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quinta-feira, 5 de julho de 2007

Os ricos globalizam a pobreza - Luc Coppejans

Além-Mar
Fevereiro 2001

Excertos



Uma globalização que só serve os interesses de alguns
promove uma visão unidimensional da natureza humana
e condena à pobreza povos inteiros.
Não é por acaso que um pouco por todo o lado se fazem
ouvir protestos contra a liberalização desenfreada.


Vivemos num tempo de mudanças profundas. No último século, a nossa visão da vida mudou dramaticamente do nacionalismo para o internacionalismo, para o globalismo. Todavia, as nossas instituições políticas e a nossa ideia do mandato político mudaram muito pouco desde o início do nosso século.
O principal veículo da globalização é a ideologia neoliberal do mercado livre. Não houve ao longo da História outra ideologia que tivesse influenciado tão profundamente cada aspecto da vida das pessoas no mundo como a do neoliberalismo. Ela tem impacto na vida económica, na comunicação e na informação, nos desenvolvimentos tecnológicos, na cultura, nos padrões de consumo, no crime, nos conflitos, nas epidemias, na ecologia, na migração e, naturalmente, na política.

O novo credo universal: a economia de mercado

A globalização considera que a competição e a economia de mercado são o credo universal. Esta insistência na competição promove uma visão unidimensional da natureza humana e das relações humanas. Uma sociedade que é um leilão, onde até as coisas sagradas, como o sangue e os órgãos humanos, a biodiversidade, podem ser comprados e vendidos, e onde os valores podem ser substituídos por preços, faz-nos recordar de modo arrepiante a visão do Apocalipse: Babilónia tornou-se antro de demónios, guarida de todos os espíritos imundos... porque do vinho da sua luxúria se embriagaram todas as nações... (Apocalipse 18, 2-3). O credo da lógica do mercado constitui um desafio cultural e espiritual. Um desafio que os políticos não enfrentaram (suficientemente) e pelo qual estão a pagar um preço.
Alguns dos problemas gerados pela acção dos mecanismos de mercado no âmbito do actual movimento da globalização têm a ver com o facto de que a doutrina do mercado livre aumenta nos ricos o falso sentimento de serem «pessoas escolhidas», e com o facto de esta estar orientada para a aquisição de poder em vez de ter em conta as necessidades das pessoas e da Terra.
A globalização, comandada pela actual ideologia liberal do mercado, tem adormecido as pessoas. Satisfeitas com as suas riquezas, muitas pessoas aprovam a ideologia liberal do mercado livre. Desapontadas com a política, aceitam uma visão da sociedade que passa por uma produção e um consumo sempre em expansão, uma sociedade em que o poder está nas mãos de uma pequena e forte elite económica, que facilita a gestão eficiente do processo de produção/consumo, do qual derivam todas as coisas boas da vida. Mas, numa sociedade destas, a maioria das pessoas têm pouco a dizer sobre a configuração da sociedade em que vivem e pouco poder de participação.
Os líderes políticos e as instituições tornam-se meros «ponta-de-lança» de políticas decididas longe, por empresas transnacionais. Este sistema não dá poder às pessoas, mas transforma-as em consumidores satisfeitos, e abre perigosamente as portas para que os direitos humanos sejam atropelados, a dignidade humana desrespeitada, o desenvolvimento humano entravado e o ambiente indiscriminadamente explorado.

Injustiça estrutural e política

É verdade que a esperança de vida, em média, cresceu mais nos últimos 50 anos do que nos anteriores 4000; a competição nos transportes e nas comunicações facilitou imensamente as nossas vidas. Contudo, ao mesmo tempo, a diferença entre ricos e pobres está a aumentar, tanto globalmente como no seio dos vários países. Existem 360 multimilionários no mundo, cuja riqueza conjunta é igual à soma do rendimento de 2,5 mil milhões de pobres. Que estrutura permite e justifica tamanha disparidade de riqueza?
Americanos e europeus gastam 200 mil milhões de dólares (mais de 40 mil milhões de contos) por ano em receitas médicas. Obviamente, medicamentos para enfermidades como a cegueira dos rios, a doença do sono ou a malária não se encontram habitualmente nas prateleiras das farmácias ocidentais, porque não têm procura. Todavia, em dispensários do Sul, como por exemplo no Benin, são também raros, não porque não se precisa deles, mas porque as pessoas não têm posses para os comprarem. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 60 mil milhões de dólares são gastos anualmente na investigação médica, mas menos de 10 por cento desta soma é aplicada na investigação de doenças que afectam 90 por cento da população mundial, como a malária, a tuberculose e o HIV/sida. As indústrias farmacêuticas receiam não ser capazes de vender os seus produtos a preços compensadores, ou que os países pobres não respeitem as suas patentes, por isso não lhas dão! Quantas pessoas morrem diariamente em África por não terem os medicamentos mais comuns?
O Norte pretende que os países do Sul abram os seus mercados, mas os países ricos são proteccionistas nos sectores em que os países pobres são mais capazes de competir, como na agricultura, nos têxteis e no fabrico de vestuário. «Tarifas acumuladas», (taxas cada vez mais altas por cada degrau no processo de produção) e «tarifas antidumping» para bens considerados «injustamente baratos» protegem os têxteis europeus, a agricultura, o aço, etc. Isto impede efectivamente o crescimento económico em África, não cria emprego nas cidades e reduz o rendimento das famílias africanas!
A Organização Mundial do Comércio (OMC) forçou a União Europeia a abandonar o seu regime de importação de bananas, que favorecia os pequenos produtores africanos. As grandes firmas americanas conseguiram convencer a OMC que favorecer os pequenos produtores de bananas ia contra as regras do mercado livre. As vítimas destas regras da OMC são os agricultores pobres do Gana, Costa do Marfim, Benin e Togo, cuja vida dependia das bananas; os vencedores são as grandes empresas como a Chiquita. O mesmo acontece com o uso de matérias gordas de substituição do cacau no fabrico do chocolate.
Estes são apenas alguns exemplos das injustiças infligidas pelo Norte à África. O mais estranho é que todas as leis e regulamentos que sustentam estas injustiças são ratificados pelos nossos representantes políticos, democraticamente eleitos: governos ou parlamentos! Senhores políticos: quem tem o poder neste mundo? Quem detém a autoridade no mundo de hoje?

