem, penduradas na parede ou guardadas numa gaveta, há ferramentas que permitem consertar tudo o que não funciona bem à face da terra.
— Não mexas! Sei que há uma bomba de ar em qualquer lado… Cá está, nesta caixa…
Introduz um tubo fino como uma agulha na bomba de ar e, com firmeza, segura a bola recalcitrante entre os joelhos. E depressa lhe devolve a boa cara que ela nunca deveria ter perdido.
— Anda, apanha-a, se fores capaz!
A porta da garagem abre para o jardim. O pai lança a bola com tanta força que esta devia saltar até à parede do fundo. Kevin corre atrás dela, a rir-se…
Mas não por muito tempo!
Cheia ou não, a bonita bola deixa-se ficar na relva, após dois ou três saltos ofegantes. Não chegará nunca à parede do fundo.
Mais uma vez a esperança morreu nos olhos de Kevin.
— Tens razão — constata o pai — algum defeito há-de ter, na verdade. Talvez um problema no couro, não compreendo… Guardei o talão de compra. Amanhã vamos à loja para a trocarmos, não te preocupes!
Kevin encolhe os ombros: — Amanhã, amanhã!
Não está preocupado, mas a festa, o seu aniversário é hoje, não amanhã! Com um pontapé furioso, atira aquele trapo mole para um canto, já que de nada serve.
Kevin decide esquecê-la. Afinal, tem outros brinquedos, brinquedos de verdade que gostam de se divertir, brinquedos de confiança.
Chegada a noite, ainda se sente tão zangado que continua a não querer ocupar-se daquele brinquedo tão decepcionante.
— Pode dormir lá fora, é o que merece.
Mas o pai não está de acordo.
— Não, não, Kevin. Vai buscá-la e guarda-a. Se a perderes
ou estragares, já não podes trocá-la.
É verdade. Kevin reconhece-o. O pai tem razão.
Vai buscar a bola. Empurra-a com o pé até ao terraço, como se fosse uma velha lata de conserva, depois pega nela sem qualquer cuidado. À entrada do quarto está o cesto da roupa suja. Atira-a lá para dentro.
— Dorme bem! — ironiza.
De agora em diante só quer esquecê-la, mas sente-se tão irritado que não é capaz de o fazer. Antes de se deitar, não consegue deixar de se virar uma vez mais para o cesto, onde a deixou:
— Não se admite o que fizeste, não se admite. No teu lugar, escondia-me. Não tens o direito de ser tão bonita, de brilhar, para depois não servires para nada quando contamos contigo. Não tens o direito de te esvaziares dessa maneira… Uma idiota, é o que tu és! Detesto-te!... Ainda bem que não te mostrei aos meus colegas. Que vergonha!... Mas não faz mal, não perdes pela demora. Amanhã vais voltar para de onde vieste, e nunca mais quero ouvir falar de ti!
Mais calmo depois destas duras palavras, Kevin deita-se e apaga a luz. Está tão cansado que adormeceria bem depressa se, por detrás dele, um estranho barulho se não fizesse ouvir.

