Mostrar mensagens com a etiqueta pobreza. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta pobreza. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Ninguém e o Pássaro Azul - Fernando Cardoso


Vou contar-vos uma história. Não é uma história alegre. Mas a vida também não é só feita de risos. De gargalhadas. É um pouco como a rosa: bela e com espinhos. Às vezes com muitos espinhos...
Vou falar-vos de um menino real. Real sem realeza. Real porque verdadeiro. Verdadeiro porque existe.
Vou falar-vos de um menino de seis anos. Que não parece ter seis anos. Porque o seu corpo é franzino. Porque os seus olhos são demasiadamente tristes.
Esse menino chama-se NINGUÉM. E não sabe o resto do nome. O sobrenome. Nunca lho disseram. Nunca ouviu chamar pelo nome do Pai. Porque o Pai fora mais cedo para o Céu — explicaram-lhe um dia.
NINGUÉM vive numa água-furtada. Direi que vive num velho caixote cravado num telhado de telhas partidas. E como é muito pequeno só chega ao parapeito da janela com as débeis mãozitas.
Às vezes põe-se em bicos de pés. Quer ver a rua. Os carros e as pessoas. As pessoas e os carros. Mas NINGUÉM não vê ninguém. Nem os carros. Nem a rua.
Então NINGUÉM vai buscar um tosco banco de madeira. A Mãe dissera-lhe que era perigoso empoleirar-se no banco. Mas às vezes NINGUÉM não resiste à tentação. E sobe. Sobe mas não vê o que queria ver. Porque NINGUÉM está sempre na mesma. Não cresce. Pelo menos não cresce ao ritmo da sua vontade de ver a rua, as pessoas e os carros.
Mas os seus olhos grandes e tristes ficam menos tristes, quando salta para cima do tosco banco de madeira. Porque, nessa altura, NINGUÉM vê uma nesga de Céu. Um pouco de sol. Uma nuvem que passa.
E NINGUÉM gostaria de ser nuvem. Ir pelo Céu fora visitar o Pai. E de lá ver a rua, os carros e as pessoas.
NINGUÉM é um rapazinho que pensa e sonha. Sonha e pensa. E nem sequer tem brinquedos para brincar...
Só de longe a longe NINGUÉM vê a Mãe. Só de longe a longe, porque a Mãe de NINGUÉM trabalha a dias em várias casas. Esfrega escadas. Esfrega escadas. Esfrega escadas.
Quando ela vai para o trabalho, é muito cedo. E NINGUÉM ainda dorme. Quando regressa a casa, é muito tarde. E NINGUÉM já dorme.
NINGUÉM gostaria de ter um irmão para conversar e brincar. Mesmo sem brinquedos. Embora NINGUÉM não saiba precisamente o que é brincar. Nem sozinho nem com o irmão que nunca teve.
NINGUÉM não se importaria de dividir com ele o pão e a sopa. O pouco que a Mãe lhe deixa todos os dias.
A princípio NINGUÉM não compreendia porque estava sempre sozinho. Por que motivo só via a Mãe de longe a longe.
Então a Mãe contou-lhe a história do Pequeno Polegar. A única história que ela lhe contou. E explicou-lhe que preferia trabalhar todo o dia a abandoná-lo por não ter de comer. Tal como fez a mãe do Pequeno Polegar. E como infelizmente tantas outras. Por não terem comida para dar aos filhos. E não só por isso...
NINGUÉM compreendeu que estava condenado a viver sozinho. Praticamente sozinho. Naquele cárcere. Naquele velho caixote cravado no telhado de telhas partidas. Sem ver a rua, os carros e as pessoas. Sem ver a Mãe, senão de longe a longe.
Ele tinha, por vezes, mais fome de falar do que de co­mer. Por isso, a cada passo falava com a Mãe. Embora a Mãe não o ouvisse. Estava longe a trabalhar.
— Obrigado, Mãe, pela sopa. Está tão boa! Tu sabes que eu gosto da sopa de feijão. É por isso que a fazes tantas vezes. Não é verdade, Mãe?
Outras vezes, NINGUÉM agradece uma fatia de chouriço, de marmelada ou de queijo.
Que importa que a Mãe não o ouça?! NINGUÉM precisa de lhe falar. E de lhe agradecer. Sobretudo depois de ela ter contado a história do Pequeno Polegar...
Um dia NINGUÉM estava muito triste. Imensamente triste. Tinha partido a tigela da sopa. Desejava dizer à Mãe que a tinha partido sem querer. Sem culpa. E disse. Disse como sempre. Sem a presença da Mãe.
Mas desta vez ele pretendia que a Mãe soubesse do seu desgosto. Ouvisse mesmo a sua voz. Já que ainda não sabia escrever...
E à noite resolveu não se deitar. Iria esperar pela Mãe. Noite fora.
Mas quando a Mãe chegou, encontrou-o a dormir junto à porta. Com os cacos da tigela nas suas débeis mãozitas.
A Mãe deitou-o e agasalhou-o o melhor possível. E beijou-o. Beijou-o com a leveza e a ternura das mães.
Era Outono. Lá fora o vento arrancava impiedosamente as folhas das árvores.
Ela compreendeu o que o filho lhe quisera dizer. E ao outro dia NINGUÉM tinha uma tigela nova. Para comer a sopa de feijão, de que tanto gostava.
Cada vez mais NINGUÉM se convencia de que valia a pena falar à Mãe. Talvez ela o ouvisse. Mesmo distante.
— Mãezinha, eu não vou partir a tigela nova. Eu prometo. Ela é tão bonita! E tem uma senhora linda. Como tu.
Ontem NINGUÉM esteve empoleirado sobre o tosco banco de madeira. A ver a nesga de Céu. Mas não viu nenhuma nuvem passar. Nenhum tapete voador. Porque todo o Céu estava nublado.
Ontem nem desejou ir ao Céu. Porque seria difícil encontrar a Estrela habitada pelo Pai...
E hoje NINGUÉM teve uma visita inesperada. Um pássaro azul poisou no parapeito da janela.
A princípio NINGUÉM assustou-se. O pássaro era grande. Grande e azul. Depois compreendeu que viera comer as migalhas que deixara cair na véspera, quando empoleirado no tosco banco de madeira. A ver o Céu nubloso.
Então NINGUÉM perdeu o medo. E quis chegar ao pássaro azul. Com as débeis mãozitas.
Mas o pássaro voou. E NINGUÉM ficou ainda mais triste. Desejava-o para companheiro. Porque gostou dele. E queria com ele matar a solidão.
E na esperança de o pássaro azul voltar, NINGUÉM destinou-lhe parte do pão. Desfê-lo em migalhas. E foi colocá-las no parapeito da janela.
Uma esperança tinha nascido. E algo importante na vida de NINGUÉM. Na vida monótona do pequeno NINGUÉM.
Ao outro dia, mal pôs os pés fora da cama, correu. A ver se o pássaro azul voltara. Mas não!
Então uma lágrima rolou-lhe pelo rosto. Depois lembrou-se de ir ver se as migalhas ainda estavam no parapeito da janela. Subiu ao tosco banco de madeira. Empoleirou-se com ansiedade. Empoleirou-se mais do que nunca. Caiu do banco e magoou-se. Mas não chorou. Pelo contrário. Os seus olhos demasiadamente tristes alegraram-se. Vestiram-se de prata e ouro. O pássaro azul tinha voltado. E mais: tinha comido do seu pão.
Algo animava agora o seu mundo. E com ele o compartilhava. Os dias passaram a ter sentido: dividir o naco de pão com o pássaro azul.
As débeis mãozitas passaram a ser úteis.
E contava à Mãe as visitas do pássaro azul. Talvez a Mãe não o ouvisse. Mas o importante era contar-lhe.
E todos os dias preparava as migalhas para o pássaro azul. É certo que não o via. Mas o importante é que ele vinha todos os dias comê-las. Como todos os dias a Mãe vinha dormir a casa. Embora NINGUÉM não a visse.
E um dia o Céu desabrochou. Abriu-se em luz. O ribombar dos trovões assustou o pequeno NINGUÉM. E o pássaro azul veio bater-lhe à janela. Com o longo bico.
NINGUÉM subiu ao tosco banco de madeira. Um pouco pasmado. Um pouco a medo. Um tanto encantado. E abriu-lhe a janela.
Lá fora chovia torrencialmente. E nas telhas partidas a chuva parecia tocar estranha sinfonia. O pássaro azul sacudiu as asas molhadas. Depois ficou imóvel sobre o parapeito da janela.
NINGUÉM não sabia o que fazer. Olhava-o de baixo para cima. De boca e olhos muito abertos.
Tinha-lhe falado tantas vezes... e ele distante. E agora que ele estava ali faltavam-lhe as palavras.
Emudecera por completo. Rendido a tão forte e estranha emoção.
Desejava fechar-lhe a janela. Para que ficasse sempre a seu lado. Mas o pássaro azul podia zangar-se. E NINGUÉM não queria.
Incapaz de articular palavra, foi buscar-lhe mais migalhas.
Quando voltou, encontrou-o sobre o tosco banco de madeira. O pássaro azul aproximara-se dele. Era como se o céu azul entrasse todo de repente pelo velho caixote...
E NINGUÉM ganhou coragem. Estendeu-lhe a débil mãozita. E o pássaro azul depenicou as migalhas de NINGUÉM. Uma a uma.
Os olhos demasiadamente tristes de NINGUÉM brilhavam. De uma felicidade até aí nunca experimentada. Porque o pássaro azul comera da sua débil mãozita.
De novo tentou falar-lhe. De novo a voz se lhe prendeu. Talvez por não saber que dizer. E tantas coisas que tinha para lhe dizer. E tantas para lhe perguntar.
Prendera-se-lhe a voz. Talvez porque tudo aquilo era bom demais para ser verdade. Talvez porque tivesse a sensação de estar a sonhar. Não era a primeira vez que sonhava com o pássaro azul.
Entretanto o pássaro azul voou para cima do parapeito da janela.
NINGUÉM estremeceu. Teve a noção do risco. Da perda do amigo. Do seu único amigo.
Lá fora a chuva deixara de cair. Há muito também se deixara de ouvir a estranha sinfonia da chuva nas telhas partidas.
E o pássaro azul olhou-o também com olhos tristes. Como que a dizer que tinha de partir.
Depois NINGUÉM, estupefacto, ouviu-o despedir-se: Adeus! Obrigado! Adeus! Adeus!.
NINGUÉM ainda estendeu as débeis mãozitas. Como a implorar-lhe que não o deixasse sozinho.
Mas o pássaro azul já não viu o seu gesto. E partiu. Voando.
Então NINGUÉM voltou a vestir os seus olhos demasiadamente tristes. Da cor da violeta.
O pássaro azul não regressou mais. Nem sequer ao telhado das telhas partidas. Para comer as migalhas de NINGUÉM.
Todos os dias NINGUÉM se empoleirava no tosco banco de madeira. E todos os dias descia derreado com o peso da mágoa. Da mágoa de o pássaro azul já não querer as suas migalhas. Até que NINGUÉM adoeceu.
À noite a Mãe deu por isso. Porque NINGUÉM não tinha comido nada. Absolutamente nada.
Ao outro dia a Mãe não foi trabalhar. E correu a chamar o médico.
NINGUÉM ardia em febre. E no entanto o clínico não descobriu qualquer doença.
– Ele delira. É da febre. Só fala num pássaro azul. Num pássaro azul que lhe disse adeus e lhe agradeceu. – comentou o médico um tanto irónico, um tanto intrigado.
Tudo por causa do isolamento. Havia que preencher os dias de NINGUÉM. De alguma forma. Urgentemente. Aconselhou o médico.
A Mãe comprou então uma «caixa mágica». Uma televisão. Para NINGUÉM se distrair. E ensinaram-no a abri-la e a fechá-la. A Mãe pagá-la-ia aos poucos. A prestações. Todos os meses. Muitos meses. Com o suor do rosto. Com o esfregar escadas. Infinitas escadas.
Mas NINGUÉM só queria o pássaro azul. Que não se vendia a prestações. Nem a pronto pagamento...
— O pássaro azul há-de voltar. Há pássaros que emigram. Que vão para muito longe. No Inverno. Vão em bandos para outros climas e regiões. Mas regressam. Regressam sempre no bom tempo — dizia a Mãe para o conformar.
NINGUÉM escutava com alívio no peito e esperança nos olhos.
A ideia de que as aves voltavam sempre fez-lhe bem. Melhor que todos os medicamentos que o médico receitara.
O pássaro azul viria com a réstia de Sol. Com o céu azul. E os seus olhos, demasiadamente tristes, vestiram-se de anil.
Se NINGUÉM tivesse asas, iria ao seu encontro. E conven­ceria o seu amigo a regressar mais cedo. NINGUÉM enroupá-lo-ia nas noites frias. Nas noites de Inverno. Nas noites de inferno... Sem tecto estrelado.
Mas NINGUÉM tinha que esperar. Esperar ansiosamente. Desesperadamente. E entretanto quis matar o tempo. Começou a abrir a caixa mágica. A ver pessoas e carros. Outras ruas, cidades e países.
E viu guerras sangrentas que não queria ver. Fogos pos­tos. Destruição de florestas. Destruição de casas. Pessoas dormindo ao relento. Lautos banquetes e crianças famintas. Homens sem humanidade. Tiro aos pombos, aos pombos da paz. Poetas falando com espuma de raiva ao canto da boca. Homens agredindo-se brutalmente no ringue. E senhores de pomposos trajes ferindo animais com farpas e bandarilhas.
Por vezes, NINGUÉM hesitava em abrir aquela caixa mágica. Não sabia se era melhor estar só. Completamente só. A pensar no momento em que veria a Mãe. Ou no regresso do pássaro azul.
Um dia, dois homens levaram a caixa mágica. Eram empregados do Senhor Gordo. Da Loja da Esquina. Que a mandara buscar. Porque a Mãe não tinha pago a última prestação. Porque o dinheiro fora para a Farmácia. Para o Médico. Mas NINGUÉM não deitou uma só lágrima. E os seus olhos ficaram tão dolorosamente tristes como antes.