Um Poder Absoluto - Ana Glória Lucas

Além-Mar
Março, 2003

Excertos

São mais poderosas do que muitos Estados. As empresas multinacionais impõem as suas regras, sobretudo junto dos países pobres, escolhem os de mão-de-obra barata para montar as suas fábricas, poluem e exploram trabalhadores à medida dos seus interesses, sempre na lógica do lucro. E, cúmulo dos cúmulos, ainda se permitem algumas vezes exigir indemnizações a países que têm milhões de habitantes ameaçados de fome.
Comecemos por definir o que é uma empresa multinacional. Segundo o Centre Europe-Tiers Monde (Cetim), um organismo sedeado em Genebra e que actua como consultor das Nações Unidas, trata-se de “pessoas jurídicas de direito privado, com múltipla implantação territorial, mas com um centro único de decisão. (...) Desenvolvem a sua actividade na produção e nos serviços, praticamente em todas as esferas da actividade humana, e também na especulação financeira. E nestas três esferas actuam simultânea, sucessiva ou alternadamente”.
Mais adiante, no mesmo documento do Cetim, de Junho de 2002, pode ler-se: “As suas actividade abarcam diferentes territórios nacionais, variando com rapidez e relativa frequência os lugares em que estão implantadas, em função da sua estratégia baseada no objectivo do lucro máximo.” E, a seguir: “O carácter transnacional das suas actividades permite-lhes iludir o cumprimento das leis e regulamentos nacionais e normas internacionais que consideram desfavoráveis aos seus interesses”.
E, no objectivo de obter o máximo lucro, objectivo esse “que não admite nenhum obstáculo”, são frequentes as práticas que passam pela promoção de guerras de agressão e conflitos inter-étnicos para controlar os recursos naturais do planeta e favorecer a expansão e os lucros da indústria bélica”, “a violação dos direitos laborais e dos direitos humanos em geral” e “a degradação do meio ambiente”, para além da corrupção de funcionários para se apoderarem dos serviços públicos essenciais mediante privatizações fraudulentas e lesivas dos direitos dos utentes” e da “corrupção das elites políticas, intelectuais e dos dirigentes da sociedade civil”.
Neste documento, o Cetim chama a atenção - aliás já não pela primeira vez – para a “confusão entre poder económico e poder político”, nomeadamente no caso dos Estados Unidos, onde tem a sua sede a maioria das multinacionais mundiais, e recorda como já há quatro décadas o então presidente Dwight Eisenhower chamava a atenção para a influência nefasta que tinha sobre o Governo o “complexo militar-industrial”. E lembra como as três grandes figuras da actual administração George W. Bush, Dick Cheney e Colin Powell tinham antes os seus nomes ligados às indústrias petrolíferas e da aviação e comunicações.
O poder das multinacionais estende-se neste momento à própria Organização das Nações Unidas, que lhes abriu as portas através do denominado “Global Compact”, da qual fazem parte algumas das principais multinacionais mundiais, como a British Petroleum, a Shell, a Nike, a Nestlé e a Ciba-Geigy, para citar apenas algumas. A finalidade anunciada por Kofi Annan é a de corrigir os desequilíbrios da globalização, mas a verdade é que um pacto deste tipo acaba por se traduzir numa certa promiscuidade entre empresas e um organismo internacional como a ONU, que, de resto, já em 1993 suprimira organismos criados para manter um controlo sobre as actividades das multinacionais, especialmente na área social.
Calculam-se em 63 mil as empresas multinacionais com 690 mil filiais estrangeiras. Controlam dois terços de todo o comércio mundial e são mais poderosas do que muitos Estados, mesmo ricos. Por exemplo, o volume de vendas da General Motors (EUA) é superior ao produto interno bruto da Dinamarca, e o da Exxon-Mobil (EUA) supera o da Áustria. As 23 multinacionais mais poderosas vendem mais do que exportam países como o Brasil, a Indonésia ou o México.
Só que estes volumes de vendas raramente se traduzem em riqueza para os países onde as multinacionais estão implantadas. Veja-se como exemplo o caso da Bolívia. Hidrocarbonetos, telecomunicações, caminhos-de-ferro, transportes aéreos e electricidade estão nas mãos de multinacionais, que nos últimos cinco anos eliminaram 10 mil postos de trabalho. As reservas de gás natural são as segundas mais importantes da América Latina, avaliadas em 80 mil milhões de dólares. As exportações de gás só para o Brasil renderam às multinacionais algo como 5000 milhões de dólares em duas décadas, tendo o Estado boliviano recebido em impostos e outras regalias apenas 80 milhões de dólares.