3

Um estranho barulho, na verdade, como o de alguém a fungar, como o soluço abafado de uma criança. No meio da escuridão, Kevin ergue-se e aguça o ouvido.
— És mau! — escuta distintamente.
Desorientado, volta a acender a luz da mesa-de-cabeceira:
— Quem foi que falou, quem? — pergunta Kevin, cada vez mais inquieto.
— Aqui! — decide-se a dizer a voz misteriosa. — Aqui! Na tua bola!
De facto, a voz parece sair do cesto da roupa suja.
Kevin senta-se na beira da cama, virado para o cesto, sem se atrever a aproximar-se. É impossível, não consegue acreditar.
— Uma bola não fala! Uma bola não tem boca!
— Uma bola também não tem ouvidos e, no entanto, dirigiste-me a palavra, deste-me uma lição de moral durante um quarto de hora! Verdade ou mentira? Julgo até que me chamaste “idiota”…
— Escapou-me…
— Bem vês que não é assim tão simples.
Com os olhos encarquilhados e a boca aberta, quase sem respirar, Kevin fixa o recipiente.
— Vá, não fiques assim. Vou explicar-te. Mas, por favor, tira-me deste cesto de roupa suja.
Kevin obedece como um autómato. Aproxima-se e levanta a tampa. É de facto a bola que está lá dentro, a própria bola. Pega nela cautelosamente, com as pontas dos dedos mas, desta vez, é por ter medo dela. Com os braços esticados, leva-a até à cama e pousa-a em cima do colchão.
— Pára lá com essas fitas! Anda ajudar-me! — impacienta-se a voz.
Kevin dá um enorme grito, porque a voz já não vem de dentro da bola.
Um rapazinho da sua idade esforça-se por sair pelo minúsculo orifício da válvula. Já libertou a cabeça e os ombros.
Com as duas mãos apoiadas no couro, tenta soltar o resto do corpo, e é a voz dele que se ouve.
Kevin esconde o rosto. Já nem se atreve a olhar.
— Não! É demais! Vim parar à casa do rei dos medricas, ou quê? Anda ajudar-me, já te disse! Acho que fiquei preso.
Kevin ainda tem medo, mas sente-se envergonhado. Não pode continuar a tremer. Faz um esforço para se aproximar.
É verdade que o rapaz não é nenhum monstro. Com os cabelos muito negros e muito lisos colados à testa, é parecido com qualquer outra criança.
Kevin agarra a bola, segura nela com firmeza para a impedir de deslizar para os lados, enquanto o seu estranho visitante faz cada vez mais força com os braços.
— Assim, isso! Aguenta!
Faz tanta força que se liberta num rompante, de uma forma tão brusca como a rolha de uma garrafa de champanhe. Depois de um enorme trambolhão, dá consigo sentado, de costas contra a parede, a um canto do quarto.
Ri-se. Os dentes reluzem-lhe no rosto tisnado.
Kevin ri também. O medo desaparecera. O coração continua a bater-lhe acelerado, mas por causa do esforço e da emoção.
— É um caso sério sair de lá de dentro. Ainda bem que me ajudaste, se não, ainda lá estava.
Kevin encolheu os ombros. Concorda, sente-se até orgulhoso, mas nem sabe o que dizer. Não se pode falar tranquilamente, como se nada fosse, com alguém saído não se sabe de onde. Antes de mais, Kevin precisa de algumas explicações.
O rapaz compreende.
— Queres saber como cheguei até aqui? É normal! Vou explicar-te, conforme prometi.
Levanta-se e alisa a roupa amarrotada: uma longa túnica, uma espécie de camisa de noite. Satisfeito, senta-se confortavelmente com as pernas cruzadas, em cima da alcatifa. Kevin instala-se a seu lado, com as costas apoiadas na beira da cama.
Para começar, o rapaz apresenta-se:
— Chamo-me Iqbal… Tu, chamas-te Kevin. Ouvi o teu pai chamar-te assim.
— Ouvias tudo dentro da bola?
— Claro!
— E… (Kevin lembra-se dos seus pontapés furiosos) também sentias tudo? Devo ter-te magoado! Desculpa.
— Não te preocupes, já vi outras coisas bem piores no local onde trabalho! Aliás, foi por isso que fugi.
— Trabalhar… Fugir… Continuo sem perceber! Antes de mais, diz-me de onde vens.
— Venho de muito longe. Venho do país onde se fazem as bolas.

4

Kevin, que se instalara sensatamente junto do seu convidado, levanta-se de um salto, furioso:
— Estás a exagerar! Do país onde se fazem as bolas? Tretas! Julgas, se calhar, que na minha idade ainda acredito em contos como o da Branca de Neve e os sete anões? Que ainda acredito naqueles países extraordinários onde se diz que seres minúsculos fabricam os nossos objectos quotidianos? Obrigado, mas já passei a idade dessas tolices! Ando na escola e sei que os objectos são feitos em fábricas por máquinas e até por robots… Não tentes baralhar-me!
— Mas eu não estou a tentar baralhar-te. Juro que estou a dizer a verdade: as bolas como esta são quase todas fabricadas no meu país, um país de verdade. Os bocados são unidos com um fio e uma agulha enorme por crianças da minha idade. No que me diz respeito, não os contei, mas devo ter cosido seguramente uns milhares.
— Ah, bem… Desculpa, é que não gosto que me tomem por um imbecil.
Kevin acalma-se. Senta-se e repete:
— Desculpa! Explica-me agora porque razão fugiste e, principalmente, como.
— Porquê, é fácil de explicar. Mas como foi, já te previno, não é nada fácil. Nem eu consegui ainda perceber!
— Se não percebeste, então quero ouvir o que tens a dizer-me. Conta.
— Foi certamente por influência da minha avó. Ela é extraordinária! É velha, velha, e conhece coisas que tu nem imaginas… Olha, estamos aqui os dois a conversar, como se falássemos a mesma língua!... tenho a certeza de que se deve a ela.
— Estranho, de facto… Mas fala-me da tua avó!
— Ela ficou cega mas, com as mãos, continua a fazer milagres. Cura as queimaduras, afasta o mal. As pessoas vêm vê-la de muito longe, pagam para falar com ela… Gosto de me sentar à beira da minha avó, embora ela às vezes me assuste. Costumava dizer:
— Sinto o infortúnio pairar sobre ti! Tem cuidado.
Um dia, acrescentou:
— Ouve, se alguém quiser fazer-te mal, pronuncia esta palavra, só esta palavra, e serás salvo.
Advertiu-me com um ar tão trágico que a palavra ficou logo gravada na minha memória.
— Serviste-te dela porque queriam matar-te? Foi isso, não foi? — diz Kevin de imediato, impressionado com a história.
— De certo modo… O dono da oficina onde cosemos as bolas batia-me cada vez mais.
— Porque é que te batia?
— Apercebi-me de que ele era um ladrão… Tinha emprestado dinheiro ao meu pai, e o meu trabalho seria para o ajudar a reembolsá-lo. Trabalhava até rebentar e o meu pai também, mas a dívida não diminuía. Havia um ardil por detrás, ele era um ladrão.
— O patife!
— Dizes bem. Da primeira vez que quis protestar, começou a dar-me murros… Uma noite, vinguei-me, inundei-lhe o stock, os caixotes prontos para partir para todos os países do mundo.
— Bem feito!
— Talvez, mas ele ficou louco. Agarrou num pau enorme e atirou-se a mim. Senti muito medo e escondi a cabeça entre os braços. Pensei logo na minha avó, porque ela sempre me defendeu. Sem mesmo reflectir, a palavra que me tinha ensinado veio-me aos lábios. Gritei-a…
— E então?
— E então, vi-me em tua casa, dentro desta bola, e não era nada agradável: davas-me grandes pontapés na cabeça, porque eu não saltava — concluiu Iqbal a rir.
— Pára com isso! Tiveste muita sorte, ele podia ter-te matado!... Que palavra extraordinária é essa?
— Não é extraordinária, até nem quer dizer nada, a minha avó inventou-a com toda a certeza: Shabatsé.
Iqbal já tinha pronunciado a palavra quando se apercebeu que não o devia ter feito. E Kevin repete:
— Shabatsé, é bonito, talvez que…
Não chega a terminar a frase. Torna-se de repente muito leve, começa a flutuar, a baloiçar. E grita:
— Iqbal!
Demasiado tarde. E imediatamente a seguir ao seu amigo, Kevin é aspirado para o interior da bola.