*

NINGUÉM descobriu depois um formigueiro. E entretinha-se a ver as formigas. Num louco vaivém sempre a trabalhar. Sua Mãe era uma formiga grande – pensou.
Ainda quis falar com uma. Todas passavam indiferentes. Sem sequer olharem para NINGUÉM.
Conversavam umas com as outras. Lá isso conversavam. NINGUÉM gostaria de saber o que diziam. Devia ser ainda sobre o trabalho. Devia!
NINGUÉM agarrou numa laboriosa formiga. Colocou-a sobre uma rolha de cortiça. E pô-la a boiar num alguidar com água. Ofereceu-lhe uma viagem de barco...
Mas nem assim conquistou a sua amizade. Nem assim lhe arrancou uma palavra.
NINGUÉM compreendeu que amizade é reciprocidade. Como o amor. Um dar e receber. Uma troca de atenções, de carinho, de respeito, de consideração. E as formigas devem ser muito amigas umas das outras. Mas nem olhavam para o pequeno NINGUÉM. Que entretanto as esqueceu...
Passados alguns dias NINGUÉM deparou com um ratinho. A sua corrida veloz assustara-o. Depois quis aproximar-se dele. Mas o ratinho fugia. E ficava a espreitá-lo por um minúsculo buraco. NINGUÉM dava-lhe do seu pão. Ele comia. Mas sempre às escondidas. Nunca na sua presença. E muito menos nas suas débeis mãozitas.
O pequeno rato tinha medo. Embora NINGUÉM jamais lhe fizesse mal. Mas como convencê-lo? Se fugia sempre. À menor aproximação. Ao menor passo. Ao menor movimento dos lábios para lhe falar.
Então NINGUÉM compreendeu que era importante o diálogo. E a confiança.
Cada vez mais NINGUÉM desejava a companhia do pássaro azul. Aquele Inverno tão longo estava a acabar. Quando o pássaro regressasse, havia de ter coragem. Coragem para dizer-lhe as palavras que ficaram no silêncio. Que guardara no fundo do coração.
À noite a réstia de Céu começava a ter o semblante das cidades. As estrelas pareciam luzes assinalando casas. Ou faróis alertando aves nocturnas. Ou holofotes iluminando seres extra-terrestres.
Para NINGUÉM, o cintilar das estrelas era o sinal dos habitantes do Céu. E dos Anjos. Dos Anjos e dos habitantes do Céu. Para comunicarem com as pessoas da Terra. Talvez o Pai procurasse dizer alguma coisa. Com aquele pisca-pisca das estrelas. Mas estaria noutra fatia do Céu. Que não se via daquele velho caixote cravado no telhado de telhas partidas.

*

Numa noite, um vaga-lume poisou no vidro da janela. Numa daquelas noites em que NINGUÉM se empoleirava sobre o tosco banco de madeira. E NINGUÉM teve a sensação de que um bocado de Estrela se desprendera do Céu. Viria visitá-lo? Também acendia e apagava. Como as estrelas do campo azul.
Mas o pirilampo voou de novo. Sem que NINGUÉM pudesse tocar-lhe. Sem que NINGUÉM pudesse perguntar-lhe de onde vinha.
Dias depois uma moleirinha entrou no velho caixote. Talvez viesse dar uma boa nova. NINGUÉM correu para ela. Na ânsia de apanhá-la, tirou-lhe as asas sem querer. Ela ficou triste. Sem se mexer nem andar. Então NINGUÉM empurrou-a. Com a débil mãozita. E viu que a borboletinha já não parecia o que era. Já nem podia voar. Compreendeu o que fizera e quis colar as asinhas... Não conseguiu. Os seus olhos tristes ficaram ainda mais tristes. Embora no mundo de NINGUÉM haja homens a tirar as asas a outros homens. Conscientemente. Deliberadamente.
NINGUÉM quis dar-lhe de comer. Mas a moleirinha não comia pão nem sopa. E agora não voava. Não podia ir à procura de alimento.
NINGUÉM foi encontrá-la inerte no dia seguinte. Sem vida. E dos seus olhos vestidos de negro brotaram lágrimas de dor. E as débeis mãozitas colocaram-na no parapeito da janela. Para que alguma Estrela a viesse buscar.
NINGUÉM contou à Mãe a morte da moleirinha. E ficou a saber que elas se alimentam do néctar das flores.
Mais tarde outra moleirinha entrou no velho caixote. NINGUÉM correu a afugentá-la com amor. Precisava da sua companhia. Lá isso precisava. Mas sorriu ao vê-la voar pela janela fora...