Violações dos direitos

A área de actuação das multinacionais estende-se a todos os sectores da economia. Dos combustíveis à aviação, dos têxteis ao calçado, dos pesticidas à indústria automóvel, da indústria alimentar aos produtos de higiene, dos produtos farmacêuticos às telecomunicações e aos computadores, nada fica fora da alçada das multinacionais.
No que se refere aos trabalhadores, as multinacionais não são exactamente os melhores amigos destes. Numa contradição espantosa com os números que representam para a economia mundial, as multinacionais empregam apenas três por cento da força de trabalho mundial, preferindo muitos vezes os chamados países do Sul, onde a mão-de-obra é abundante e barata – mesmo que pouco qualificada.
De um modo geral, nos Estados que criam condições atraentes para a implantação das multinacionais, estas traduziram-se numa descida das condições laborais e dos direitos dos trabalhadores, com um aumento da precaridade dos postos de trabalho. E os despedimentos são frequentes para reduzir custos e tornar as empresas mais atraentes, seja para aquisição por outras seja para cotação nas bolsas.
Em muitos países, são as populações indígenas as que mais sofrem, vendo-se muitas vezes expulsas das suas terras – especialmente se estas forem ricas em recursos naturais a fim de facilitar a actividade das grandes empresas estrangeiras.
O meio ambiente também não está nas preocupações das multinacionais, que actuam indiferentes à contaminação ambiental que podem causar. Resíduos industriais poluentes ou resíduos médicos e hospitalares são muitas vezes largados em países do chamado Terceiro Mundo, sem qualquer respeito pelas populações que vivem nas proximidades. Talvez por todas estas razões as multinacionais tenham levantado tantas objecções à ideia da criação de um tribunal mundial para o ambiente, sugerida durante a Cimeira da Terra que se realizou em Joanesburgo, em Setembro de 2002.
A propósito, recorde-se aqui o de¬sastre que afectou a localidade indiana de Bhopal em Dezembro de 1984, quando uma fuga de gás tóxico numa fábrica de pesticidas da Union Carbide (EUA) provocou quase 15 mil mortos, no imediato e ao longo destes mais de 18 anos, e uma contaminação ambiental que se estendeu por um raio de 1,5 quilómetros.

Disputas judiciais

O mais irónico de tudo isto é que as multinacionais não hesitam em recorrer a processos jurídicos contra países, por mais pobres que sejam, quando sentem que os seus interesses estão em causa.
O caso mais recente e flagrante é talvez o da multinacional suíça Nestlé, que, em Dezembro de 2002, processou a Etiópia por uma nacionalização que remonta a 1975, exigindo-lhe uma indemnização de seis milhões de dólares. A Nestlé, que controla o mercado de café, é uma das 15 empresas mais rentáveis do planeta, tendo obtido em 1999 lucros da ordem dos 3000 milhões de dólares. Isto enquanto a Etiópia, que em 2002 não conseguiu mais de 175 milhões de dólares com as vendas do café, devido à descida do preço desta matéria-prima, atravessa de novo uma crise alimentar que ameaça de fome 12 milhões dos seus habitantes.
Em Fevereiro de 2002, a multinacional norte-americana Bechtel Corporation pediu uma indemnização de 25 milhões de dólares ao Governo boliviano, na sequência do cancelamento de um contrato de 40 anos para que a empresa Aguas del Tunari, uma subsidiária da Bechtel, fornecesse água à cidade de Cochabamba. O contrato foi cancelado após violentos protestos de rua dos habitantes locais contra o aumento considerável do preço da água que o contrato significou. Em 2000, o mesmo ano dos protestos, a Bechtel apresentou receitas da ordem dos 14.300 milhões de dólares.
Em Abril de 2001, nada menos de 39 multinacionais farmacêuticas processaram o Governo de Pretória por vender medicamentos genéricos contra a sida, num país onde há cerca de cinco milhões de infectados com o vírus. O processo acabou por ser retirado, na sequência de uma campanha internacional.
Ainda na África do Sul, mas num processo em sentido inverso, duas organizações não governamentais, a Khulumani e a Jubilee South Mrica, intentaram nos EUA uma acção contra empresas europeias e norte-americanas – entre elas a União de Bancos Suíços, a Exxon-Mobil e a IBM que, no passado, ajudaram o regime do apartheid no seu desrespeito pelos direitos humanos.