5
— Onde estamos? O que se passou?
Kevin sente medo, tem vontade de chorar.
— Regressámos à minha oficina — responde Iqbal. — Que horror!
Estão sentados no chão de cimento de uma divisão sombria, húmida e suja. À volta deles amontoam-se peles. É o couro que serve para fabricar as bolas. Cheira mal.
— Shabatsé! Shabatsé! Shabatsé! — grita Kevin, desesperado.
— Não te canses! — advertiu Iqbal. — Já tentei, mas parece que a palavra perdeu todo o seu poder.
Kevin lança-se contra a porta… Está fechada à chave pelo lado de fora.
— O que é que nos vai acontecer? Não pedi para vir até cá! — gritou Kevin.
— Ninguém pediu para vir!
Não foi Iqbal quem respondeu. A pessoa que respondeu foi um rapaz ainda mais novo. Está de pé, ao lado de Kevin. Tem olhos grandes, muito tristes, mas sorri.
Não é o único a ter-se levantado e aproximado. Três, cinco, oito crianças mais rodeiam Iqbal, o recém-chegado, e o seu misterioso companheiro.
— De onde saíram? — inquieta-se Kevin.
— Trabalham comigo.
— E vivem aqui? Dormem aqui? Como é que fazem? Há ratos, não?
— Habituamo-nos. Os ratos não fazem mal.
— É nojento. O vosso patrão merece ser preso.
Ninguém se dá ao trabalho de concordar.
— E agora, o que vamos fazer?
Kevin mudou de tom. Começou a perceber. Já não se inquieta apenas por si próprio, mas por todas as crianças que o acaso apanhou numa armadilha, naquele buraco pestilento.
Iqbal queria responder, mas não teve tempo: a chave gira na fechadura enferrujada da única porta. Em pânico, as crianças desaparecem. Voltam a deitar-se e fingem que estão a dormir. O próprio Iqbal foge também, mas regressa; não tem o direito de abandonar Kevin.
O homem que entra é enorme, um brutamontes. Os olhos são tão frios como balas de espingarda:
— Ah! Estás aqui! Sempre voltaste! Onde te meteste? Não perdes nada pela demora!
Está prestes a lançar-se sobre Iqbal, quando de repente se imobiliza:
— E este, quem é?
Descobrira Kevin e compreendera que pertencia a um outro mundo.
— É meu amigo — murmura Iqbal.
— Teu amigo… Teu amigo…
O homem hesita. Hesita, tanto mais que Kevin já não é o mesmo. Não só tinha deixado de tremer como é ele agora quem ataca:
— Devia ter vergonha! O meu professor falou-nos de pessoas como você, mas eu não acreditava! Vou contar-lhe tudo e havemos de escrever ao ministro, ao presidente da República, ao vosso chefe de Estado! Vai pagar caro!
O homem de olhos cruéis hesitou apenas um instante. Desata a rir.
— Estrangeiro imbecil! Não vais contar a tua história a ninguém. Não voltarás a sair daqui. Vou reduzir-te a picado e hás-de ser comido pelos ratos.
Com uma só mão, agarra Kevin pelos colarinhos, levanta-o como se fosse uma palha e encosta-o à parede. Levanta a outra mão, fecha o punho, ganha o impulso necessário... Vai cumprir a ameaça, mas pára no último instante.
Volta-se, sem largar Kevin: o seu instinto de animal selvagem advertiu-o de que havia perigo nas suas costas.
Está cercado por um bando de crianças amotinadas, encurralado contra a parede.
Como seria de esperar, Iqbal e os companheiros encontram-se na primeira linha, mas os restantes vieram em socorro deles. São já trinta, quarenta, em filas cerradas, e cada vez chega mais gente. Empunham o seu instrumento de trabalho, uma temível agulha, tão afiada como um punhal. Mas mais inquietante ainda é o brilho dos seus olhos.
O homem nunca levará a melhor. Sabe-o bem, apesar da sua tacanhez. Pode varrer a primeira fila e, depois, a segunda. Como soldados prontos para o sacrifício, outros tomarão a vez. Mais cedo ou mais tarde será derrotado.
Para poder ver-se livre deles, prefere render-se.
Esquece Kevin, e levanta os braços.