*

Certa noite NINGUÉM sonhou com o regresso do pássaro azul. E de manhã acordou com o bater na vidraça do velho caixote. Onde vivia.
De um salto sentou-se na cama. Seria de facto o regresso do pássaro azul? Ou ainda estaria a sonhar? Teve vontade de ir a correr. Mas ao mesmo tempo receava uma desilusão. Não seria o vento a bater a janela contra o velho caixote? Havia que vencer aquela angústia, feita de medo e esperança.
Como um sonâmbulo foi buscar o tosco banco de madeira. Subiu nervosamente para cima dele. Os olhos transfiguraram-se-lhe. Vestiram-se de verde ao ver o pássaro azul. Era ele. Não havia dúvida. Era ele. Ele! Ele!
Abriu-lhe a janela, acariciou-o. Passou as débeis mãozitas pelas penas. Pelas penas do pássaro azul. As suas desapareceram com aquele regresso...
Vendo-o ferido na asa correu a buscar um frasco e algodão. E em jeito maternal pintou a ferida de líquido vermelho.
— Quem lhe teria feito aquela ferida? Talvez um bom caçador. Com muita pontaria. Mas um mau homem. Com pouca sensibilidade — reflectiu NINGUÉM.
A amizade com o pássaro azul cimentava-se. Cada vez mais. NINGUÉM abrira o coração. Deixara sair, uma a uma, todas as palavras que há muito calara dentro de si.
E o pássaro azul falava-lhe da longa viagem que acabara de fazer.
E NINGUÉM adormecia feliz ao ouvi-lo. Era como se tivesse uma avozinha, de cabelos brancos, a contar-lhe histórias. Só que as histórias do pássaro azul eram vividas por ele. Eram verdadeiras.
NINGUÉM sentia-se a voar, espaço fora. Enquanto escutava o pássaro azul. Como se flutuasse com ele. Todos os dias. E maravilhado observasse as brancas montanhas. Os verdes prados e florestas. As cidades e as aldeias. As casas pequenas. As pessoas minúsculas. E aqui e além o imenso mar. Por vezes tão azul como o azul do Céu.
As descrições do pássaro azul sobre a longa viagem encantavam NINGUÉM. Mas o seu sonho acordado era voar até ao Céu. Uma vez lá, o Pai levá-lo-ia a passear de estrela em estrela. Disso estava certo. Já que na Terra não podia andar com ele. De rua em rua. Como as outras crianças.
O pássaro azul comoveu-se com o desejo de NINGUÉM. E prometeu voar com ele. Ao mesmo tempo que afastava uma lágrima com a asa. Iriam numa noite de lua cheia. Naquele mês de Agosto. Em que o luar é mais forte. Para descobrirem mais facilmente a Estrela do Pai.
NINGUÉM não quis partir sem primeiro dizer à Mãe. Esperou longos dias. Até poder falar-lhe da projectada viagem.
Mas a Mãe de NINGUÉM ficou preocupada ao ouvi-lo. E foi de novo a correr chamar o médico. Este considerou que o isolamento era uma vez mais a causa de tal estado.
Tratava-se, em sua opinião, de uma perturbação mental. De um desarranjo de cabeça. NINGUÉM iria primeiro para o Hospital. E depois para uma Creche. Mas NINGUÉM esteve poucos dias internado. Os psiquiatras concluíram que NINGUÉM não tinha nada de anormal.
Na Creche NINGUÉM foi encontrar um outro mundo. Educadores e muitas outras crianças. Já tinha com quem falar.
Tudo aquilo teria sido bom. Mesmo muito bom. Mas não agora. Agora que tudo estava planeado para a grande viagem ao Céu.
E NINGUÉM chorava em vez de brincar. Agora tinha à volta um jardim, bolas, baloiços, rapazes e raparigas. Podia brincar... Mas NINGUÉM chorava! Chorava porque queria ir para casa. Para o velho caixote cravado no telhado de telhas partidas.
Queria dizer ao pássaro azul o que acontecera. Fora tudo tão repentino. Não pudera avisá-lo. Queria vê-lo. E ouvi-lo dizer que mantinha a sua promessa de o levar à Estrela. A ver o Pai.
Mas ninguém escutava NINGUÉM. Os adultos comentavam que não estava melhor. E algumas crianças troçavam dele. Com risos e ditos.
Depois começaram a escutá-lo. Até que deixaram de jogar à bola e andar de baloiço. Para escutarem os diálogos entre NINGUÉM e o pássaro azul.
O Director da Creche entendeu que NINGUÉM estava a prejudicar as outras crianças.
E NINGUÉM foi transferido para outra Creche. E as crianças foram previamente avisadas. Não deveriam dar atenção às conversas de NINGUÉM.
Algumas menos sonhadoras chamaram-lhe tolo. Por gestos. Por palavras. Por palavras e gestos.
Os olhos demasiadamente tristes de NINGUÉM choravam. Não por aquele nome. Não por aquele insulto. Que culpa tinham elas de não conhecerem o pássaro azul? De não o terem como amigo?
Chorava porque nunca mais voltara a ver o pássaro azul, isso sim! E estava a perder a esperança de passear de estrela em estrela.
Um dia NINGUÉM, ao contemplar as flores do jardim e o firmamento, viu o pássaro azul. Correu e gritou por ele. Com toda a força.
As outras crianças riram. Riram muito. Mas Miguel viu um pássaro azul. Grande e azul. A descer em direcção a NINGUÉM. E poisar na árvore mais próxima.
Donde estavam não ouviam o que NINGUÉM e o pássaro azul diziam. Mas viram NINGUÉM regressar. E pela primeira vez aos saltos. Aos saltos. Alegre e feliz. Como se saltasse à corda com o arco-íris.
Uns mais crentes, outros menos. Mas todos falavam da amizade de NINGUÉM com o pássaro azul.
Só Miguel se aproximou de NINGUÉM. Porque também o Pai dele habitava aquele campo azul. Onde as estrelas nascem como papoilas.
NINGUÉM via em Miguel o irmão com que sonhara. Podia contar-lhe tudo. Tudo. Ele não ria. Absorvendo cada palavra pronunciada. Talvez o Pai dele dormisse numa Estrela próxima da Estrela de seu Pai.
Ao cair de uma noite o pássaro azul apareceu. Junto ao jardim da Escola. E – como prometeu – voou rumo ao Céu levando NINGUÉM.
No dia seguinte NINGUÉM falou da viagem. Aos educadores e às crianças. Contou a deslumbrante viagem pelo espaço infinito. Os planetas e galáxias que avistara. As estrelas que percorrera.
Os jardins móveis e os repuxos de água multicor que observara. Os lagos que atravessara cavalgando em cisnes de prata. As crianças e homens cantando em coros que escutara. E sobretudo a alegria de ver o Pai. Poeta e pintor. E de ter dourado com ele arestas das Estrelas.
Fora tudo tão belo. Belo demais para caber nas palavras do pequeno NINGUÉM.
As crianças ouviam encantadas a narração de NINGUÉM. Muito especialmente MIGUEL. Que aguardava ansiosamente um dia. O dia em que um pássaro azul o levasse também a ver o Pai.
Porém os adultos olhavam NINGUÉM com ares descrentes. Os adultos só acreditam no que vêem.
Para o Director da Creche, NINGUÉM era prejudicial às outras crianças. E NINGUÉM voltou para o velho caixote cravado num telhado de telhas partidas.
Miguel chorou à despedida. NINGUÉM abraçou-o fraternalmente. Mas não deitou uma lágrima. Ia poder falar mais tempo com o pássaro azul.
E assim foi num dia. Quando NINGUÉM já vestia os olhos de amarelo. Amarelo de desespero por estar só. O pássaro azul surgiu no parapeito da janela.
NINGUÉM pediu-lhe que o levasse para o Céu. Para a Estrela onde o Pai dourava os contornos com arte. Lá tudo era mais belo. Desde a harmonia das coisas. E das pessoas.
Que contraste com o que vira na caixa mágica!
Mas o pássaro azul retorquiu-lhe:
— NINGUÉM, o teu lugar é aqui na Terra. Mas poderás lá ir as vezes que quiseres. Veloz como o teu pensamento.
— Eu quero ficar lá sempre. Porque lá tudo é mais bonito. Maravilhoso.
— Tu não percorreste tudo. Foi a tua imaginação e os teus olhos que emprestaram beleza ao que viste. Virás a gostar da Terra. Basta que a olhes com os mesmos olhos. E um dia terás pena de ser forçado a deixá-la. Até esse momento tu tens uma missão a cumprir. Tu fazes falta, NINGUÉM. Nem imaginas a falta que fazes.
— Como poderei eu, tão pobre, fazer falta?
— Porque sabes sonhar. Sonhar acordado. Porque amas o que é belo. O céu. As flores. Os animais. Porque és sensível à dor alheia. Porque sofres quando vês sofrer. Porque tens alma de poeta.
— Como sabes?
— Observei-te enquanto olhavas a caixa mágica. Vi quanto sofrias em cada imagem de guerra. Por cada criança com fome. Por cada pobre sem abrigo. A cada soco. A cada estocada. A cada tiro. A cada destruição. E tenho provas da tua bondade. Ao repartires o pão comigo. Ao tratares da ferida que me fizeram. Ao quereres dividir a comida pelo irmão que desejavas ter. Vi-te no jardim a acariciar uma flor. Como se fosse Princesa. Vi-te chorar quando os rapazes roubaram um ninho. Vi-te perdoar insultos com resignação. A tratares as estrelas e as pedras como irmãs. Vi-te beijar as mãos calejadas do velho jardineiro. E oferecer duas lágrimas ao educador que não te compreendeu.
— E que posso fazer eu?
— Lutar por ti. Por tua Mãe. Por todos os que vivem como tu. Em velhos caixotes.
— Mas eu detesto as lutas. As guerras.
— Poderás lutar sem armas. Uma frase ou um poema vale mais que uma espingarda. Poderás tocar o coração dos homens. Um avarento, um ladrão e até um assassino podem arrepender-se. E tornar-se bons. É preciso que alguém lhes faça sentir a maldade. Os monstros que albergam. Que trazem dentro de si. Que não lhes dão nenhuma felicidade. E que é necessário arrancar-lhes. Como as carraças aos pobres cães. Ou o joio ao loiro trigo.
— Esses «monstros» são os demónios de que me falaram na Creche?
— Chama-lhes doenças da alma, se quiseres.
— E o que é a alma?
— Direi que é a própria vida. Como que a corda de um boneco. De um boneco de corda...
— Não entendo. Mas que poderei eu fazer?
— A Terra precisa de poemas e canções de amor. E de actos. Muitos actos de amor. Tua Mãe também faz da sua vida de trabalho um verdadeiro hino de amor. Que te oferece todos os dias. Discretamente. Quando esfrega as escadas, a própria escova canta uma canção de amor. E acalenta-lhe a esperança de dias melhores. Embala-a na ideia de que um dia serás grande. E feliz.
— Mas pergunto de novo, o que poderá fazer um pobre como eu?
— Houve poetas pobres. Pobres de bens materiais. E de cultura. Alguns analfabetos. Mas ricos. Muito ricos de sensibilidade. De imaginação. imaginação. Verdadeiros filósofos da vida. Amantes do Ser e não do Ter.
— Mas afinal quem és tu, que sabes tantas coisas? — perguntou intrigado o pequeno NINGUÉM.
— Eu, eu — balbuciou nervosamente o pássaro azul. Depois quedou-se num total silêncio. E NINGUÉM continuou a interrogá-lo:
— És Fada ou ave encantada? Ou vieste de outro Planeta? Em algum disco voador? Ou és sonho acordado? Ou serás o poeta de meu Pai?
E de repente o pássaro azul ergueu-se. E desfez-se em fumo perfumado.
NINGUÉM ancorou as lágrimas ao cais do seu coração. E sentiu que no sangue das suas veias navegava um poeta.
Iria ter a coragem dos gigantes. Que importava ser pequeno? Ainda não sabia escrever. Mas o pássaro azul até lhe falara de poetas analfabetos.
A ideia de ser útil aos outros encheu-lhe a alma de alegria. E os seus olhos demasiadamente tristes de cor de violeta vestiram-se para sempre de rosas. De rosas brancas.


O tempo passou. Passou a correr. E NINGUÉM cresceu. Hoje NINGUÉM é um HOMEM. Hoje NINGUÉM É ALGUÉM. Porém, os seus olhos continuam tristes. Muito tristes. Porque continuam a existir muitos NINGUÉNS.



Fernando Cardoso
Ninguém e o pássaro azul
Portugalmundo, 1998
Texto adaptado

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Um Poder Absoluto - Ana Glória Lucas

Além-Mar
Março, 2003

Excertos

São mais poderosas do que muitos Estados. As empresas multinacionais impõem as suas regras, sobretudo junto dos países pobres, escolhem os de mão-de-obra barata para montar as suas fábricas, poluem e exploram trabalhadores à medida dos seus interesses, sempre na lógica do lucro. E, cúmulo dos cúmulos, ainda se permitem algumas vezes exigir indemnizações a países que têm milhões de habitantes ameaçados de fome.
Comecemos por definir o que é uma empresa multinacional. Segundo o Centre Europe-Tiers Monde (Cetim), um organismo sedeado em Genebra e que actua como consultor das Nações Unidas, trata-se de “pessoas jurídicas de direito privado, com múltipla implantação territorial, mas com um centro único de decisão. (...) Desenvolvem a sua actividade na produção e nos serviços, praticamente em todas as esferas da actividade humana, e também na especulação financeira. E nestas três esferas actuam simultânea, sucessiva ou alternadamente”.
Mais adiante, no mesmo documento do Cetim, de Junho de 2002, pode ler-se: “As suas actividade abarcam diferentes territórios nacionais, variando com rapidez e relativa frequência os lugares em que estão implantadas, em função da sua estratégia baseada no objectivo do lucro máximo.” E, a seguir: “O carácter transnacional das suas actividades permite-lhes iludir o cumprimento das leis e regulamentos nacionais e normas internacionais que consideram desfavoráveis aos seus interesses”.
E, no objectivo de obter o máximo lucro, objectivo esse “que não admite nenhum obstáculo”, são frequentes as práticas que passam pela promoção de guerras de agressão e conflitos inter-étnicos para controlar os recursos naturais do planeta e favorecer a expansão e os lucros da indústria bélica”, “a violação dos direitos laborais e dos direitos humanos em geral” e “a degradação do meio ambiente”, para além da corrupção de funcionários para se apoderarem dos serviços públicos essenciais mediante privatizações fraudulentas e lesivas dos direitos dos utentes” e da “corrupção das elites políticas, intelectuais e dos dirigentes da sociedade civil”.
Neste documento, o Cetim chama a atenção - aliás já não pela primeira vez – para a “confusão entre poder económico e poder político”, nomeadamente no caso dos Estados Unidos, onde tem a sua sede a maioria das multinacionais mundiais, e recorda como já há quatro décadas o então presidente Dwight Eisenhower chamava a atenção para a influência nefasta que tinha sobre o Governo o “complexo militar-industrial”. E lembra como as três grandes figuras da actual administração George W. Bush, Dick Cheney e Colin Powell tinham antes os seus nomes ligados às indústrias petrolíferas e da aviação e comunicações.
O poder das multinacionais estende-se neste momento à própria Organização das Nações Unidas, que lhes abriu as portas através do denominado “Global Compact”, da qual fazem parte algumas das principais multinacionais mundiais, como a British Petroleum, a Shell, a Nike, a Nestlé e a Ciba-Geigy, para citar apenas algumas. A finalidade anunciada por Kofi Annan é a de corrigir os desequilíbrios da globalização, mas a verdade é que um pacto deste tipo acaba por se traduzir numa certa promiscuidade entre empresas e um organismo internacional como a ONU, que, de resto, já em 1993 suprimira organismos criados para manter um controlo sobre as actividades das multinacionais, especialmente na área social.
Calculam-se em 63 mil as empresas multinacionais com 690 mil filiais estrangeiras. Controlam dois terços de todo o comércio mundial e são mais poderosas do que muitos Estados, mesmo ricos. Por exemplo, o volume de vendas da General Motors (EUA) é superior ao produto interno bruto da Dinamarca, e o da Exxon-Mobil (EUA) supera o da Áustria. As 23 multinacionais mais poderosas vendem mais do que exportam países como o Brasil, a Indonésia ou o México.
Só que estes volumes de vendas raramente se traduzem em riqueza para os países onde as multinacionais estão implantadas. Veja-se como exemplo o caso da Bolívia. Hidrocarbonetos, telecomunicações, caminhos-de-ferro, transportes aéreos e electricidade estão nas mãos de multinacionais, que nos últimos cinco anos eliminaram 10 mil postos de trabalho. As reservas de gás natural são as segundas mais importantes da América Latina, avaliadas em 80 mil milhões de dólares. As exportações de gás só para o Brasil renderam às multinacionais algo como 5000 milhões de dólares em duas décadas, tendo o Estado boliviano recebido em impostos e outras regalias apenas 80 milhões de dólares.