Código de conduta

É consensual entre os especialistas que as multinacionais precisam de adoptar uma atitude mais ética a fim de acabar com alguns dos males que parecem ser intrínsecos à sua actividade: corrupção, violações dos direitos humanos, contaminação ambiental....
Em 1999, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) lançou uma conven¬ção internacional contra as empresas que recorrem à corrupção para atingirem os seus objectivos, as quais ficam sujeitas a acções judiciais, e, no ano seguinte, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, concretizava a sua iniciativa “Global Compact”, a pretexto, como atrás se disse, de corrigir os desequilíbrios da globalização e de fazer respeitar princípios relativos a direitos humanos, normas de trabalho e meio ambiente. Simplesmente, não existem mecanismos para verificar se estes princípios são ou não respeitados.
Logo na altura ficou claro que não se tratava de um código de conduta para multinacionais, porque estas não aceitam submeter-se a nenhum. “Evidentemente que não podemos criar um código de conduta para as empresas. Isso seria uma missão impossível para a ONU”, disse na altura Georg Kell, director executivo do “Global Compact”.
Resta, assim, acreditar que as multinacionais possam algum dia vir a pensar em algo mais do que o lucro próprio.

Os donos do mundo - José Rebelo

Além-Mar
Março 2003

Excertos



As notícias de «deslocalização» de um par de grandes empresas agitaram o País. Os comentadores concordam em afirmar que outras lhes seguirão o exemplo e alguns acham até que fazem pouca falta, porque são especialistas em aproveitar fundos e regalias, mas contribuem pouco para o desenvolvimento. Em contrapartida, deixam atrás de si o drama humano de muitos trabalhadores atirados para o desemprego.
Numa intervenção indignada, o Presidente da República lembrou que «as pessoas não são números». Todavia, para as grandes corporações transnacionais, o que conta é o lucro e não as pessoas. Por isso, de modo geral, não se importam com a defesa dos direitos humanos, laborais, sociais e ambientais.
A título de exemplo, recorde-se que o Centro das Nações Unidas para as Corporações Transnacionais (UNCTC) revelou que metade dos gases responsáveis pelo efeito de estufa são produzidos pelas multinacionais, que também são responsáveis por muitos dos desastres ecológicos. O que têm para oferecer não é muito: apesar dos seus lucros fabulosos, dão emprego apenas a três por cento da mão-de-obra mundial.
Os chorudos proveitos obtidos pelas transnacionais são repartidos pelos seus gestores e accionistas. As nações que fornecem a força de trabalho e os recursos – geralmente do Terceiro Mundo – pouco ganham financeiramente e sofrem, de modo consistente, danos sociais, com a exploração desregrada dos trabalhadores.
Os salários dos seus empregados – a maior parte proveniente das zonas rurais – não chegam para pagar a alimentação, o alojamento, os transportes e as outras necessidades. Acabam nos bairros de lata das grandes cidades, onde não têm apoio familiar e social, e onde frequentemente falta água e saneamento básico, escolas e centros de saúde.
A Organização Mundial de Saúde estima que 1,1 mil milhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,4 não dispõem de uma instalação sanitária adequada. Apesar disso, está em curso um processo de privatização dos serviços de abastecimento de água e saneamento básico, que só contribuirá para o aumento da pobreza e das desigualdades. Quanto mais se alarga a esfera privada, mais se restringe a democracia, os direitos dos mais fracos e a sua capacidade de intervenção social.
Mas o poder destes gigantes privados é enorme. Pela sua influência sobre a produção agrícola, o comércio mundial (controlam dois terços), as finanças e mesmo a política. Em última instância, quem decide não são os governos dos diversos países, mas as eminências pardas que movem nos bastidores as suas poderosas e obscuras teias de interesses.
O seu sucesso baseia-se na habilidade para influenciar as políticas governamentais, conseguir os subsídios disponíveis e conquistar o apoio dos principais actores políticos e económicos. O caso mais paradigmático e perigoso é o dos Estados Unidos, onde os gigantes da energia e da defesa exercem um poderoso lobby sobre os membros da Administração Bush.
A tendência mundial para a liberalização dos serviços públicos, como a saúde, o saneamento e a educação, e de bens essenciais, como a água, a electricidade e o gás, é incentivada pelas multinacionais, que vêem neste sectores, tradicionalmente assegurados pelo Estado, uma nova árvore das patacas.
À medida que os Estados se retiram de sectores essenciais para o bem-estar das populações, as megacompanhias entram em cena. E a lógica é a que todos bem conhecemos: quem pode pagar fica bem servido, quem não pode é esquecido.
Como disse Jorge Sampaio, as pessoas não são coisas nem números. Parece evidente, menos para aqueles que reconhecem como único valor absoluto e único deus o lucro pelo lucro.