6

As crianças não dão nenhuma hipótese ao seu carrasco.
Com a resistente corda que serve para coser as bolas, prendem-no de imediato e abandonam-no. Agora é cada um por si: todos se dispersam e fogem.
— Vamos ter com a minha avó. Só ela pode ajudar-te a regressar a casa — garante Iqbal a Kevin.
Para deixarem aquela cidade gigantesca, têm de caminhar durante horas antes de chegarem aos primeiros campos, sulcados por uma rede de irrigação.
Algumas frágeis barracas de madeira aninham-se no cruzamento de dois caminhos perdidos.
— É ali — declara Iqbal.
Indica-lhe uma das casas.
Entram na divisão única, sem ninguém, já que naquela altura a família está a trabalhar no campo.
A avó de Iqbal está sentada bem longe da entrada, no meio de um amontoado de tapetes.
— Estava à vossa espera! — afirma. — Aproximem-se, para eu vos ver melhor.
Para poder ver melhor, tal como diz, acaricia o rosto das crianças com as suas velhas mãos cheias de suavidade.
— Meu Deus, estão exaustos! Dá-lhe de beber! Recebe o teu amigo como deve ser.
Sobre uma braseira acesa algures, a água ferve. Iqbal prepara o chá. Serve-o a Kevin com toda a cerimónia.
— Sabes, avó, o homem quis matar Kevin. É preciso castigá-lo. Vais…
— Chiu!
A avó põe um dedo nos lábios. Pede a Iqbal que se cale, antes de continuar:
— Kevin, meu filho… Chamas-te Kevin, não é verdade? Não estou enganada? Descansa primeiro, restabelece-te de tantas emoções. Em seguida, quando estiveres preparado, pronuncia esta palavra: Namasté e voltarás para o teu quarto.
Kevin não se apressa. Acaba o chá, bate na mão de Iqbal, prometendo que tentará vê-lo de novo, embora não saiba como, pronuncia a fórmula e desaparece.

7
— Kevin! Kevin!
Kevin senta-se na cama, acordado em sobressalto pelo pai. Dormira toda a manhã.
— Levanta-te. A bola espera-te lá fora. Já não tem nada, salta como um cabrito.
— Que bola?...
Com os cabelos despenteados e os olhos pesados de sono, Kevin tem o ar de quem veio de outro planeta.
— Sabes? A tua bola supostamente estragada… Tive tempo de ir à loja. Está impecável. Devemos ter sonhado… Mas o vendedor tranquilizou-me. Tem havido ultimamente muitos problemas, muitas coisas estranhas a acontecer com estes produtos fabricados não se sabe onde… Até me falou de um punching-ball que acabou de receber. Sabes, aqueles grandes sacos de couro com que os boxeurs se treinam. Sempre que alguém lhes dá um soco, tem-se a impressão de que o saco chora e geme! Como se alguém estivesse fechado lá dentro! É estranho, não é?



A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho - Jean Ziegler

Jean Ziegler
A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho
Petrópolis, Editora Vozes, 2002
Excertos adaptados