Violações dos direitos

A área de actuação das multinacionais estende-se a todos os sectores da economia. Dos combustíveis à aviação, dos têxteis ao calçado, dos pesticidas à indústria automóvel, da indústria alimentar aos produtos de higiene, dos produtos farmacêuticos às telecomunicações e aos computadores, nada fica fora da alçada das multinacionais.
No que se refere aos trabalhadores, as multinacionais não são exactamente os melhores amigos destes. Numa contradição espantosa com os números que representam para a economia mundial, as multinacionais empregam apenas três por cento da força de trabalho mundial, preferindo muitos vezes os chamados países do Sul, onde a mão-de-obra é abundante e barata – mesmo que pouco qualificada.
De um modo geral, nos Estados que criam condições atraentes para a implantação das multinacionais, estas traduziram-se numa descida das condições laborais e dos direitos dos trabalhadores, com um aumento da precaridade dos postos de trabalho. E os despedimentos são frequentes para reduzir custos e tornar as empresas mais atraentes, seja para aquisição por outras seja para cotação nas bolsas.
Em muitos países, são as populações indígenas as que mais sofrem, vendo-se muitas vezes expulsas das suas terras – especialmente se estas forem ricas em recursos naturais a fim de facilitar a actividade das grandes empresas estrangeiras.
O meio ambiente também não está nas preocupações das multinacionais, que actuam indiferentes à contaminação ambiental que podem causar. Resíduos industriais poluentes ou resíduos médicos e hospitalares são muitas vezes largados em países do chamado Terceiro Mundo, sem qualquer respeito pelas populações que vivem nas proximidades. Talvez por todas estas razões as multinacionais tenham levantado tantas objecções à ideia da criação de um tribunal mundial para o ambiente, sugerida durante a Cimeira da Terra que se realizou em Joanesburgo, em Setembro de 2002.
A propósito, recorde-se aqui o de¬sastre que afectou a localidade indiana de Bhopal em Dezembro de 1984, quando uma fuga de gás tóxico numa fábrica de pesticidas da Union Carbide (EUA) provocou quase 15 mil mortos, no imediato e ao longo destes mais de 18 anos, e uma contaminação ambiental que se estendeu por um raio de 1,5 quilómetros.

Disputas judiciais

O mais irónico de tudo isto é que as multinacionais não hesitam em recorrer a processos jurídicos contra países, por mais pobres que sejam, quando sentem que os seus interesses estão em causa.
O caso mais recente e flagrante é talvez o da multinacional suíça Nestlé, que, em Dezembro de 2002, processou a Etiópia por uma nacionalização que remonta a 1975, exigindo-lhe uma indemnização de seis milhões de dólares. A Nestlé, que controla o mercado de café, é uma das 15 empresas mais rentáveis do planeta, tendo obtido em 1999 lucros da ordem dos 3000 milhões de dólares. Isto enquanto a Etiópia, que em 2002 não conseguiu mais de 175 milhões de dólares com as vendas do café, devido à descida do preço desta matéria-prima, atravessa de novo uma crise alimentar que ameaça de fome 12 milhões dos seus habitantes.
Em Fevereiro de 2002, a multinacional norte-americana Bechtel Corporation pediu uma indemnização de 25 milhões de dólares ao Governo boliviano, na sequência do cancelamento de um contrato de 40 anos para que a empresa Aguas del Tunari, uma subsidiária da Bechtel, fornecesse água à cidade de Cochabamba. O contrato foi cancelado após violentos protestos de rua dos habitantes locais contra o aumento considerável do preço da água que o contrato significou. Em 2000, o mesmo ano dos protestos, a Bechtel apresentou receitas da ordem dos 14.300 milhões de dólares.
Em Abril de 2001, nada menos de 39 multinacionais farmacêuticas processaram o Governo de Pretória por vender medicamentos genéricos contra a sida, num país onde há cerca de cinco milhões de infectados com o vírus. O processo acabou por ser retirado, na sequência de uma campanha internacional.
Ainda na África do Sul, mas num processo em sentido inverso, duas organizações não governamentais, a Khulumani e a Jubilee South Mrica, intentaram nos EUA uma acção contra empresas europeias e norte-americanas – entre elas a União de Bancos Suíços, a Exxon-Mobil e a IBM que, no passado, ajudaram o regime do apartheid no seu desrespeito pelos direitos humanos.

Código de conduta

É consensual entre os especialistas que as multinacionais precisam de adoptar uma atitude mais ética a fim de acabar com alguns dos males que parecem ser intrínsecos à sua actividade: corrupção, violações dos direitos humanos, contaminação ambiental....
Em 1999, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) lançou uma conven¬ção internacional contra as empresas que recorrem à corrupção para atingirem os seus objectivos, as quais ficam sujeitas a acções judiciais, e, no ano seguinte, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, concretizava a sua iniciativa “Global Compact”, a pretexto, como atrás se disse, de corrigir os desequilíbrios da globalização e de fazer respeitar princípios relativos a direitos humanos, normas de trabalho e meio ambiente. Simplesmente, não existem mecanismos para verificar se estes princípios são ou não respeitados.
Logo na altura ficou claro que não se tratava de um código de conduta para multinacionais, porque estas não aceitam submeter-se a nenhum. “Evidentemente que não podemos criar um código de conduta para as empresas. Isso seria uma missão impossível para a ONU”, disse na altura Georg Kell, director executivo do “Global Compact”.
Resta, assim, acreditar que as multinacionais possam algum dia vir a pensar em algo mais do que o lucro próprio.

Os donos do mundo - José Rebelo

Além-Mar
Março 2003

Excertos



As notícias de «deslocalização» de um par de grandes empresas agitaram o País. Os comentadores concordam em afirmar que outras lhes seguirão o exemplo e alguns acham até que fazem pouca falta, porque são especialistas em aproveitar fundos e regalias, mas contribuem pouco para o desenvolvimento. Em contrapartida, deixam atrás de si o drama humano de muitos trabalhadores atirados para o desemprego.
Numa intervenção indignada, o Presidente da República lembrou que «as pessoas não são números». Todavia, para as grandes corporações transnacionais, o que conta é o lucro e não as pessoas. Por isso, de modo geral, não se importam com a defesa dos direitos humanos, laborais, sociais e ambientais.
A título de exemplo, recorde-se que o Centro das Nações Unidas para as Corporações Transnacionais (UNCTC) revelou que metade dos gases responsáveis pelo efeito de estufa são produzidos pelas multinacionais, que também são responsáveis por muitos dos desastres ecológicos. O que têm para oferecer não é muito: apesar dos seus lucros fabulosos, dão emprego apenas a três por cento da mão-de-obra mundial.
Os chorudos proveitos obtidos pelas transnacionais são repartidos pelos seus gestores e accionistas. As nações que fornecem a força de trabalho e os recursos – geralmente do Terceiro Mundo – pouco ganham financeiramente e sofrem, de modo consistente, danos sociais, com a exploração desregrada dos trabalhadores.
Os salários dos seus empregados – a maior parte proveniente das zonas rurais – não chegam para pagar a alimentação, o alojamento, os transportes e as outras necessidades. Acabam nos bairros de lata das grandes cidades, onde não têm apoio familiar e social, e onde frequentemente falta água e saneamento básico, escolas e centros de saúde.
A Organização Mundial de Saúde estima que 1,1 mil milhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,4 não dispõem de uma instalação sanitária adequada. Apesar disso, está em curso um processo de privatização dos serviços de abastecimento de água e saneamento básico, que só contribuirá para o aumento da pobreza e das desigualdades. Quanto mais se alarga a esfera privada, mais se restringe a democracia, os direitos dos mais fracos e a sua capacidade de intervenção social.
Mas o poder destes gigantes privados é enorme. Pela sua influência sobre a produção agrícola, o comércio mundial (controlam dois terços), as finanças e mesmo a política. Em última instância, quem decide não são os governos dos diversos países, mas as eminências pardas que movem nos bastidores as suas poderosas e obscuras teias de interesses.
O seu sucesso baseia-se na habilidade para influenciar as políticas governamentais, conseguir os subsídios disponíveis e conquistar o apoio dos principais actores políticos e económicos. O caso mais paradigmático e perigoso é o dos Estados Unidos, onde os gigantes da energia e da defesa exercem um poderoso lobby sobre os membros da Administração Bush.
A tendência mundial para a liberalização dos serviços públicos, como a saúde, o saneamento e a educação, e de bens essenciais, como a água, a electricidade e o gás, é incentivada pelas multinacionais, que vêem neste sectores, tradicionalmente assegurados pelo Estado, uma nova árvore das patacas.
À medida que os Estados se retiram de sectores essenciais para o bem-estar das populações, as megacompanhias entram em cena. E a lógica é a que todos bem conhecemos: quem pode pagar fica bem servido, quem não pode é esquecido.
Como disse Jorge Sampaio, as pessoas não são coisas nem números. Parece evidente, menos para aqueles que reconhecem como único valor absoluto e único deus o lucro pelo lucro.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho - Jean Ziegler

Jean Ziegler
A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho
Petrópolis, Editora Vozes, 2002
Excertos adaptados