De neoliberais a neo-solidários - Diego Marani

Além-Mar
Outubro 2000
Excertos


Enrico Chiavacci, um dos teólogos italianos do nosso tempo que mais tem estudado as relações entre a moral cristã e a economia, afirma que «é preciso acabar com a distinção, tão cara nos ambientes católicos, entre liberalismo, que seria uma coisa boa, e capitalismo selvagem, a rejeitar. O capitalismo não pode ser senão selvagem, porque tende à maximização do lucro.»
E vai mais longe: «A teologia moral católica cingia-se, até ao Concílio Vaticano II, ao “não roubar”, único preceito de ética normativa em matéria de economia. Posso provocar dez milhões de mortos de fome deslocando capitais de um lado para o outro no mundo, mas não roubei; por isso, não cometi qualquer pecado. Para uma moral destas não há deveres de justiça para com o pobre. Esta não era, porém, a posição do Evangelho, dos padres da Igreja ou dos grandes teólogos medievais.»
Como se há-de comportar o cristão na economia? É uma pergunta que não diz respeito unicamente às relações Norte/Sul mas também às de cada pessoa nas sociedades ricas do Norte do mundo.
Não há dia em que não se fale de nova economia, o comportamento das bolsas ocupa grandes espaços nos órgãos de informação e condiciona a vida dos investidores. Mas será lícito a um cristão ganhar 100, 50 ou até dez por cento ao ano através dos jogos da bolsa, em acções ou fundos de investimento? Será um problema moral entrar no jogo da bolsa? Perguntas que poucos têm a coragem de se colocar. E ainda menos aqueles que lhe ousam responder.
«A responsabilidade da teologia católica consiste em não ter prescrito um certo número de disposições morais, deixando ao arbítrio de cada um todo o espaço que se segue à compra legítima da propriedade privada.»

Idolatria do mercado

Que relação existe entre globalização, prosperidade e riqueza no Norte, exclusão e pobreza no Sul? A resposta de Chiavacci é trágica, mas sem rodeios: «Hoje o sistema económico global prospera com a fractura entre o Norte e o Sul. Tende a conservá-la onde já existe e, até, a provocá-la.» Porque o sistema mundial do capital, hoje conhecido também por globalização, «não está interessado em satisfazer as necessidades básicas para o desenvolvimento humano, mas unicamente aquelas necessidades ou desejos cuja satisfação fomenta o lucro». Portanto, nesta lógica, seria normal para um cristão não se interrogar para saber aonde vão acabar as suas poupanças, o importante é que elas rendam. Porque «ao sistema não interessa o que é produzido com o capital investido, mas apenas o lucro que se pode obter com o investimento: armas ou remédios, droga ou escolas, poluindo ou não poluindo, criando emprego ou desemprego (antes, cada vez mais se investe para criar desemprego, aumentando assim os lucros!) são opções que deixam o investidor perfeitamente indiferente».
Alain Durand, director da DIAL, agência de notícias sobre a América Latina com sede em Lião (França), publicou um artigo intitulado «Para uma prática cristã da globalização» na revista Foi et Développement, onde afirmava: «A palavra de Deus pode ajudar-nos a compreender que a globalização de hoje se encontra desvirtuada pelo mundo neoliberal onde prospera. Somos convidados a passar da globalização neoliberal para a solidária.»
Senão, contribuímos para criar pobreza e marginalização em todo o mundo.
E a globalização — «religião» económica neoliberalista legitimada por uma política neoliberal — «tem uma grande responsabilidade neste aumento do número de pobres e de crescimento das desigualdades».
Neste mercado mundial que não dá prioridade às necessidades básicas, que não cuida das suas vítimas a criação de riquezas parece ter como única finalidade a perpetuação da produção: o consumo de todos para o lucro de poucos como norma moral universal.
A melhor e mais segura forma de amar o nosso próximo seria portanto esta: «Viver como egoísta no livre mercado global.»
Chiavacci diria mais: «Não apenas a riqueza, mas o enriquecimento constante como fim em si mesmo tornou-se o novo ídolo, o novo ideal de vida nos países ricos. Estamos diante do vitelo de ouro, que tem de se adorar, ao qual todos os outros valores humanos e até religiosos têm de inclinar-se. Mas este biombo esconde a visão clara desta hora dramática de uma idolatria triunfante e torna-nos cúmplices dela; talvez inconscientemente, mas não isentos de culpa.»

Eles empobrecidos, nós desumanos

Esta idolatria do mercado transforma os seus fiéis em consumidores. «O lugar sagrado onde os consumidores vivem com mais intensidade esta religiosidade do mercado são os centros comerciais», explica Jung Mo Sung, teólogo coreano emigrado ainda novo para o Brasil, autor de algumas obras que denunciam o deus oculto do capitalismo, porque «ao mercado são atribuídas todas as características de um Deus» e, para a Vulgata neoliberal, «o mercado é a fonte da vida, lugar onde a vida é produzida e reproduzida».
«Também nós, países ricos, estamos ameaçados por um desenvolvimento desumanizante», recorda Chiavacci. «A lógica económica dominante tornou-se já a lógica global de uma “boa vida”: um modelo cultural profundamente inserido na mentalidade do Norte. A lógica que torna famintos três quartos da humanidade é a mesma que está a desumanizar o outro quarto mais rico.» Perda do sentido da vida, de relações afectivas gratificantes, de contacto profundo com a natureza, perda da capacidade de se sentir próximo de si próprios, dos outros, da criação, de Deus. Perda do relacionamento, mascarado com a solidão da hipercomunicação tecnológica do telemóvel e da Internet; anestesiado pelo papel de meros repetidores do monólogo colectivo a que a televisão, em primeiro lugar, nos reduziu; fomentado pela vulgarização ocidental de tantos negócios da nova era: desde a psicoterapia ao ioga, das clínicas de beleza às drogas mais ou menos sintéticas e às realidades mais ou menos virtuais.
Os que pertencem às classes médias do Norte rico — explica Mo Sung —, «quando se sentem deprimidos e o seu humanismo se corrompeu pelas contradições da vida, vão ao seu templo/centro comercial, onde, comprando, se sentem mais humanos e animados. Em contacto com a nova sacralidade, as pessoas sentem-se fortificadas e aptas a enfrentar a realidade quotidiana, feita de competição e de concorrência». A palavra de ordem «melhor relação qualidade/preço» tornou-se um dogma, capaz de dar sentido à nossa ânsia de consumo.
Não obstante tudo isto, há uma porta de saída para aquilo que só na aparência é a única realidade e o único pensamento: «Colocar no coração do sistema o espírito de solidariedade, em vez do espírito de concorrência.»
Durand encontra-se também em sintonia com Jung Mo Sung quando afirma que este «sistema económico de produção é indefinido e incontrolado, reabsorve e reutiliza constantemente o tempo e as energias que o progresso da produtividade liberta, a fim de se poder ocupar também de outras coisas» e, por isso, «é urgente na nossa sociedade dar lugar a realidades como o rosto do outro, a palavra, o dom, o perdão, a criatividade, a festa».