— Quantas pessoas no mundo estão actualmente ameaçadas de morrer de fome?
— A FAO (Food and Agricultural Organization), Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas, avalia, no seu último relatório, em mais de 30 milhões o número de pessoas que morreram de fome em 1999 e, para o mesmo período, em mais de 828 milhões de seres torturados pela desnutrição grave e permanente. São homens, mulheres e crianças que, devido à falta de alimentos, padecem de lesões frequentemente irreversíveis. Ou então morrem num prazo mais ou menos breve, ou vegetam num estado de deficiência grave – cegueira, raquitismo, desenvolvimento precário da capacidade cerebral, etc.
Tomemos o exemplo da cegueira: cada ano, sete milhões de pessoas, normalmente crianças, perdem a vista, na maioria das vezes por falta de uma alimentação suficiente ou como consequência de enfermidades vinculadas ao subdesenvolvimento. Cento e quarenta e seis milhões de cegos vivem nos países da África, da Ásia e da América Latina. Em 1999, Gore Brundtland, directora da Organização Mundial da Saúde, ao apresentar o seu plano “Visão 2020” em Genebra, disse: Oitenta por cento dos afectados na vista seriam perfeitamente evitáveis. Sobretudo por meio de uma dose regular de vitamina A para as crianças pequenas. Em 1990, havia 822 milhões de pessoas severamente afectadas pelo flagelo da fome. Podemos ler de duas maneiras estas estatísticas. Primeira leitura: as vítimas da subalimentação aumentam sem cessar no mundo, especialmente nos países do Sul; mas se comparamos os mártires do flagelo da fome com a progressão demográfica da população mundial, constatamos um ligeiro retrocesso. Em 1990, 20% da humanidade sofria de subalimentação extrema; oito anos depois, “só” 19%.
— Onde vivem as pessoas mais gravemente subalimentadas?
— No sul e leste da Ásia, 18% dos homens, mulheres e crianças padecem de uma severa desnutrição. Na África, o seu número alcança 35% da população continental. Na América Latina e no Caribe, 14%. As três quartas partes dos “gravemente subalimentados” do planeta são gente do campo; a outra quarta parte são habitantes das periferias que se amontoam em torno das megalópoles do Terceiro Mundo.
— A nossa Terra poderia alimentar convenientemente e cada dia todos os seus habitantes?
— Não só isso, mas poderia alimentar pelo menos o dobro da população mundial actual. Hoje em dia somos quase seis biliões de seres humanos na Terra. A FAO, há mais de quinze anos, elaborou um relatório no qual assinalava que o mundo, no estado actual das forcas de produção agrícola, poderia alimentar sem problema mais de doze biliões de seres humanos. Alimentar quer dizer fornecer a cada homem, mulher e criança uma ração equivalente a 2400 ou 2700 calorias diárias, uma vez que as necessidades alimentares variam segundo os indivíduos, em função do trabalho que realizam e das zonas climáticas onde vivem.
— O flagelo da fome não é então uma fatalidade?
— De modo algum. Se a distribuição de alimentos na Terra fosse justa, haveria comida suficiente para todo o mundo.
— Por que razão nunca ninguém nos fala na escola da fome no mundo e das pessoas que a provocam e daquelas que a combatem?
— Para mim, isso também é um mistério. Muitos professores de institutos e de escolas são pessoas abertas, generosas e estão profundamente solidarizadas com a luta dos povos do Terceiro Mundo. Muitos deles alertam os seus alunos quando se declara uma fome grave e promovem-se colectas públicas. No entanto, não sei de nenhuma escola onde o tema da fome, que mata todos os dias mais gente do que todas as guerras do planeta juntas, figure no seu programa. Não existe nenhum tipo de ensino onde se analise, se discuta o problema da fome, se examinem as suas raízes e os meios de lhe dar um fim.
Mas os técnicos internacionais dizem as coisas bem claras. Ouve, por exemplo, esta frase que é a conclusão de um relatório da FAO de 1998: Recent trends give no room for complacency as progress in some regions has been more than offset by a deterioration in others. (Os últimos dados não permitem contemplações, uma vez que o progresso numas regiões tem sido anulado pela deterioração noutras.) Isto quer dizer que as batalhas ganhas numa frente são imediatamente anuladas pelas derrotas sofridas noutra.
Os bons sentimentos não bastam, são um luxo para os filhos dos ricos. A calamidade da fome manifesta-se de mil maneiras. O seu aparecimento e os seus efeitos exigem análises precisas e pormenorizadas. Mas a escola não diz nada, não cumpre a sua função. Os adolescentes frequentemente saem dela cheios de bons sentimentos e de uma vaga convicção de solidariedade, mas nunca com um verdadeiro conhecimento, uma clara consciência das origens e dos estragos da fome.
— Como se a fome fosse um tabu?
— Exactamente. Um tabu que dura há muito tempo. Já em 1952 o brasileiro Josué de Castro dedicava todo um capítulo do seu célebre livro Geopolítica da fome a esse “tabu da fome”. A sua explicação é interessante: as pessoas sentem-se tão envergonhadas por saber que uma grande parte dos seus semelhantes morrem por falta de alimento, que ocultam o escândalo com um espesso silêncio. Esta vergonha é compartilhada pela escola, pelos governos e pela maioria de nós.
O nível de alimentação está em relação directa com o nível de bem-estar e com o nível de saúde das pessoas. Por um lado, onde não se come o suficiente, encontramos pobreza, miséria, desnutrição, doença, fome e morte. Por outro, no extremo oposto, onde há meios de subsistência e alimentos, encontramos esperança desde o nascimento, saúde e vida.
Já no ventre da mãe, o bebé sofre as consequências desta desigualdade, inclusivamente na constituição de seu intelecto. A desnutrição da mãe durante a gestação – quando o bebé deve desenvolver o conjunto de células que o constituirão como um ser dotado de todas as suas faculdades – diminui as possibilidades de que a criança nasça, pois a placenta – alimento, água, oxigénio e anticorpos do bebé instalado no útero – não escapa aos danos causados pelas carências de alimentação. A mãe deve nutrir-se convenientemente desde a formação do embrião.