— Quantas pessoas no mundo estão actualmente ameaçadas de morrer de fome?
— A FAO (Food and Agricultural Organization), Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas, avalia, no seu último relatório, em mais de 30 milhões o número de pessoas que morreram de fome em 1999 e, para o mesmo período, em mais de 828 milhões de seres torturados pela desnutrição grave e permanente. São homens, mulheres e crianças que, devido à falta de alimentos, padecem de lesões frequentemente irreversíveis. Ou então morrem num prazo mais ou menos breve, ou vegetam num estado de deficiência grave – cegueira, raquitismo, desenvolvimento precário da capacidade cerebral, etc.
Tomemos o exemplo da cegueira: cada ano, sete milhões de pessoas, normalmente crianças, perdem a vista, na maioria das vezes por falta de uma alimentação suficiente ou como consequência de enfermidades vinculadas ao subdesenvolvimento. Cento e quarenta e seis milhões de cegos vivem nos países da África, da Ásia e da América Latina. Em 1999, Gore Brundtland, directora da Organização Mundial da Saúde, ao apresentar o seu plano “Visão 2020” em Genebra, disse: Oitenta por cento dos afectados na vista seriam perfeitamente evitáveis. Sobretudo por meio de uma dose regular de vitamina A para as crianças pequenas. Em 1990, havia 822 milhões de pessoas severamente afectadas pelo flagelo da fome. Podemos ler de duas maneiras estas estatísticas. Primeira leitura: as vítimas da subalimentação aumentam sem cessar no mundo, especialmente nos países do Sul; mas se comparamos os mártires do flagelo da fome com a progressão demográfica da população mundial, constatamos um ligeiro retrocesso. Em 1990, 20% da humanidade sofria de subalimentação extrema; oito anos depois, “só” 19%.
— Onde vivem as pessoas mais gravemente subalimentadas?
— No sul e leste da Ásia, 18% dos homens, mulheres e crianças padecem de uma severa desnutrição. Na África, o seu número alcança 35% da população continental. Na América Latina e no Caribe, 14%. As três quartas partes dos “gravemente subalimentados” do planeta são gente do campo; a outra quarta parte são habitantes das periferias que se amontoam em torno das megalópoles do Terceiro Mundo.
— A nossa Terra poderia alimentar convenientemente e cada dia todos os seus habitantes?
— Não só isso, mas poderia alimentar pelo menos o dobro da população mundial actual. Hoje em dia somos quase seis biliões de seres humanos na Terra. A FAO, há mais de quinze anos, elaborou um relatório no qual assinalava que o mundo, no estado actual das forcas de produção agrícola, poderia alimentar sem problema mais de doze biliões de seres humanos. Alimentar quer dizer fornecer a cada homem, mulher e criança uma ração equivalente a 2400 ou 2700 calorias diárias, uma vez que as necessidades alimentares variam segundo os indivíduos, em função do trabalho que realizam e das zonas climáticas onde vivem.
— O flagelo da fome não é então uma fatalidade?
— De modo algum. Se a distribuição de alimentos na Terra fosse justa, haveria comida suficiente para todo o mundo.
— Por que razão nunca ninguém nos fala na escola da fome no mundo e das pessoas que a provocam e daquelas que a combatem?
— Para mim, isso também é um mistério. Muitos professores de institutos e de escolas são pessoas abertas, generosas e estão profundamente solidarizadas com a luta dos povos do Terceiro Mundo. Muitos deles alertam os seus alunos quando se declara uma fome grave e promovem-se colectas públicas. No entanto, não sei de nenhuma escola onde o tema da fome, que mata todos os dias mais gente do que todas as guerras do planeta juntas, figure no seu programa. Não existe nenhum tipo de ensino onde se analise, se discuta o problema da fome, se examinem as suas raízes e os meios de lhe dar um fim.
Mas os técnicos internacionais dizem as coisas bem claras. Ouve, por exemplo, esta frase que é a conclusão de um relatório da FAO de 1998: Recent trends give no room for complacency as progress in some regions has been more than offset by a deterioration in others. (Os últimos dados não permitem contemplações, uma vez que o progresso numas regiões tem sido anulado pela deterioração noutras.) Isto quer dizer que as batalhas ganhas numa frente são imediatamente anuladas pelas derrotas sofridas noutra.
Os bons sentimentos não bastam, são um luxo para os filhos dos ricos. A calamidade da fome manifesta-se de mil maneiras. O seu aparecimento e os seus efeitos exigem análises precisas e pormenorizadas. Mas a escola não diz nada, não cumpre a sua função. Os adolescentes frequentemente saem dela cheios de bons sentimentos e de uma vaga convicção de solidariedade, mas nunca com um verdadeiro conhecimento, uma clara consciência das origens e dos estragos da fome.
— Como se a fome fosse um tabu?
— Exactamente. Um tabu que dura há muito tempo. Já em 1952 o brasileiro Josué de Castro dedicava todo um capítulo do seu célebre livro Geopolítica da fome a esse “tabu da fome”. A sua explicação é interessante: as pessoas sentem-se tão envergonhadas por saber que uma grande parte dos seus semelhantes morrem por falta de alimento, que ocultam o escândalo com um espesso silêncio. Esta vergonha é compartilhada pela escola, pelos governos e pela maioria de nós.
O nível de alimentação está em relação directa com o nível de bem-estar e com o nível de saúde das pessoas. Por um lado, onde não se come o suficiente, encontramos pobreza, miséria, desnutrição, doença, fome e morte. Por outro, no extremo oposto, onde há meios de subsistência e alimentos, encontramos esperança desde o nascimento, saúde e vida.
Já no ventre da mãe, o bebé sofre as consequências desta desigualdade, inclusivamente na constituição de seu intelecto. A desnutrição da mãe durante a gestação – quando o bebé deve desenvolver o conjunto de células que o constituirão como um ser dotado de todas as suas faculdades – diminui as possibilidades de que a criança nasça, pois a placenta – alimento, água, oxigénio e anticorpos do bebé instalado no útero – não escapa aos danos causados pelas carências de alimentação. A mãe deve nutrir-se convenientemente desde a formação do embrião.
A constituição física e intelectual da criança, a sua capacidade de desenvolvimento e a sua força para o trabalho também dependem da alimentação que vai receber desde o momento do seu nascimento. A criança chega ao mundo num ambiente condicionado: ou com muitos privilégios ou com muitas privações. Nos primeiros anos da história da humanidade, o mundo era aquele no qual o macho mais forte se apropriava da comida da qual necessitavam a mulher e a criança. Hoje, a história não mudou em absoluto, porque os poderosos continuam apropriando-se da comida.
— Por quê esses esqueletos da fome? Por quê esse martírio quotidiano, interminável, para tantas centenas de milhões de seres humanos?
— A causa principal das hecatombes por subalimentação e por fome aguda é a desigual distribuição das riquezas do nosso planeta. Esta desigualdade é negativamente dinâmica: os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Em 1960, 20% dos habitantes mais ricos do mundo desfrutavam de uma renda 3 1 vezes superior à dos 20% mais pobres. Em 1998, o rendimento dos 20% mais ricos é 83 vezes superior à dos 20% mais pobres.
A concentração do rendimento e das riquezas nas mãos de uns poucos progride a grande velocidade.
O conceito de desigualdade soa-nos irreal e o seu significado é insuficiente. O termo aparece num mundo que já não se assusta com as estatísticas. As cifras acima citadas escondem uma realidade de sofrimento e de desespero. A desigualdade negativamente dinâmica que rege a ordem actual do mundo produz a seguinte situação: por um lado, um poder político, económico, ideológico, científico e militar sem limites identificáveis, exercido por uma escassa oligarquia transnacional; por outro, a falta de vida, o desespero e o flagelo da fome vividos por centenas de milhões de seres anónimos. A oligarquia decide o destino da multidão. A massa de vítimas anónimas padece, impotente, a sua própria agonia. Só a brutal imbecilidade de um regime de classes sociais existentes antes do seu nascimento, de ideologias discriminatórias, de privilégios defendidos pela violência explica a desigualdade entre os seres humanos.
A política deve velar para que todos possam saciar a fome. Seria horrível tomarmos como natural o facto de todos os anos morrerem dezenas de milhões de pessoas por causa da subalimentação crónica e da fome aguda. A fatalidade não preside à ordem mortal do mundo. Basta lembrar que no actual estado das forcas produtivas agrícolas, seria possível alimentar sem problemas doze mil milhões de pessoas. Alimentar significa proporcionar a cada indivíduo 2600 calorias por dia. A população actual do mundo chega a menos de seis mil milhões de pessoas. Conclusão: estamos diante de uma falta contingente e não de uma falta objectiva de alimentos. Por outras palavras, o problema da grave fome no mundo é um problema social. As centenas de milhões de pessoas que morrem todos os anos de subalimentação aguda morrem por causa da injusta distribuição de alimentos disponíveis no planeta.
A Acção contra a Fome, organização não-governamental (ONG) de um compromisso exemplar, constata que “um grande número de pobres no mundo carece do alimento necessário, na medida em que a produção alimentar se ajusta à demanda solvente” Quem tem dinheiro, come. Quem não tem, morre lentamente de fome.
Trata-se portanto de civilizar o actual jugo do capitalismo selvagem. A economia mundial é fruto da produção, distribuição, intercâmbio e consumo de alimentos. Afirmar a autonomia da economia em relação à fome é absurdo ou, pior ainda, é um crime. Não se pode abandonar a luta contra essa catástrofe ao livre jogo do mercado.
Todos os mecanismos da economia mundial devem submeter-se a este imperativo primordial: vencer a fome, alimentar convenientemente todos os habitantes do planeta. Para impor este imperativo é preciso criar uma estrutura jurídica internacional, apoiado em tratados e normas.
Jean-Jacques Rousseau escreveu: “Entre o fraco e o forte, é a liberdade que oprime e a lei que liberta”. A liberdade total do mercado é sinónimo de opressão; a lei é a primeira garantia da justiça social. O mercado mundial necessita de normas e de uma restrição imposta pela vontade colectiva dos povos. A luta contra a maximização do lucro como única motivação dos protagonistas que dominam o mercado e a luta contra a aceitação passiva da miséria são imperativos urgentes.
O ser humano é o único vertebrado que pode sentir na sua consciência o sofrimento do outro.
Será que a constituição de uma consciência da identidade, da solidariedade radical com aquele que sofre se infere de um projecto utópico? Não. No decurso da história já ocorreram alguns saltos qualitativos análogos. Por exemplo, o nascimento do Estado. Numa época remota, os humanos fizeram uma escolha fundamental: então, a solidariedade, a identificação com o outro limitavam-se à família, ao clã, por conseguinte, àqueles cujo rosto era conhecido e cuja presença física era sensível; com o nascimento da nação e do Estado, o ser humano fez-se pela primeira vez solidário com aqueles que não conhecia e com os que provavelmente nunca encontraria. Acabava de nascer um sentimento de identidade nacional, algumas instituições de solidariedade, uma consciência suprafamiliar, uma lei comum.
A única identidade humana válida é a que nasce do encontro real ou imaginário com os outros, do acto de solidariedade.
Não pode haver um mundo dentro do mundo, uma inserção de bem-estar num mundo de dor. É inaceitável uma economia mundial que relega para o não-ser a sexta parte da humanidade. Se o flagelo da fome não desaparecer rapidamente do nosso planeta, não haverá humanidade possível. Portanto, é preciso reintegrar na humanidade essa “fracção sofredora”, que hoje está excluída e perece na noite.


Uma lixeira no Paraíso - Martinho Lopes Moural

Martinho Lopes Moural
Além-mar
Fevereiro 2006



Depois de quase 30 anos em África, Martinho Lopes Moura, missionário comboniano, foi enviado para o Brasil. E há seis foi-lhe confiada a paróquia de Guriri, que abrange a ilha do mesmo nome e redondezas. A ilha é um paraíso turístico, mas há um bairro onde as pessoas vivem do lixo que a cidade de São Mateus lhes oferece. Mais uma vergonha para um país que, sendo um dos mais ricos do mundo, tem mais de 50 milhões de miseráveis.

A área da paróquia de Guriri compreende a ilha do mesmo nome e os bairros e povoações ao longo do rio Cricaré até Urussuquara, no limite com o município de Linhares. A ilha ronda os 100 quilómetros quadrados. Até ao século XIX estava rodeada pela lagoa de Suruaca e pelo rio Ipiranga. Com a abertura da baía de Barra Nova, ficou dividida em duas e o percurso do rio Mariricu foi interrompido.

A paróquia fica portanto entre rios e é banhada pelo Atlântico. A população é na sua maioria descendente dos escravos africanos que, depois da abolição da escravatura pela princesa Isabel, aqui encontraram meios de subsistência, pescando e caçando. Outra parte da população é formada por descendentes de índios, de muitas tribos, e uma boa parte são caboclos (mestiços). Há ainda os moradores da estância balnear de Guriri, que para aqui vieram por causa do clima e das águas tépidas do mar. São na sua maioria gente de Minas Gerais ou Capixabas do Espírito Santo, descendentes dos imigrantes italianos que no século XIX desembarcaram na área. Os primeiros moradores foram, é claro, os índios. Vieram do interior e do norte, por vezes para fugir às perseguições que lhes eram movidas pelos outros índios e pelo Governo colonial. Toda esta área é rica em petróleo – os poços são às centenas –, gás natural e sal-gema. No mar e nos rios abundam o caranguejo, o camarão e os peixes das mais variadas espécies, alguns dos quais com muitas dezenas de quilos. A maior parte dos pescadores usam meios artesanais, e no período em que a pesca lhes é interdita sobrevivem com dificuldade. As piranhas, que estão a tornar-se uma praga, também contribuem para diminuir as capturas.

Uma boa parte da população sobrevive, para além da pesca, da agricultura de subsistência e da criação de gado. O turismo é, sem dúvida, a sua maior riqueza. No Verão (brasileiro, entenda-se), a população, de dez mil pessoas, pode chegar a atingir as 70 mil. Os hotéis e restaurantes são poucos, mas muitas famílias têm aqui as suas residências de férias. No Carnaval, o número pode subir para 100 mil. Os residentes têm de sobreviver no resto do ano com os lucros obtidos na época alta (do Natal ao Carnaval), e alugam tudo o que podem para ganhar mais alguma coisa. O turismo também traz consigo a prostituição, que atinge sobretudo os adolescentes dos bairros mais carenciados. As comunidades cristãs eram 19, quando cheguei. Hoje são 22: 11 dentro da ilha e 11 fora. A paróquia tem dedicado muitas energias à formação religiosa, litúrgica e ao acolhimento das pessoas, sobretudo à obra de promoção humana Vida Plena. De uma forma geral, as comunidades são pobres e pouco numerosas, excepto as três maiores, que se encontram no centro da ilha. No Verão, as igrejas do centro ficam superlotadas. Porém, graças a Deus, a participação é boa também durante o resto do ano. A visita às famílias tem sido uma prioridade pastoral e o resultado é evidente: muitas crianças, adolescentes e jovens frequentam a catequese nas comunidades, e até um bom grupo de adultos. As seitas ainda não são um fenómeno significativo.

Comer lixo

As dezenas e dezenas de quilómetros de praias desertas e de mangais, ainda praticamente virgens e onde abunda o caranguejo, são uma atracção a nível nacional e mundial. Os rios estão rodeados pela mata, que vai encolhendo devido ao abate ilegal. Guriri é ainda a sala de visitas da cidade de São Mateus. Muita gente conhece Guriri como um lugar tranquilo, onde se pode descansar, como um paraíso para idosos, devido ao clima quente mas ameno durante todo o ano, às águas sempre mornas.