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Uma lixeira no Paraíso - Martinho Lopes Moural

Martinho Lopes Moural
Além-mar
Fevereiro 2006



Depois de quase 30 anos em África, Martinho Lopes Moura, missionário comboniano, foi enviado para o Brasil. E há seis foi-lhe confiada a paróquia de Guriri, que abrange a ilha do mesmo nome e redondezas. A ilha é um paraíso turístico, mas há um bairro onde as pessoas vivem do lixo que a cidade de São Mateus lhes oferece. Mais uma vergonha para um país que, sendo um dos mais ricos do mundo, tem mais de 50 milhões de miseráveis.

A área da paróquia de Guriri compreende a ilha do mesmo nome e os bairros e povoações ao longo do rio Cricaré até Urussuquara, no limite com o município de Linhares. A ilha ronda os 100 quilómetros quadrados. Até ao século XIX estava rodeada pela lagoa de Suruaca e pelo rio Ipiranga. Com a abertura da baía de Barra Nova, ficou dividida em duas e o percurso do rio Mariricu foi interrompido.

A paróquia fica portanto entre rios e é banhada pelo Atlântico. A população é na sua maioria descendente dos escravos africanos que, depois da abolição da escravatura pela princesa Isabel, aqui encontraram meios de subsistência, pescando e caçando. Outra parte da população é formada por descendentes de índios, de muitas tribos, e uma boa parte são caboclos (mestiços). Há ainda os moradores da estância balnear de Guriri, que para aqui vieram por causa do clima e das águas tépidas do mar. São na sua maioria gente de Minas Gerais ou Capixabas do Espírito Santo, descendentes dos imigrantes italianos que no século XIX desembarcaram na área. Os primeiros moradores foram, é claro, os índios. Vieram do interior e do norte, por vezes para fugir às perseguições que lhes eram movidas pelos outros índios e pelo Governo colonial. Toda esta área é rica em petróleo – os poços são às centenas –, gás natural e sal-gema. No mar e nos rios abundam o caranguejo, o camarão e os peixes das mais variadas espécies, alguns dos quais com muitas dezenas de quilos. A maior parte dos pescadores usam meios artesanais, e no período em que a pesca lhes é interdita sobrevivem com dificuldade. As piranhas, que estão a tornar-se uma praga, também contribuem para diminuir as capturas.

Uma boa parte da população sobrevive, para além da pesca, da agricultura de subsistência e da criação de gado. O turismo é, sem dúvida, a sua maior riqueza. No Verão (brasileiro, entenda-se), a população, de dez mil pessoas, pode chegar a atingir as 70 mil. Os hotéis e restaurantes são poucos, mas muitas famílias têm aqui as suas residências de férias. No Carnaval, o número pode subir para 100 mil. Os residentes têm de sobreviver no resto do ano com os lucros obtidos na época alta (do Natal ao Carnaval), e alugam tudo o que podem para ganhar mais alguma coisa. O turismo também traz consigo a prostituição, que atinge sobretudo os adolescentes dos bairros mais carenciados. As comunidades cristãs eram 19, quando cheguei. Hoje são 22: 11 dentro da ilha e 11 fora. A paróquia tem dedicado muitas energias à formação religiosa, litúrgica e ao acolhimento das pessoas, sobretudo à obra de promoção humana Vida Plena. De uma forma geral, as comunidades são pobres e pouco numerosas, excepto as três maiores, que se encontram no centro da ilha. No Verão, as igrejas do centro ficam superlotadas. Porém, graças a Deus, a participação é boa também durante o resto do ano. A visita às famílias tem sido uma prioridade pastoral e o resultado é evidente: muitas crianças, adolescentes e jovens frequentam a catequese nas comunidades, e até um bom grupo de adultos. As seitas ainda não são um fenómeno significativo.