A constituição física e intelectual da criança, a sua capacidade de desenvolvimento e a sua força para o trabalho também dependem da alimentação que vai receber desde o momento do seu nascimento. A criança chega ao mundo num ambiente condicionado: ou com muitos privilégios ou com muitas privações. Nos primeiros anos da história da humanidade, o mundo era aquele no qual o macho mais forte se apropriava da comida da qual necessitavam a mulher e a criança. Hoje, a história não mudou em absoluto, porque os poderosos continuam apropriando-se da comida.
— Por quê esses esqueletos da fome? Por quê esse martírio quotidiano, interminável, para tantas centenas de milhões de seres humanos?
— A causa principal das hecatombes por subalimentação e por fome aguda é a desigual distribuição das riquezas do nosso planeta. Esta desigualdade é negativamente dinâmica: os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Em 1960, 20% dos habitantes mais ricos do mundo desfrutavam de uma renda 3 1 vezes superior à dos 20% mais pobres. Em 1998, o rendimento dos 20% mais ricos é 83 vezes superior à dos 20% mais pobres.
A concentração do rendimento e das riquezas nas mãos de uns poucos progride a grande velocidade.
O conceito de desigualdade soa-nos irreal e o seu significado é insuficiente. O termo aparece num mundo que já não se assusta com as estatísticas. As cifras acima citadas escondem uma realidade de sofrimento e de desespero. A desigualdade negativamente dinâmica que rege a ordem actual do mundo produz a seguinte situação: por um lado, um poder político, económico, ideológico, científico e militar sem limites identificáveis, exercido por uma escassa oligarquia transnacional; por outro, a falta de vida, o desespero e o flagelo da fome vividos por centenas de milhões de seres anónimos. A oligarquia decide o destino da multidão. A massa de vítimas anónimas padece, impotente, a sua própria agonia. Só a brutal imbecilidade de um regime de classes sociais existentes antes do seu nascimento, de ideologias discriminatórias, de privilégios defendidos pela violência explica a desigualdade entre os seres humanos.
A política deve velar para que todos possam saciar a fome. Seria horrível tomarmos como natural o facto de todos os anos morrerem dezenas de milhões de pessoas por causa da subalimentação crónica e da fome aguda. A fatalidade não preside à ordem mortal do mundo. Basta lembrar que no actual estado das forcas produtivas agrícolas, seria possível alimentar sem problemas doze mil milhões de pessoas. Alimentar significa proporcionar a cada indivíduo 2600 calorias por dia. A população actual do mundo chega a menos de seis mil milhões de pessoas. Conclusão: estamos diante de uma falta contingente e não de uma falta objectiva de alimentos. Por outras palavras, o problema da grave fome no mundo é um problema social. As centenas de milhões de pessoas que morrem todos os anos de subalimentação aguda morrem por causa da injusta distribuição de alimentos disponíveis no planeta.
A Acção contra a Fome, organização não-governamental (ONG) de um compromisso exemplar, constata que “um grande número de pobres no mundo carece do alimento necessário, na medida em que a produção alimentar se ajusta à demanda solvente” Quem tem dinheiro, come. Quem não tem, morre lentamente de fome.
Trata-se portanto de civilizar o actual jugo do capitalismo selvagem. A economia mundial é fruto da produção, distribuição, intercâmbio e consumo de alimentos. Afirmar a autonomia da economia em relação à fome é absurdo ou, pior ainda, é um crime. Não se pode abandonar a luta contra essa catástrofe ao livre jogo do mercado.
Todos os mecanismos da economia mundial devem submeter-se a este imperativo primordial: vencer a fome, alimentar convenientemente todos os habitantes do planeta. Para impor este imperativo é preciso criar uma estrutura jurídica internacional, apoiado em tratados e normas.
Jean-Jacques Rousseau escreveu: “Entre o fraco e o forte, é a liberdade que oprime e a lei que liberta”. A liberdade total do mercado é sinónimo de opressão; a lei é a primeira garantia da justiça social. O mercado mundial necessita de normas e de uma restrição imposta pela vontade colectiva dos povos. A luta contra a maximização do lucro como única motivação dos protagonistas que dominam o mercado e a luta contra a aceitação passiva da miséria são imperativos urgentes.
O ser humano é o único vertebrado que pode sentir na sua consciência o sofrimento do outro.
Será que a constituição de uma consciência da identidade, da solidariedade radical com aquele que sofre se infere de um projecto utópico? Não. No decurso da história já ocorreram alguns saltos qualitativos análogos. Por exemplo, o nascimento do Estado. Numa época remota, os humanos fizeram uma escolha fundamental: então, a solidariedade, a identificação com o outro limitavam-se à família, ao clã, por conseguinte, àqueles cujo rosto era conhecido e cuja presença física era sensível; com o nascimento da nação e do Estado, o ser humano fez-se pela primeira vez solidário com aqueles que não conhecia e com os que provavelmente nunca encontraria. Acabava de nascer um sentimento de identidade nacional, algumas instituições de solidariedade, uma consciência suprafamiliar, uma lei comum.
A única identidade humana válida é a que nasce do encontro real ou imaginário com os outros, do acto de solidariedade.
Não pode haver um mundo dentro do mundo, uma inserção de bem-estar num mundo de dor. É inaceitável uma economia mundial que relega para o não-ser a sexta parte da humanidade. Se o flagelo da fome não desaparecer rapidamente do nosso planeta, não haverá humanidade possível. Portanto, é preciso reintegrar na humanidade essa “fracção sofredora”, que hoje está excluída e perece na noite.