Mas também no paraíso existe o reverso da medalha. Para o ironicamente chamado Bairro da Liberdade são trazidos os resíduos de toda a cidade. E há muita gente que «vive» no meio da lixeira, ganhando o seu sustento a escolher de entre os desperdícios aqueles que ainda têm alguma utilidade ou valor. As «casas» são barracas. As condições são, como é natural, extremamente insalubres. E a miséria material traz consigo a miséria humana e moral: o alcoolismo e o consumo de drogas estão a aumentar. Através da obra social «Vida Plena» temos ajudado muita gente dos bairros mais carenciados, nomeadamente apoiando a construção de casas decentes, distribuindo mensalmente um «pacote» de alimentos básicos.

A miséria e a falta de higiene são um «viveiro» de doenças de todo o tipo: infecções intestinais, tuberculose, parasitas, lepra, tifo, cólera e dengue. A chuva e a humidade castigam particularmente aqueles que moram em terrenos alagadiços. Depois, a população não pára de aumentar: não é raro encontrar senhoras com dez e mais filhos e adolescentes já mães e com filhos de vários pais. As pessoas não têm empregos estáveis e não conseguem ter acesso a um médico, muito menos comprar medicamentos. No meio de tanta água, muita gente nem sequer dispõe de água potável.

No Bairro da Liberdade, há quem saboreie as últimas gotas de cerveja das latas vazias que vão juntando para vender, há quem alimente a família com os restos do churrasco que sobrou das mesas dos ricos. É vergonhoso: o Brasil, uns dos países mais ricos do mundo, tem mais de 50 milhões de miseráveis.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Excluídas e invisíveis - Carlos Reis

Carlos Reis
Além-Mar, Dezembro de 2006

Milhões de crianças que são vítimas de exploração e discriminação graves tornaram-se invisíveis aos olhos da comunidade internacional. Não são contadas nem tidas em conta. «Desaparecem», quando são objecto de tráfico ou obrigadas a trabalhar como servos. Outras, como as crianças de rua, vivem à vista de todos, mas são sujeitas a maus-tratos e não têm acesso à escola nem a cuidados de saúde.


Bilu e João são dois irmãos que lutam juntos pela sobrevivência, recolhendo cartão e sucata de metal nas ruas de São Paulo, no Brasil. Blanca, de 13 anos, vive um verdadeiro pesadelo por ser portadora do vírus HIV: é discriminada na escola que frequenta em Brooklyn, nos Estados Unidos, e nem os que lhe estão mais próximos a poupam à angústia e ao estigma da doença. Ciro é um adolescente que deixou para trás os pais negligentes e uma família disfuncional, e passou a sustentar-se através do roubo nas perigosas ruas de Nápoles, em Itália. Uros, um menino bósnio internado num degradado reformatório, não quer sair de lá, pois pelo menos ali sente-se protegido: uma vez cá fora, o pai obriga-o de novo a roubar.
Em algumas zonas da África, crianças-soldado de milícias famintas manipulam metralhadoras com destreza. Na China, as diferenças sociais entre duas meninas da mesma idade são gritantes: uma é rica e a outra mal sobrevive a vender flores nos semáforos de uma grande metrópole. Estas poucas e breves histórias ajudam a dar um rosto a milhões de vítimas silenciosas que, para além do mais, são as mais desprotegidas e vulneráveis face ao álcool, drogas, abusos sexuais e físicos, infecções, má nutrição.
As situações de maior vulnerabilidade surgem à margem dos programas de desenvolvimento e permanecem invisíveis em muitas sociedades onde as crianças estão ausentes dos debates, da legislação, das estatísticas e dos meios de comunicação. A pobreza, o VIH/sida e os conflitos armados, aliados a uma má governação e a várias formas de discriminação, excluem da escola e privam de cuidados de saúde muitos milhões de crianças de todo o mundo, o que as torna ainda mais vulneráveis à exploração e à exclusão.
As crianças que vivem em situações de conflito armado, por exemplo, são frequentemente vítimas de violação e de outras formas de violência sexual. O risco de se tornarem esquecidas é maior para as crianças que não possuem identificação: mais de metade dos nascimentos que todos os anos ocorrem nos países em desenvolvimento (excluindo a China) não são registados, o que rouba a mais de 50 milhões de crianças o direito a algo tão fundamental como o estatuto de cidadão, para além de as banirem à partida das estatísticas oficiais. Assim, não são contadas nem tidas em conta.

Guerra e crime
Em Novembro, as Nações Unidas acusaram os militares do Sri Lanka de recrutarem crianças para uma milícia que luta contra o grupo separatista Tigres Tamil. O conselheiro especial da ONU, Allan Rock, representante da ONU em questões relacionadas com Crianças e Conflitos Armados, afirma que tem provas do envolvimento directo de soldados do país no alistamento forçado de crianças para a milícia dissidente dos Tigres Tamil, a Facção Karuna. «Encontrámos provas directas e indirectas de cumplicidade e participação», assegura Allan Rock, comentando o facto de crianças de 13 e 4 anos terem sido raptadas de pequenas povoações sem que tivessem sido realizadas investigações ou prisões por parte das forças de segurança.
No Sudão, durante os longos anos da guerra, «a Igreja Católica foi a única fonte de esperança para milhares de crianças», diz o cardeal Gabriel Wako, arcebispo de Cartum e presidente da Conferência Episcopal. «Uma das maiores preocupações da Igreja sudanesa são as crianças órfãs. Infelizmente, a guerra deixou um grande número de órfãos de pai e muitos perderam ambos os pais. Por não terem uma família que se ocupe delas, a situação destas crianças é muito difícil e precária. Até aqueles que vivem apenas com a mãe se encontram em dificuldades, porque, infelizmente, as mulheres são uma das categorias mais desfavorecidas da sociedade sudanesa.»
Nesse sentido, a Igreja está a apostar em programas de ajuda à infância, «sobretudo no campo sanitário e do ensino», assegura o cardeal. Um pouco por todo o mundo, ela é uma das instituições que mais contribuem para fazer face às necessidades das crianças excluídas. Apenas um exemplo: é graças à generosidade das próprias crianças dos 110 países onde se encontra presente a Obra da Santa Infância que estão a ser financiados mais de três mil projectos de assistência aos menores mais carentes.
Embora os governos e a sociedade civil também se encontrem envolvidos em inúmeros programas de apoio, muitas permanecem desprotegidas. Só na fronteira entre a Argentina, Brasil e Paraguai, milhares de crianças e adolescentes vivem em condições de pobreza extrema, em “casas” sem saneamento ou água potável. Para além do mais, o crime organizado que grassa na região representa uma grave ameaça, de que as crianças são vítimas preferenciais. Entre os seus “negócios” contam-se a exploração sexual, o tráfico de drogas e de seres humanos.

Violência e discriminação
Muitos actos de violência perpetrados contra as crianças permanecem na sombra e têm muitas vezes a aprovação da sociedade. A violência contra as crianças inclui violência física, psicológica, discriminação, negligência e maus-tratos e acontece em qualquer lugar, em todos os países e sociedades e em todos os grupos sociais. Utilizando diversos estudos e dados sobre a população, a Organização Mundial de Saúde estima que, no mundo actual, as relações sexuais forçadas que envolvem menores de 18 anos afectam 73 milhões.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho, dos 218 milhões de crianças trabalhadoras, 126 milhões estão envolvidas em trabalhos perigosos e prejudiciais, 5,7 milhões realizam trabalhos forçados em regime de servidão, 1,8 milhões estão envolvidas na prostituição e 1,2 milhões já foram vítimas de tráfico. Desprovidos de cuidados dos pais, milhões de órfãos, crianças de rua e de jovens detidos crescem sem o afecto e protecção familiar. Estima-se que 143 milhões de crianças de países em desenvolvimento – 1 em cada 13 – perderam pelo menos um dos pais.
Muitos dos Estados frágeis, países que não têm meios ou vontade para proporcionar serviços básicos aos seus cidadãos, discriminam os menores com base no sexo, etnia ou deficiência. Estes factores de exclusão impedem a entrada de milhões de menores na escola e bloqueiam a prestação de serviços essenciais. Calcula-se que haverá no mundo cerca de 150 milhões de crianças portadoras de deficiência, muitas delas sem possibilidade de acesso à educação, cuidados de saúde ou apoio afectivo em consequência de uma discriminação sistemática. Um número seco e assustador: anualmente, cerca de 53 mil menores são vítimas de homicídio.
A violência tem «consequências duradoiras, não apenas para as crianças e seus familiares mas também para as comunidades e países», alerta Ann Veneman, directora executiva da Unicef. Para Paulo Pinheiro, perito independente nomeado pelo secretário-geral das Nações Unidas para liderar o estudo «Violência contra as Crianças», «a melhor forma de tratar do problema é impedir que aconteça. Todas as pessoas têm um papel a desempenhar, mas cabe aos Estados assumir a principal responsabilidade.

Desemprego e pobreza
Em todo o mundo, o desemprego é outro dos grandes problemas que os jovens enfrentam. E que faz que um em cada quatro – cerca de 300 milhões de pessoas – viva abaixo do limiar da pobreza. Segundo a Organização Internacional de Trabalho (OIT), o número de jovens entre os 15 e 24 anos que estão desempregados aumentou de 71 milhões, em 1995, para 85 milhões, no ano passado. A população juvenil cresceu 13 por cento entre 1995 e 2005, enquanto a disponibilidade de empregos para este segmento da população só registou um crescimento de quatro por cento. Como consequência, os jovens desempregados representam 44 por cento do total de desempregados a nível mundial. Estima-se que sejam necessários 400 milhões de empregos produtivos, ou mais e melhor emprego, para aproveitar o potencial da juventude actual.
«A incapacidade das economias para criar empregos produtivos está a atingir os jovens em todo o mundo», afirma o director-geral da OIT. Segundo Juan Somavia, além de gerar um défice de oportunidades de trabalho e altos níveis de incerteza económica, esta preocupante tendência ameaça desperdiçar um dos principais recursos de qualquer sociedade – a juventude. «Neste momento, estamos a desperdiçar o potencial económico de uma grande parte da população, em especial nos países em desenvolvimento, que são os que menos se podem permitir esse desperdício. Por isso, os países devem concentrar-se nos jovens», preconiza.
As regiões do Médio Oriente e do Norte de África registam a taxa mais elevada de desemprego juvenil (26 por cento), quase o dobro da que se verifica na União Europeia: 13 por cento. Mesmo nos casos em que existe emprego, isso não quer dizer que assegure o sustento dos jovens. Ainda de acordo com a OIT, a pobreza afecta cerca de 56 por cento dos jovens trabalhadores, que se confrontam também com a possibilidade de ter largas jornadas de trabalho, contratos a termo certo, salários baixos, protecção social reduzida ou inexistente.
Regista-se também um preocupante aumento do número de jovens que não trabalha nem estuda. Na verdade, o acesso à educação continua a ser um problema para muitos e o analfabetismo ainda é um desafio importante em muitos países em desenvolvimento. Os desafios são maiores para as jovens, já que em algumas regiões, devido à tradição cultural, não se lhes concede a oportunidade de conciliar o trabalho doméstico com um emprego.
Mas, apesar de um cenário tantas vezes tão negro, os jovens dispõem de um capital único: não perdem a capacidade de sonhar.

Doçura e Bondade - Guerra Junqueiro

Há entre vós, meus filhos, índoles violentas, que não sabem dominar-se, e que se deixam arrastar pelas primeiras impressões. É um grande defeito, e urge emendá-lo: conduz a desavenças e à prática de acções cujo arrependimento chega tarde. Citar-vos-ei dois casos, de que fui testemunha.

Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada.
— Oh! Senhor! — exclamou o outro — Mal sabe o remorso que vai ter! Bateu num cego!


**

Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a bater no burro, para o fazer correr.
O homem apeou-se, foi direito a eles, e mostrando-lhes a sua perna aleijada, disse-lhes:
— Se soubésseis que eu era coxo, não teríeis sido tão covardes.
Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma palavra.
O que vos parece estas duas lições? Estou convencido de que aproveitaram a quem as recebeu.