Comer lixo

As dezenas e dezenas de quilómetros de praias desertas e de mangais, ainda praticamente virgens e onde abunda o caranguejo, são uma atracção a nível nacional e mundial. Os rios estão rodeados pela mata, que vai encolhendo devido ao abate ilegal. Guriri é ainda a sala de visitas da cidade de São Mateus. Muita gente conhece Guriri como um lugar tranquilo, onde se pode descansar, como um paraíso para idosos, devido ao clima quente mas ameno durante todo o ano, às águas sempre mornas.

Mas também no paraíso existe o reverso da medalha. Para o ironicamente chamado Bairro da Liberdade são trazidos os resíduos de toda a cidade. E há muita gente que «vive» no meio da lixeira, ganhando o seu sustento a escolher de entre os desperdícios aqueles que ainda têm alguma utilidade ou valor. As «casas» são barracas. As condições são, como é natural, extremamente insalubres. E a miséria material traz consigo a miséria humana e moral: o alcoolismo e o consumo de drogas estão a aumentar. Através da obra social «Vida Plena» temos ajudado muita gente dos bairros mais carenciados, nomeadamente apoiando a construção de casas decentes, distribuindo mensalmente um «pacote» de alimentos básicos.

A miséria e a falta de higiene são um «viveiro» de doenças de todo o tipo: infecções intestinais, tuberculose, parasitas, lepra, tifo, cólera e dengue. A chuva e a humidade castigam particularmente aqueles que moram em terrenos alagadiços. Depois, a população não pára de aumentar: não é raro encontrar senhoras com dez e mais filhos e adolescentes já mães e com filhos de vários pais. As pessoas não têm empregos estáveis e não conseguem ter acesso a um médico, muito menos comprar medicamentos. No meio de tanta água, muita gente nem sequer dispõe de água potável.

No Bairro da Liberdade, há quem saboreie as últimas gotas de cerveja das latas vazias que vão juntando para vender, há quem alimente a família com os restos do churrasco que sobrou das mesas dos ricos. É vergonhoso: o Brasil, uns dos países mais ricos do mundo, tem mais de 50 milhões de miseráveis.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Miloko - Jean Siccardi

Miloco é um menino descalço e esfarrapado. Vive na rua. Veio de longe, de um país distante, assinalado com letras minúsculas no mapa do mundo.
Numa noite, por entre a chuva e o nevoeiro, desembarcou ali, vindo não se sabe bem de onde. De olhos cheios de sono e cansaço, com outras crianças, com outros Milocos como ele, que, de imediato, se espalharam pelos quatro cantos da grande cidade.
Percorreu as ruas rente às fachadas de persianas corridas. Seguiu os candeeiros como os marinheiros seguem as estrelas. Caminhou durante muito tempo até de madrugada Depois, esgotado, adormeceu na praia, embalado pelo ressoar das ondas.
Os gritos das gaivotas e dos alcatrazes acordaram-no. Viu os barcos deslizarem displicentes nas águas do mar. Tinha fome. Subiu a grande avenida das lojas e dos supermercados. Invisível, transparente, a multidão não deu por ele.
Miloco não passava de um menino descalço e esfarrapado.
Um dia, na rotunda da auto-estrada, em frente ao aeroporto, perto do supermercado, encontrou outros garotos como ele, Milocos nus e de pés descalços, que o adoptaram.
Por baixo da ponte de acesso à auto-estrada, abrigado do vento e das intempéries, Miloco, com as caixas de cartão dos frigoríficos, cartões enormes de televisores, e de outros objectos
fúteis e sem importância, construiu uma casa só para ele, fechada por arame, entre as cabanas dos seus novos companheiros.
Miloco sentia-se bem.
À noite, junto da fogueira, cantava e até ria.
Os amigos tinham-lhe emprestado uma escova, panos de limpeza e uma garrafa com lixívia que fazia balões multicores com os reflexos do sol.
Miloco, na rotunda do supermercado, esperava os carros que paravam no semáforo. Entre a mudança do verde para o vermelho, passando pelo laranja, e do vermelho para o verde, Miloco levantava as escovas, esfregava, puxava, lavava os vidros sujos de lama e de mosquitos.
Dos carros vinham berros, e às vezes injúrias! Os condutores, de lentes fumadas, subiam os vidros, desviavam o olhar, aceleravam, não se atrevendo a enfrentar o rosto da verdade. Por vezes, por uma nesga da janela, com as portas bem trancadas, uma mão, estendida sem convicção, atirava uma moeda, uma moeda de pouco valor, para o asfalto.
Miloco agradecia com um breve clarão de felicidade a iluminar-lhe o rosto.
No início da Primavera, numa manhã muito cedo, camiões azuis cercaram a aldeia de papel.
Ninguém teve tempo de fugir.
Homens de uniforme e capacetes prateados juntaram as crianças no meio da rotunda e contaram-nas.
Levaram Miloco para uma casa grande, numa colina, longe da cidade. Atrás dos muros altos e escuros, não via nem mar nem horizonte. As lágrimas inundavam-lhe as faces.
Havia muitos companheiros como ele, Milocos nus e de pés descalços, que olhavam por cima dos muros do jardim, para a liberdade que lhes tinha sido roubada. Miloco sentia-se prisioneiro.
Então pensou muito na sua aldeia, naquele país distante desenhado no mapa do mundo em letras minúsculas. Rascunhou à mãe um postal cheio de sol, de céu azul, de passeios cheios de flores, de ruas imensas e coloridas. Contou que diante do aeroporto, perto do supermercado, debaixo da ponte, tinha uma casa só sua, uma casa de cartão.
Certa manhã, quando a claridade penetrava no parque, Miloco saltou o muro. Nu e descalço, desatou a correr, sem olhar para trás, em direcção à rotunda do supermercado e escondeu-se no fundo da sua cabana.
Ficou ali muito, muito tempo, escondido no seu refúgio, a espiar o mais pequeno ruído, assustado com o ruído dos motores.
Depois, pouco a pouco, entreabriu a porta e aventurou-se a sair. Um calor suave acariciou-lhe as faces.
A partir daí, todas as noites, conta os camiões que chegam de algures. Por entre o nevoeiro e a chuva, espreita as sombras furtivas que deslizam na escuridão. Fica à espreita da sombra da mãe. Gostava que ela estivesse ali, que o apertasse nos braços até ele perder a respiração.