terça-feira, 26 de junho de 2007

Excluídas e invisíveis - Carlos Reis

Carlos Reis
Além-Mar, Dezembro de 2006

Milhões de crianças que são vítimas de exploração e discriminação graves tornaram-se invisíveis aos olhos da comunidade internacional. Não são contadas nem tidas em conta. «Desaparecem», quando são objecto de tráfico ou obrigadas a trabalhar como servos. Outras, como as crianças de rua, vivem à vista de todos, mas são sujeitas a maus-tratos e não têm acesso à escola nem a cuidados de saúde.


Bilu e João são dois irmãos que lutam juntos pela sobrevivência, recolhendo cartão e sucata de metal nas ruas de São Paulo, no Brasil. Blanca, de 13 anos, vive um verdadeiro pesadelo por ser portadora do vírus HIV: é discriminada na escola que frequenta em Brooklyn, nos Estados Unidos, e nem os que lhe estão mais próximos a poupam à angústia e ao estigma da doença. Ciro é um adolescente que deixou para trás os pais negligentes e uma família disfuncional, e passou a sustentar-se através do roubo nas perigosas ruas de Nápoles, em Itália. Uros, um menino bósnio internado num degradado reformatório, não quer sair de lá, pois pelo menos ali sente-se protegido: uma vez cá fora, o pai obriga-o de novo a roubar.
Em algumas zonas da África, crianças-soldado de milícias famintas manipulam metralhadoras com destreza. Na China, as diferenças sociais entre duas meninas da mesma idade são gritantes: uma é rica e a outra mal sobrevive a vender flores nos semáforos de uma grande metrópole. Estas poucas e breves histórias ajudam a dar um rosto a milhões de vítimas silenciosas que, para além do mais, são as mais desprotegidas e vulneráveis face ao álcool, drogas, abusos sexuais e físicos, infecções, má nutrição.
As situações de maior vulnerabilidade surgem à margem dos programas de desenvolvimento e permanecem invisíveis em muitas sociedades onde as crianças estão ausentes dos debates, da legislação, das estatísticas e dos meios de comunicação. A pobreza, o VIH/sida e os conflitos armados, aliados a uma má governação e a várias formas de discriminação, excluem da escola e privam de cuidados de saúde muitos milhões de crianças de todo o mundo, o que as torna ainda mais vulneráveis à exploração e à exclusão.
As crianças que vivem em situações de conflito armado, por exemplo, são frequentemente vítimas de violação e de outras formas de violência sexual. O risco de se tornarem esquecidas é maior para as crianças que não possuem identificação: mais de metade dos nascimentos que todos os anos ocorrem nos países em desenvolvimento (excluindo a China) não são registados, o que rouba a mais de 50 milhões de crianças o direito a algo tão fundamental como o estatuto de cidadão, para além de as banirem à partida das estatísticas oficiais. Assim, não são contadas nem tidas em conta.

Guerra e crime
Em Novembro, as Nações Unidas acusaram os militares do Sri Lanka de recrutarem crianças para uma milícia que luta contra o grupo separatista Tigres Tamil. O conselheiro especial da ONU, Allan Rock, representante da ONU em questões relacionadas com Crianças e Conflitos Armados, afirma que tem provas do envolvimento directo de soldados do país no alistamento forçado de crianças para a milícia dissidente dos Tigres Tamil, a Facção Karuna. «Encontrámos provas directas e indirectas de cumplicidade e participação», assegura Allan Rock, comentando o facto de crianças de 13 e 4 anos terem sido raptadas de pequenas povoações sem que tivessem sido realizadas investigações ou prisões por parte das forças de segurança.
No Sudão, durante os longos anos da guerra, «a Igreja Católica foi a única fonte de esperança para milhares de crianças», diz o cardeal Gabriel Wako, arcebispo de Cartum e presidente da Conferência Episcopal. «Uma das maiores preocupações da Igreja sudanesa são as crianças órfãs. Infelizmente, a guerra deixou um grande número de órfãos de pai e muitos perderam ambos os pais. Por não terem uma família que se ocupe delas, a situação destas crianças é muito difícil e precária. Até aqueles que vivem apenas com a mãe se encontram em dificuldades, porque, infelizmente, as mulheres são uma das categorias mais desfavorecidas da sociedade sudanesa.»
Nesse sentido, a Igreja está a apostar em programas de ajuda à infância, «sobretudo no campo sanitário e do ensino», assegura o cardeal. Um pouco por todo o mundo, ela é uma das instituições que mais contribuem para fazer face às necessidades das crianças excluídas. Apenas um exemplo: é graças à generosidade das próprias crianças dos 110 países onde se encontra presente a Obra da Santa Infância que estão a ser financiados mais de três mil projectos de assistência aos menores mais carentes.
Embora os governos e a sociedade civil também se encontrem envolvidos em inúmeros programas de apoio, muitas permanecem desprotegidas. Só na fronteira entre a Argentina, Brasil e Paraguai, milhares de crianças e adolescentes vivem em condições de pobreza extrema, em “casas” sem saneamento ou água potável. Para além do mais, o crime organizado que grassa na região representa uma grave ameaça, de que as crianças são vítimas preferenciais. Entre os seus “negócios” contam-se a exploração sexual, o tráfico de drogas e de seres humanos.