Guerra Junqueiro
Contos para a Infância
Porto, Editora Justiça e Paz, 1987



Laura-Flor - Matilde Rosa Araújo

— Laura Flor, vem cá!
A Laura veio e era como uma flor. Delicada e suave flor igual ao nome.
Depois, foi a Maria Clara de tranças belas, castanhas, nariz arrebitado, sorriso claro – e Clara se chamava. A apertar a bata, na cintura, um cinto feito de papéis de lustro de cor, arco-íris naquela cintura de menina.
Depois, a Maria Odete, figurinha que parece ter saído de uma jarra, sempre com muitos cuidados a andar, a falar, jeito que lhe ficou de estar dentro da jarrinha. Uns olhos orientais, um sorriso que é quase choro, franjinha negra sobre os olhos à flor da pele.
— Maria Odete, se eu fosse ao Oriente e encontrasse uma flor, lembrava-me logo de ti!
— Pois é! Ela tem os olhos em bico! — diz uma companheira, pronta a tirar conclusões.
Maria Odete começa a chorar. A caírem-lhe as lágrimas devagarinho, brilhantes, também com cuidado, lentas, luminosas.
Eu não sei o que vou dizer, mas digo. Não sei o que disse, mas Maria Odete sorri. Devagarinho, também as lágrimas acabam de cair.
A que disse que a Maria Odete tinha os olhos em bico é tal e qual uma maçã dourada, redonda, toda muito por igual: maçã suspensa, nítida, decidida.
As meninas todas olharam com admiração a flor do Oriente.
Eu é que não devia dizer estas coisas, eu é que tenho a culpa – pensar alto. Mas havia reparado ontem na Maria Odete a dizer-me que não tinha livro nenhum.
— Foi tudo na cheia de ontem, minha senhora...
— E nunca mais os viste?
— Nunca mais! A minha bata, apanhei-a hoje na valeta... Até o dinheiro que ficou está a secar, preso por molas.
Diz isto com uma vozinha de quem canta dentro da tal jarra.
— Sabe a senhora? As minhas vizinhas dizem que vão reclamar ao Ministro...
—...?
— Porque não arranjaram aquele cano... É por isso que eu hoje não trago bata nem tenho livro...
— …
— ... nem tenho dinheiro para comprar outro...
Diz isto tudo muito serena, com um ar de quem está a contar a história mais natural deste mundo. História tão cinzenta que na voz dela até parece um conto de fadas ao contrário.
A menina linda com os olhos à flor da pele, transparentes e escuros ao mesmo tempo. Puros. A infância desarmada.
— Senhor Ministro, devia ter mandado arranjar o cano. Não tenho livro, não tenho bata, o pouco dinheiro está a secar, preso por molas...
Tão serena. As lágrimas vagarosas de hoje – como meninas que saíram a passear para uma ilha imaginária.
Senhor Ministro, desça abaixo ao seu jardim...
Mas o Senhor Ministro não ouviu. Não desceu. Sabe lá o que é ter o pouco dinheiro preso por molas e os livros a irem na cheia.
E deve ter aprendido na escola, no liceu, que Camões salvou os Lusíadas a nado. E que deixou o fim do poema para Laura Flor escrever. Com uma peninha de rouxinol.


Matilde Rosa Araújo
As botas de meu pai
Lisboa, Livros Horizonte, 1977

O tesouro de Clara - Beatrice Alemagna

Clara vive no Brasil.
Não possui quase nada. Tem uma pele de âmbar e cabelos pretos.
Veste uma t-shirt grande e, nos pés, traz sandálias de borracha, faça chuva ou sol.
Clara tem doze anos. Trabalha num orfanato.
A sua função é limpar a cozinha e, de vez em quando, pode fazer de mãe dos mais pequeninos. E gosta muito disso.
À quinta-feira, é o dia de descanso de Clara. É então que sai…
A cinquenta metros, perto de um banco que está fechado, estão todos juntos à espera dela. Olham uns para os outros, sorriem, regalam-se de antemão.
São os seus amigos: Lúcia, Ângelo e Ana. Não têm casa e dormem onde calha, nas ruas do Rio.
Lúcia tem oito anos. Os seus cabelos são como ninhos de andorinha. Está sempre a rir e a mexer as mãos e os pés.
Ângelo é pequeno mas muito forte para os seus onze anos.
Um dia, conseguiu mesmo levantar uma bicicleta. Está sempre descalço.
Caminha sem dificuldade sobre as pedras. Canta as canções escritas por aqueles que viajaram e viram muitos países. Canta muito bem, o Ângelo.
Ana é a mais bem-comportada. Não fala muito.
Tem doze anos, tal como Clara, que conheceu há muitos anos naquele sítio, diante do banco.
Por vezes, Lúcia, Ângelo e Ana vão trabalhar na produção do algodão. Outras vezes, varrem as ruas. Ou então, os pescadores chamam-nos à praia para puxarem as redes. Depois, encontram-se, sonham em conjunto, com o nariz no ar, a olhar para as nuvens e a contar os dias até quinta-feira.
Ângelo, Lúcia e Ana têm muitos amigos na rua.
Alguns respiram uma cola contida em garrafas de plástico, o que os faz sorrir sem razão nenhuma.
Quando Clara encontra os amigos, vão todos a correr para a praia. Atiram areia à cara uns dos outros. Cantam Pescadores dos três mares e comem o pão que os turistas lhes dão. Lúcia, Ângelo e Ana não querem daquela cola que faz esquecer os problemas.
Eles têm Clara. Clara é a mercadora de sonhos.
Não é que os venda realmente; em vez disso, dá-os de prenda.
Clara sonha muito alto com lugares maravilhosos. Praias compridas e douradas, com barcos, papagaios de papel e papagaios de verdade.
Montanhas encantadas cobertas de gelo e criaturas estranhas, onde sopra um vento mágico, do norte. Um vento que te adormece e te acorda cem anos mais tarde.
Cidades futuras cheias de luz. De carros que voam e de parques de estacionamento floridos. E de um fogo de artifício feito de pequenos comboios brilhantes, de pizzarias e de arranha-céus espelhados.
E Clara fala-lhes de um Rio sem adultos.
Onde só há crianças gentis e alegres, que têm os dentes todos. Que saltam sobre os carros e invadem as lojas de bombons.
Ela oferece-lhes vales inteiros de árvores carregadas de frutos, com quatro sóis amarelos no meio do céu e com camponeses ricos, vestidos de comerciantes.
E Clara transforma os monumentos antigos da cidade em palácios das Mil e Uma Noites, e os gatos que passam em tigres da Malásia.
Clara conta os seus sonhos durante horas.
Ela estudou quatro anos na escola e lê todos os livros que encontra.
Agora, é tarde. Clara levanta-se, sacode a areia das mãos e volta para o orfanato. Os amigos escutaram-na, de boca aberta.
Riram e choraram. E os olhos deles arregalar-se-ão de novo na próxima quinta-feira.
Para eles, não há cola.
Eles têm Clara.
E muitos sonhos bons para viverem ainda…


Beatrice Alemagna
Le trésor de Clara
Paris, Autrement Jeunesse, 2000


Miloko - Jean Siccardi

Miloco é um menino descalço e esfarrapado. Vive na rua. Veio de longe, de um país distante, assinalado com letras minúsculas no mapa do mundo.
Numa noite, por entre a chuva e o nevoeiro, desembarcou ali, vindo não se sabe bem de onde. De olhos cheios de sono e cansaço, com outras crianças, com outros Milocos como ele, que, de imediato, se espalharam pelos quatro cantos da grande cidade.
Percorreu as ruas rente às fachadas de persianas corridas. Seguiu os candeeiros como os marinheiros seguem as estrelas. Caminhou durante muito tempo até de madrugada Depois, esgotado, adormeceu na praia, embalado pelo ressoar das ondas.
Os gritos das gaivotas e dos alcatrazes acordaram-no. Viu os barcos deslizarem displicentes nas águas do mar. Tinha fome. Subiu a grande avenida das lojas e dos supermercados. Invisível, transparente, a multidão não deu por ele.
Miloco não passava de um menino descalço e esfarrapado.
Um dia, na rotunda da auto-estrada, em frente ao aeroporto, perto do supermercado, encontrou outros garotos como ele, Milocos nus e de pés descalços, que o adoptaram.
Por baixo da ponte de acesso à auto-estrada, abrigado do vento e das intempéries, Miloco, com as caixas de cartão dos frigoríficos, cartões enormes de televisores, e de outros objectos
fúteis e sem importância, construiu uma casa só para ele, fechada por arame, entre as cabanas dos seus novos companheiros.
Miloco sentia-se bem.
À noite, junto da fogueira, cantava e até ria.
Os amigos tinham-lhe emprestado uma escova, panos de limpeza e uma garrafa com lixívia que fazia balões multicores com os reflexos do sol.
Miloco, na rotunda do supermercado, esperava os carros que paravam no semáforo. Entre a mudança do verde para o vermelho, passando pelo laranja, e do vermelho para o verde, Miloco levantava as escovas, esfregava, puxava, lavava os vidros sujos de lama e de mosquitos.
Dos carros vinham berros, e às vezes injúrias! Os condutores, de lentes fumadas, subiam os vidros, desviavam o olhar, aceleravam, não se atrevendo a enfrentar o rosto da verdade. Por vezes, por uma nesga da janela, com as portas bem trancadas, uma mão, estendida sem convicção, atirava uma moeda, uma moeda de pouco valor, para o asfalto.
Miloco agradecia com um breve clarão de felicidade a iluminar-lhe o rosto.
No início da Primavera, numa manhã muito cedo, camiões azuis cercaram a aldeia de papel.
Ninguém teve tempo de fugir.
Homens de uniforme e capacetes prateados juntaram as crianças no meio da rotunda e contaram-nas.
Levaram Miloco para uma casa grande, numa colina, longe da cidade. Atrás dos muros altos e escuros, não via nem mar nem horizonte. As lágrimas inundavam-lhe as faces.
Havia muitos companheiros como ele, Milocos nus e de pés descalços, que olhavam por cima dos muros do jardim, para a liberdade que lhes tinha sido roubada. Miloco sentia-se prisioneiro.
Então pensou muito na sua aldeia, naquele país distante desenhado no mapa do mundo em letras minúsculas. Rascunhou à mãe um postal cheio de sol, de céu azul, de passeios cheios de flores, de ruas imensas e coloridas. Contou que diante do aeroporto, perto do supermercado, debaixo da ponte, tinha uma casa só sua, uma casa de cartão.
Certa manhã, quando a claridade penetrava no parque, Miloco saltou o muro. Nu e descalço, desatou a correr, sem olhar para trás, em direcção à rotunda do supermercado e escondeu-se no fundo da sua cabana.
Ficou ali muito, muito tempo, escondido no seu refúgio, a espiar o mais pequeno ruído, assustado com o ruído dos motores.
Depois, pouco a pouco, entreabriu a porta e aventurou-se a sair. Um calor suave acariciou-lhe as faces.
A partir daí, todas as noites, conta os camiões que chegam de algures. Por entre o nevoeiro e a chuva, espreita as sombras furtivas que deslizam na escuridão. Fica à espreita da sombra da mãe. Gostava que ela estivesse ali, que o apertasse nos braços até ele perder a respiração.