Tradução e adaptação
Jean Siccardi; Joly Guth
Miloko
Draguignan, Lo Païs d’Enfance, 2004

Shégué, Príncipe da Rua - Dominique Mwankumi

Shégué é um príncipe da rua.
Abandonado pelos pais desde a mais tenra idade, passa as noites dentro de uma caixa de cartão com os brinquedos que ele próprio fabrica.
Não é o único. Outros meninos, como o seu amigo Lokombe, vivem nas mesmas condições.
De manhã muito cedo, Lokombe acorda-o:
— Eh! Shégué! São horas da descarga, vamos, se não, já não encontramos nada.
Pelo caminho, os dois amigos ouvem os risos de alguns adultos que troçam deles.
— Cuidado, Lokombe! Não te magoes nas garrafas partidas, nas latas de conserva velhas e nos restos de frigoríficos enferrujados…
— Não te preocupes. Sei bem o que ando a fazer.
Mais à frente, empoleirado num carro velho, Shégué, com a ajuda de um alicate, um martelo e um cinzel, recupera pedaços de chapa e fio eléctrico. Sabe do que precisa para fazer brinquedos.
Apesar do terrível calor do meio-dia, os dois amigos lá conseguem arranjar uma grande quantidade de material. Há bastante tempo que estão a esticar com cuidado os fios de arame em cima de uma pedra lisa.
— Cuidado, Lokombe! Não te magoes nas garrafas partidas, nas latas de conserva velhas e nos restos de frigoríficos enferrujados…
— Não te preocupes. Sei bem o que ando a fazer.
Mais à frente, empoleirado num carro velho, Shégué, com a ajuda de um alicate, um martelo e um cinzel, recupera pedaços de chapa e fio eléctrico. Sabe do que precisa para fazer brinquedos.
Apesar do terrível calor do meio-dia, os dois amigos lá conseguem arranjar uma grande quantidade de material. Há bastante tempo que estão a esticar com cuidado os fios de arame em cima de uma pedra lisa.

Tia molende yo ko zua, tia molende, tia molende yo ko zua
(Não desistas, hás-de alcançar o que desejas,
Não desistas, hás-de alcançar o que desejas.)

canta Shégué com todo o entusiasmo, enquanto constrói primeiro um avião, depois um carro e a seguir uma moto.
— Ah! Se eu pudesse fazer aviões a sério, motas a sério e carros a sério… — sonha ele – seria muito, muito rico!
Mal acabam o trabalho, Shégué e Lokombe vão a correr para o mercado para venderem os brinquedos.
Têm de esperar muito tempo, de estômago vazio.
Por fim, lá vem um cliente, depois outro: os brinquedos de Shégué são todos comprados.
É dinheiro bem merecido, que vai servir para arranjar comida. Mas, a poucos passos dali, uns vadios vigiam as vendas… Três sombras aproximam-se de Shégué:
— Hoje é o teu fim! — diz-lhe uma voz.
Os agressores querem roubar-lhe o dinheiro. Com sorte, Shégué consegue escapar. Corre, corre até não poder mais. Que susto!
Esgotado, de barriga vazia, Shégué deita-se na sua caixa de cartão.
As noites são difíceis para um príncipe da rua!
No dia seguinte de manhã, ainda mal refeito do susto, vê chegar o amigo Lokombe, que vem buscá-lo para de novo voltarem ao trabalho.
Pelo caminho, os dois amigos vão comendo qualquer coisa.
Naquele dia, Shégué constrói um magnífico instrumento de música. Consegue mesmo tocar umas melodias que, em pouco tempo, atraem um círculo de admiradores.
— Que talento, Shégué! É magnífico esse instrumento. E tocas tão bem! Encanta-me com a tua música e saberei recompensar-te.
O menino tem um grande sucesso. Em pouco tempo enche os bolsos de dinheiro. Depois do espectáculo, fortuna feita, Shégué vai comprar roupa nova, porque é assim que fazem os meninos ricos daquele grande país. Dali em diante, o menino Shégué não será mais um príncipe da rua.
Para ele, uma nova vida vai certamente começar.



Dominique Mwankumi
Prince de la rue
Paris, Archimède, L’école des loisirs, 1999