Violência e discriminação
Muitos actos de violência perpetrados contra as crianças permanecem na sombra e têm muitas vezes a aprovação da sociedade. A violência contra as crianças inclui violência física, psicológica, discriminação, negligência e maus-tratos e acontece em qualquer lugar, em todos os países e sociedades e em todos os grupos sociais. Utilizando diversos estudos e dados sobre a população, a Organização Mundial de Saúde estima que, no mundo actual, as relações sexuais forçadas que envolvem menores de 18 anos afectam 73 milhões.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho, dos 218 milhões de crianças trabalhadoras, 126 milhões estão envolvidas em trabalhos perigosos e prejudiciais, 5,7 milhões realizam trabalhos forçados em regime de servidão, 1,8 milhões estão envolvidas na prostituição e 1,2 milhões já foram vítimas de tráfico. Desprovidos de cuidados dos pais, milhões de órfãos, crianças de rua e de jovens detidos crescem sem o afecto e protecção familiar. Estima-se que 143 milhões de crianças de países em desenvolvimento – 1 em cada 13 – perderam pelo menos um dos pais.
Muitos dos Estados frágeis, países que não têm meios ou vontade para proporcionar serviços básicos aos seus cidadãos, discriminam os menores com base no sexo, etnia ou deficiência. Estes factores de exclusão impedem a entrada de milhões de menores na escola e bloqueiam a prestação de serviços essenciais. Calcula-se que haverá no mundo cerca de 150 milhões de crianças portadoras de deficiência, muitas delas sem possibilidade de acesso à educação, cuidados de saúde ou apoio afectivo em consequência de uma discriminação sistemática. Um número seco e assustador: anualmente, cerca de 53 mil menores são vítimas de homicídio.
A violência tem «consequências duradoiras, não apenas para as crianças e seus familiares mas também para as comunidades e países», alerta Ann Veneman, directora executiva da Unicef. Para Paulo Pinheiro, perito independente nomeado pelo secretário-geral das Nações Unidas para liderar o estudo «Violência contra as Crianças», «a melhor forma de tratar do problema é impedir que aconteça. Todas as pessoas têm um papel a desempenhar, mas cabe aos Estados assumir a principal responsabilidade.

Desemprego e pobreza
Em todo o mundo, o desemprego é outro dos grandes problemas que os jovens enfrentam. E que faz que um em cada quatro – cerca de 300 milhões de pessoas – viva abaixo do limiar da pobreza. Segundo a Organização Internacional de Trabalho (OIT), o número de jovens entre os 15 e 24 anos que estão desempregados aumentou de 71 milhões, em 1995, para 85 milhões, no ano passado. A população juvenil cresceu 13 por cento entre 1995 e 2005, enquanto a disponibilidade de empregos para este segmento da população só registou um crescimento de quatro por cento. Como consequência, os jovens desempregados representam 44 por cento do total de desempregados a nível mundial. Estima-se que sejam necessários 400 milhões de empregos produtivos, ou mais e melhor emprego, para aproveitar o potencial da juventude actual.
«A incapacidade das economias para criar empregos produtivos está a atingir os jovens em todo o mundo», afirma o director-geral da OIT. Segundo Juan Somavia, além de gerar um défice de oportunidades de trabalho e altos níveis de incerteza económica, esta preocupante tendência ameaça desperdiçar um dos principais recursos de qualquer sociedade – a juventude. «Neste momento, estamos a desperdiçar o potencial económico de uma grande parte da população, em especial nos países em desenvolvimento, que são os que menos se podem permitir esse desperdício. Por isso, os países devem concentrar-se nos jovens», preconiza.
As regiões do Médio Oriente e do Norte de África registam a taxa mais elevada de desemprego juvenil (26 por cento), quase o dobro da que se verifica na União Europeia: 13 por cento. Mesmo nos casos em que existe emprego, isso não quer dizer que assegure o sustento dos jovens. Ainda de acordo com a OIT, a pobreza afecta cerca de 56 por cento dos jovens trabalhadores, que se confrontam também com a possibilidade de ter largas jornadas de trabalho, contratos a termo certo, salários baixos, protecção social reduzida ou inexistente.
Regista-se também um preocupante aumento do número de jovens que não trabalha nem estuda. Na verdade, o acesso à educação continua a ser um problema para muitos e o analfabetismo ainda é um desafio importante em muitos países em desenvolvimento. Os desafios são maiores para as jovens, já que em algumas regiões, devido à tradição cultural, não se lhes concede a oportunidade de conciliar o trabalho doméstico com um emprego.
Mas, apesar de um cenário tantas vezes tão negro, os jovens dispõem de um capital único: não perdem a capacidade de sonhar.