Tradução e adaptação
Jean Siccardi; Joly Guth
Miloko
Draguignan, Lo Païs d’Enfance, 2004

Chico

Chico vive numa aldeia perdida num dos muitos países de África. Podia ser em Angola, no Senegal ou no Ruanda. Podia chamar-se Chico, Abuabar ou N’gouda. Há muitos Chicos em África. Chicos de olhos brilhantes e pés descalços, com a cabeça povoada de sonhos, com vontade de ter um futuro para viver.
Como quase todos os seus companheiros, Chico levanta-se bem cedinho pela manhã. Ajuda a mãe a tratar das duas cabrinhas, Flor e Kenchú, e só depois parte para a escola.
Chico gosta particularmente de Flor. Foi ele quem lhe pôs o nome, no mesmo dia em que ela chegou à palhota, apertada nos braços fortes do pai, ainda mal se segurando nas patinhas frágeis, e a berrar pela mãe. Fora um vizinho que lha dera, como forma de pagar a ajuda no arranjo da cabana.
Na primeira noite, Flor berrou todo o tempo a chamar pela mãe e nem deixava que Kenchú tentasse acalmá-la com lambidelas carinhosas.
Deitado na sua esteira, Chico não conseguia adormecer. Entendia tão bem a cabrinha! O pai dele arranjara trabalho longe, lá na cidade, e só podia vir a casa de quinze em quinze dias. Às vezes, para fazer mais algum dinheiro, ficava fora mais tempo. Quando chegava a hora de regressar à cidade, o pai dizia-lhe que se portasse como o chefe da casa e que devia obedecer à mãe. Como se fosse preciso dizer-lho! Ele bem sabia que a mãe, com o trabalho na fazenda do Sr. Macedo, com os gémeos de três anos e Linita, de oito, não podia fazer tudo e precisava da ajuda dele.
Sempre que o pai partia, Chico ficava triste o resto do dia, mas depois passava. Quando a saudade lhe enchia o peito até cima e parecia querer saltar-lhe pelos olhos, apertava com muita força na mão o seixo que o pai lhe dera naquela tarde em que Chico pescara o maior peixe da sua vida. O pai explicara-lhe que tinha arranjado na cidade um bom trabalho, mas que ia deixar de poder vê-los todos os dias. Depois, metera a mão na água e tirara dois seixos, os mais bonitos que Chico alguma vez vira, e colocou-lhe um na palma da mão.
— Quando tiveres muitas saudades minhas, apertas com força esta pedrinha. A tua saudade vai passar para a minha pedra e eu vou recebê-la e tu vais sentir-te acompanhado.
Em certas ocasiões, as saudades eram tantas que acabavam por conseguir irromper para fora e duas lágrimas teimosas, quentes e grossas, deslizavam suavemente pela face castanha-escura de Chico.
Ah, como ele compreendia a cabrinha malhada com a manchinha branca na testa! Esgueirou--se para fora da palhota sem acordar os pais e os irmãos que dormiam, saiu para a noite quente e húmida e entrou na cabana dos animais. Passou a noite inteira deitado ao lado de Flor, que se acalmou e acabou por adormecer com a cabeça poisada no peito de Chico. No dia seguinte, já aceitou de bom grado o leite que Kenchú lhe oferecia.
Os pais estranharam a mudança mas, durante algum tempo, a causa dessa transformação ficou um segredo entre Chico, Flor e Kenchú.
Só depois de ordenhadas as cabras e de lhes ter deitado de comer, é que Chico saía para a escola.
À saída da aldeia encontrava-se com Djimbu e Mkembé, os seus dois melhores amigos, e juntos faziam o caminho até à escola das Missões.
Ir à escola era do que Chico mais gostava. O seu maior sonho, já segredado para dentro das orelhas de Flor e contado ao pai, durante uma tarde de pesca, era, um dia, poder ensinar outros meninos como ele a ler e a escrever. E haveria de trabalhar tanto, que iria até conseguir dinheiro para comprar uma bicicleta novinha para os irmãos, igual a uma que vira um dia. Bem, do que ele gostava mesmo, mesmo, era de um dia poder ter um carro como o do Sr. Macedo, o dono da fazenda onde a mãe às vezes ia trabalhar. Mas esse era o seu maior segredo e ainda não se atrevera a contar a ninguém, nem mesmo a Flor. Claro que, se o contasse a Djimbu ou a Mkembé, eles também iam querer, e deixava de ser um desejo só dele…
Sempre que o Sr. Macedo vinha à casa grande, somente de tempos a tempos, Chico ficava parado no caminho a observar o grande carro branco e brilhante, tão brilhante que, quando o sol cintilava nos vidros, até fazia doer os olhos, e assim ficava perdido no seu segredo.
Ao chegar à escola, Chico notou um alvoroço desacostumado. Alguns homens em manga de camisa transportavam caixas para dentro do edifício da escola. Pareciam todos muito bem dispostos, e até o Palhinhas, o cão acastanhado do professor, soltava latidos alegres e abanava a cauda, bem disposto.
Chico, Djimbu eMkembé estugaram o passo. Que confusão!
Quando a velha furgoneta partiu, deixando a velha escola atafulhada de caixas, sentaram-se, de pernas cruzadas no chão, e o professor deu início à abertura das caixas.
Era uma encomenda vinda da Europa com uma oferta de material para a escola. Perante o olhar fascinado das crianças, o professor foi retirando, com largos gestos teatrais mas sinceros, folhas soltas, restos de cadernos, cadernos e blocos novos e usados. Chico nem queria acreditar! Aquele material podia não ser novo, mas para eles isso não tinha a menor importância e era-lhes muitíssimo útil. Quem o enviara parecia adivinhar exactamente aquilo de que estavam a precisar!
O professor continuou a retirar lápis, lápis novos e usados, restos de lápis, lápis de cor – que bonitas as cores! – canetas – eram tão poucas as que lhes chegavam à escola! – borrachas que apagavam o que o lápis escrevia. Mas o melhor de tudo vinha no último caixote…
Quando o professor o abriu, o rosto iluminou-se num sorriso. Muito lentamente, como um mágico que tira um coelho da cartola, o professor foi erguendo o braço. As crianças, mortas de curiosidade e com os olhos a brilhar, sustinham a respiração. O professor mostrou… Livros!! Livros com imagens cheias de cor! Chico sentiu o coração a bater mais rápido. Parecia-lhe que estava a viver um sonho e só tinha medo de que a mãe o acordasse naquele momento.
Livros! Chico era capaz de ficar horas a fio mergulhado e perdido nas páginas de um livro. Ainda não tinha lido muitos. Só três dos meros vinte que constituíam a magra biblioteca da escola. Podia ser muito reduzida, mas os meninos achavam-se importantes por os terem e manuseavam--nos carinhosamente e com muito cuidado. Chico tinha lido os três mesmo até ao fim, e tantas, tantas vezes, até saber as histórias de cor e poder contá-las à noite, em volta do lume, à mãe, ao pai e aos irmãozinhos, que o escutavam com os grandes olhos castanhos muito abertos de espanto e com a respiração suspensa. Se Chico pudesse, levaria um daqueles para casa para lhos ler. Ficariam certamente ainda mais orgulhosos dele. Se algum dia conseguisse ganhar dinheiro, haveria de poupar até conseguir juntar o suficiente para comprar um grande livro de histórias ou de aventuras para ler aos irmãos. O maior e o mais grosso que houvesse à venda.
Os pensamentos de Chico foram interrompidos pela passagem do professor. Já tinha partido os lápis em pedaços mais pequeninos, que distribuía naquele momento pelos alunos. Cada um ia encaixar o seu pedacinho de lápis numa caninha ou num pau para conseguir aproveitá-lo até ao fim. Tinham autorização para levar o material para casa, mas ninguém o levava com medo de perder as preciosas folhas de papel ou os lápis.
Chico pegou no seu, como quem recebe em mãos uma relíquia ou um tesouro. Não, hoje ia ter muito cuidado. Da última vez que preparara o lápis, no preciso momento em que estava a cortar a cana, o Sr. Macedo apareceu no seu carro brilhante, a apitar a uma gazela que se atravessara no caminho. Por momentos, Chico esqueceu tudo o que estava a fazer, imaginando-se sentado nos bancos macios, por trás do volante, com o vento a acariciar-lhe a face, e a apitar a empalas, zebras e macacos. Zás! Deixou cair o braço e cortou o bico do lápis, que, se já era pequeno, ainda mais reduzido ficou.
Que tristeza! Até deu pontapés no velho embondeiro que se erguia à saída da cabana, tão furioso ficou. Porque é que o Sr. Macedo tinha de aparecer precisamente naquele momento? Por causa daquele carro enfeitiçado, já não teve lápis para escrever ao pai – o encarregado da fábrica lia as cartas aos empregados – naquela altura em que ele esteve muito tempo sem vir a casa. Não, desta vez ia estar com mil olhos. Nem que passassem mesmo ao lado dele dois carros a apitar, ele ia ceder à tentação de olhar!
Ao regressar a casa, Chico apertava com força o seixinho do rio. Tinha tantas novidades para contar em casa! E tanta coisa para escrever ao pai! Queria dizer-lhe que, da próxima vez que viesse a casa, ele, Chico, iria ter novas histórias para contar à noite, junto ao fogo.

I. Birnbaum

Shégué, Príncipe da Rua - Dominique Mwankumi

Shégué é um príncipe da rua.
Abandonado pelos pais desde a mais tenra idade, passa as noites dentro de uma caixa de cartão com os brinquedos que ele próprio fabrica.
Não é o único. Outros meninos, como o seu amigo Lokombe, vivem nas mesmas condições.
De manhã muito cedo, Lokombe acorda-o:
— Eh! Shégué! São horas da descarga, vamos, se não, já não encontramos nada.
Pelo caminho, os dois amigos ouvem os risos de alguns adultos que troçam deles.
— Cuidado, Lokombe! Não te magoes nas garrafas partidas, nas latas de conserva velhas e nos restos de frigoríficos enferrujados…
— Não te preocupes. Sei bem o que ando a fazer.
Mais à frente, empoleirado num carro velho, Shégué, com a ajuda de um alicate, um martelo e um cinzel, recupera pedaços de chapa e fio eléctrico. Sabe do que precisa para fazer brinquedos.
Apesar do terrível calor do meio-dia, os dois amigos lá conseguem arranjar uma grande quantidade de material. Há bastante tempo que estão a esticar com cuidado os fios de arame em cima de uma pedra lisa.
— Cuidado, Lokombe! Não te magoes nas garrafas partidas, nas latas de conserva velhas e nos restos de frigoríficos enferrujados…
— Não te preocupes. Sei bem o que ando a fazer.
Mais à frente, empoleirado num carro velho, Shégué, com a ajuda de um alicate, um martelo e um cinzel, recupera pedaços de chapa e fio eléctrico. Sabe do que precisa para fazer brinquedos.
Apesar do terrível calor do meio-dia, os dois amigos lá conseguem arranjar uma grande quantidade de material. Há bastante tempo que estão a esticar com cuidado os fios de arame em cima de uma pedra lisa.

Tia molende yo ko zua, tia molende, tia molende yo ko zua
(Não desistas, hás-de alcançar o que desejas,
Não desistas, hás-de alcançar o que desejas.)

canta Shégué com todo o entusiasmo, enquanto constrói primeiro um avião, depois um carro e a seguir uma moto.
— Ah! Se eu pudesse fazer aviões a sério, motas a sério e carros a sério… — sonha ele – seria muito, muito rico!
Mal acabam o trabalho, Shégué e Lokombe vão a correr para o mercado para venderem os brinquedos.
Têm de esperar muito tempo, de estômago vazio.
Por fim, lá vem um cliente, depois outro: os brinquedos de Shégué são todos comprados.
É dinheiro bem merecido, que vai servir para arranjar comida. Mas, a poucos passos dali, uns vadios vigiam as vendas… Três sombras aproximam-se de Shégué:
— Hoje é o teu fim! — diz-lhe uma voz.
Os agressores querem roubar-lhe o dinheiro. Com sorte, Shégué consegue escapar. Corre, corre até não poder mais. Que susto!
Esgotado, de barriga vazia, Shégué deita-se na sua caixa de cartão.
As noites são difíceis para um príncipe da rua!
No dia seguinte de manhã, ainda mal refeito do susto, vê chegar o amigo Lokombe, que vem buscá-lo para de novo voltarem ao trabalho.
Pelo caminho, os dois amigos vão comendo qualquer coisa.
Naquele dia, Shégué constrói um magnífico instrumento de música. Consegue mesmo tocar umas melodias que, em pouco tempo, atraem um círculo de admiradores.
— Que talento, Shégué! É magnífico esse instrumento. E tocas tão bem! Encanta-me com a tua música e saberei recompensar-te.
O menino tem um grande sucesso. Em pouco tempo enche os bolsos de dinheiro. Depois do espectáculo, fortuna feita, Shégué vai comprar roupa nova, porque é assim que fazem os meninos ricos daquele grande país. Dali em diante, o menino Shégué não será mais um príncipe da rua.
Para ele, uma nova vida vai certamente começar.



Dominique Mwankumi
Prince de la rue
Paris, Archimède, L’école des loisirs, 1999